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Mágica besta
No domingo, às 9 horas da noite, o ilusionista Darren Brown jogou ao vivo, pela televisão, “roleta russa”. Isso foi notícia antes de ser dado o tiro único. Os argumentos contra eram simples: uso indevido de armas de fogo, mau exemplo etc. Afim de não contrariar as leis britânicas, os cruciais 10 minutos finais foram transmitidos da ilha de Jersey, que não vive só da condição de paraíso fiscal. Na segunda-feira, a imprensa destacou o fato de o ilusionista quase ter entrado pelo cano. Plect Uma vez que, após colocar a bala no tambor do revólver, Darren Brown deu o primeiro tiro na cabeça. Plect, nada. O segundo, idem. No terceiro, ele apontou para o saco de areia no fundo da sala e disparou. Plect. Não, não era a bala. Refeita sua compostura, Darren Brown deu o quarto tiro na cabeça. Plect. E o quinto de novo no saco de areia: foi tiro… e queda de areia. Essa teria estourado os miolos do ilusionista. 3 milhões e 300 mil pessoas viram a ilusão. Nada mau para canal aberto, o Channel 4, que prima pelos seus documentários. Aí as coisas se complicam. O programa que antecedeu a ilusão foi precisamente um documentário. Sobre o suicídio do dr. David Kelly, inspetor de armas das Nações Unidas no Iraque, e fonte de um vazamento que poderia ter derrubado o governo do primeiro-ministro Tony Blair. Uma programação, no mínimo, de gosto dúbio. Quatro pessoas reclamaram às devidas autoridades da “roleta russa” do ilusionista. Nenhuma mencionou o programa anterior. Na terça-feira, muitos jornais britânicos davam destaque ao suicídio por enforcamento de um repórter de TV que falcatruara uma reportagem num submarino que estaria supostamente bombardeando o Iraque. O repórter, da Sky TV, foi desmascarado num documentário da BBC. De um lado e de outro, apenas a tentativa de se fazer jornalismo. Um deles, ilusão. Voltando à “roleta russa”. Curioso ninguém ter prestado atenção no fato de que se tratava de uma ilusão. Nem que Darren Brown se apresenta como ilusionista. Ele gosta de se dizer “ilusionista psicólogo”. Em nenhum momento da façanha ele correu perigo, concordam mágicos, produtores do programa e policiais que investigaram a possibilidade do “suicídio ao vivo”. Mágico não é besta. Besta somos nós. Que acreditamos, por exemplo, em “armas iraquianas de destruição em massa”. |
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