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Governo da Bolívia tem que 'mudar de cara', diz analista
O presidente da Bolívia, Gonzalo Sanches de Lozada, terá de reformar seu ministério de maneira ampla e aumentar os subsídios para setores mais carentes a fim de evitar o agravamento da crise no país, segundo Marco Vicenzino, do Centro Internacional de Estudos Estrátegicos, de Washington. "Sanches de Lozada terá de fazer mudar seu gabinete, ao estilo do que ocorreu recentemente no Peru, com o presidente Alejandro Toledo", disse Vicenzino, cientista político especializado em América Latina, em referência à forma que o governo peruano lidou com uma grave crise de popularidade, em junho. A Bolívia tem presenciado protestos populares intensos nas últimas cinco semana. No domingo, os confrontos entre manifestantes e polícia deixaram mais de 24 civis mortos e vários feridos. O catalizador dos protestos recentes foi a decisão do governo de aumentar as exportações de gás natural, provavelmente para o México e para os Estados Unidos. Muitos manifestantes disseram que o gás exportado só enriqueceria empresas estrangeiras. Estrangeiro O problema do gás detonou a realização de vários outros protestos, como os que criticaram os baixos salários no setor de educação e pediram políticas de apoio a pequenos produtores. "A questão do gás acabou servindo de pretexto para que a população falasse das outras frustrações que acometem o país", diz Vicenzino. O especialista acrescenta que, mesmo diante de uma situação fiscal apertada, o governo precisa pensar em uma forma de aumentar os subsídios aos pequenos agricultores e à população de origem indígena, que têm estado por trás de muitos dos protestos no país. Ele lembra ainda que, embora Sanches de Lozada seja boliviano de nascimento, ele foi criado e educado nos Estados Unidos. "Para muitos, isso dá a impressão de que estão sendo governados por um estrangeiro, o que é acentuado pelo fato de integrantes do governo também terem freqüentado universidades americanas", diz ele. Neoliberal A grande maioria população considera que as reformas de orientação neoliberal do governo de Sanches Lozada não trouxeram benefícios para os que mais precisam, diz o cientista político, criando a sensação de que apenas atenderam a interesses do mercado internacional. A mudança na composição do governo, portanto, teria por objetivo descaracterizar sua identificação com políticas neoliberais que agravaram a desigualdade social vivida pelo país e com a imagem "estrangeira", diz ele. Vicenzino lembra que a raiz da questão é que a Bolívia é o país mais pobre da América do Sul. De acordo com dados da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), orgão da ONU, os indicadores sociais da Bolívia de fato são ainda piores do de os de outros países da região. Pobres e indigentes Levando-se em consideração o período entre 1997 e 2001, a Bolívia foi o único dos 11 países na América Latina pesquisados em que o número de pobres e indigentes aumentou e hoje corresponde a aproximadamente 60% de sua população. Entre esses países, somente a Nicarágua, na América Central, se encontra numa situação pior, com 70% de sua população vivendo na pobreza ou como indigente. Vicenzino diz ainda que uma parte importante do pacote de políticas neo-liberais, o programa de privatizações, acabou não ocorrendo de maneira transparente ou adequada, e que isso acentuou a sensação de parte da população de que o Estado havia se "vendido" a interesses externos, afirma Vicenzino. Dessa maneira, a saída lógica para Sanchez de Lozada é diminiur o ritmo das reformas neoliberais em curso. Reação popular "Isso não quer dizer o abandono de preceitos neoliberais básicos, mas sim sua intensidade, tornando-as mais graduais ", observa Vicenzino. O analista acredita que os conflitos sociais na Bolívia fazem parte da já falada reação popular na região aos resultados recessivos das reformas neoliberais adotadas, mais intensamente, a partir da década de 90. "O eleitor comum está mostrando a tendência a optar por aqueles cujo discurso se opõe às políticas econômicas liberais", explica, fazendo referência às escolhas feitas nas últimas eleições de Venezuela, Brasil e Peru. "Mas, no fim das contas, não há muita escolha, na prática, em termos de política econômica. As dívidas de países latino-americanos são elevadas e o orçamento é muito apertado para poder satisfazer as expectativas dos mais carentes", finaliza. |
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