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Atualizado às: 03 de outubro, 2003 - 14h30 GMT (11h30 Brasília)
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Passar mal bem
Ivan Lessa
Ivan Lessa

O primeiro objetivo é não passar mal. Cuidar-se, não pegar ar encanado, aquelas coisas que nossas tias recomendam. Infelizmente, ninguém é de ferro e, vez por outra, passamos mal. Vamos ficar nas doencinhas, que é para não assustar ninguém e não dar azar.

Houve um tempo em que, como todo mundo, eu não sabia o que era passar mal. Era um ou outro resfriado, um leve desarranjo, dor de dente, pretexto para ficar em casa.

Claro que me refiro ao "tempo alegre de criança que se foi".

Depois, as coisas se complicam. Qualquer dorzinha depois dos 30 anos é para ser encarada com a maior seriedade.

Nós, brasileiros, ou estamos morrendo de fome, e disso e daquilo outro, ou então somos saudáveis como touros, para ficar lá pela classe média, que é onde melhor me movimento, ou movimentei.

Nunca cheguei aos exageros de colecionar e trocar bulas, como se fossem figurinhas, hábito popular nesse nível social, mas lembro-me que o papo sempre animava quando se começava a falar em doença.

Talvez porque, jovens, achássemos que todas elas eram rito de transição e passavam logo. Mal sabíamos nós…

Ir ao médico, no Brasil, era quase um prazer. Primeiro lugar, porque quase sempre era um camarada que a gente conhecia do bar que freqüentávamos.

Depois, e principalmente, porque era facílimo descrever o que nos afligia. Era um "treco" aqui, um "negócio" ali, um "troço", uma "coisa" – e todas as imprecisões do mundo acompanhadas de rica mímica e elegantes gestos no ar.

Deixávamos o médico vitoriosos com a receitinha do antibiótico e em pouco tempo estávamos prontos para outra.

Aqui, no estrangeiro, a coisa é outra. Somos obrigados à precisão e à concisão e remédio, apesar de baratíssimo, ou grátis dependendo da idade do freguês, quase nunca vem com bula. Uma leitura e um papo a menos.

Sugiro, pois, ficarem doentes pelo Brasil mesmo que é muito mais seguro e divertido. Principalmente quando se tem, naquela farmácia da praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, o "Zé da Farmácia" para receitar e aplicar a injeção. Mas essa é outra história, outra personagem, outros tempos.

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