|
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Nas malhas da arte
Em Manchester, a que não chamarei de “a Juiz de Fora inglesa”, no bairro de Hulme, nove cidadãos acham-se prisioneiros num campo de internamento erguido em nove dias. Passam horas encapuzados e com as mãos atadas às costas. Sua dieta é parca: mingau de manhã, sopa no almoço, feijão com arroz no jantar. Nenhum deles é torturado ou forçado a dormir ao relento, embora os nove sejam acordados às 5 da manhã para as devidas orações e a subsequente cerimônia do içar da bandeira. Às 11 da manhã passam por uma inspeção médica e, de tarde, recebem correspondência, caso haja. No fim do dia são encarcerados no centro interrogatório e, às 9 da noite, apagam-se as luzes. Dorme quem conseguir. Não se trata de nova campanha na luta contra o crime, mas sim de arte. Arte que vai um pouco além da chamada instalação. Almeja à condição de escultura viva e foi projetada e construída, em terreno abandonado, por Jai Redman, de 32 anos, com doações e uma pequena subvenção do Conselho de Artes local. Nada de muito caro: coisa lá por volta de 5 mil dólares. No preço estão incluídos torre de observação, cerca, arame farpado, holofotes, uniformes cor de laranja e tendas. Os prisioneiros são nove corajosos e anônimos voluntários. O projeto – como muitos já devem ter percebido – é uma réplica, na medida do possível e do que se sabe, do Campo Raio-X, em Guantánamo, onde os americanos mantém prisioneiras mais de 600 pessoas capturadas na guerra contra o Afeganistão. O Campo Raio-X é tido por muitas autoridades jurídicas como uma violação dos direitos humanos e, consequentemente, das convenções de Genebra, o que em nada perturbou os americanos. Da instalação, ou escultura, de Redman – que deverá ficar mantendo sua pose por nove dias, claro –, espera seu responsável chamar a atenção do mundo para o que ele considera um verdadeiro escândalo. Os que notaram uma repetição do número nove nos vários itens da obra de arte, se assim a podemos chamar, saibam que se trata de uma alusão ao fato de que nove cidadãos britânicos estão entre os detidos. Como qualquer obra de arte moderna, discute-se sua identidade como tal. Como qualquer coisa ligada à guerra contra o Iraque, discute-se o mínimo possível. |
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||