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Tutsi, Paul Kagame se diz 'ruandês' acima de tudo | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O sorriso tímido e o jeito cortês do presidente de Ruanda, Paul Kagame, destoam do que se possa esperar de líderes africanos forjados na caserna e que chegam ao poder em países com história de violência. Contudo, num breve encontro que tive com ele em 2001, na capital ruandesa, Kigali, ficou claro para mim que ele sabia que estava sentado sobre um barril de pólvora. Alto e magro, Kagame trazia distintos os traços de sua etnia, a tutsi, mas ele se apressou em minimizar as diferenças étnicas que explodiram em seu país, em 1994, com um saldo de cerca de 800 mil mortos. Kagame fez questão de se apresentar como um ruandês. "Em Ruanda, a política de reconciliação vai funcionar porque a lição foi dura", disse o presidente. "A reconciliação envolve uma análise profunda da história ruandesa para entender o que é que deu errado e levou ao genocídio. O governo promove programas de educação política, com debates que levem a população a reconhecer a diversidade." Genocídio O presidente afirmou ainda que "a diversidade em Ruanda é inclusive menor do que em outros países". O próprio presidente conhece bem os efeitos de perseguições étnicas. Ele nasceu na região oeste de Ruanda, em 1957, mas cresceu no país vizinho, Uganda, para onde seus pais haviam fugido para escapar de um surto de violência promovido por hutus na época. De lá ele formou e liderou a Frente Patriótica de Ruanda, que invadiu o país quando o genocídio de 1994 começou. Mas a ferocidade do genocídio de 94 causou perplexidade inclusive em muitos ruandeses. Este é um povo quieto, gentil, de aparência pacata. Os ruandeses em geral falam baixo. As mensagens de ódio étnico que encorajavam matança e eram freqüentes na época na Rádio Mille Collines deram lugar, com Kagame, a "músicas para a paz" na TV oficial de Ruanda. Todas as noites, no horário nobre, quem tinha televisão nesse país onde 65% da população vive abaixo da linha de pobreza (com menos de US$ 1 por dia) deparava-se com uma cantoria alegre, imagens de gente se abraçando, paisagens bonitas. O ódio étnico entre os dois grupos predominantes no país começou há muito tempo. Colonização Ruanda, um país com área um pouco menor do que a do Estado de Alagoas e com uma população de 8,4 milhões de habitantes, é dominada por dois grupos étnicos: os hutus são majoritários (cerca de 90% da população) e há séculos têm divergências com os tutsis (9%). Os tvás, chamados de pigmeus no Ocidente, não são mais de 1% da população. Os tutsis vieram da Etiópia e se fixaram em Ruanda por volta do século 17. Os colonizadores – primeiro alemães e depois belgas – começaram a exacerbar essa divisão apoiando ora um grupo, ora outro. A independência, em 1962, abriu o caminho para violentas disputas de poder. A mais recente e desastrosa foi em 1994. O estopim desse genocídio veio em abril, quando o presidente Juvenal Habyarimana morreu. O avião em que ele viajava foi derrubado ao sobrevoar a capital ruandesa, Kigali. Habyarimana era da etnia hutu. A culpa pela derrubada do avião foi atribuída aos tutsis. O governo do presidente Juvenal Habyarimana já vinha discriminando os tutsis na sociedade. Havia poucas vagas para os tutsis nas universidades e no funcionalismo. Os tutsis eram apresentados como usurpadores perigosos. Uma milícia paramilitar de jovens extremistas hutus já estava sendo treinada para matar – eram os chamados interahamwe. Mas muitos civis também saíram pelas ruas matando os vizinhos. A Frente Patriótica de Ruanda, formada por Kagame, funcionava no exílio, em Uganda, e já havia indicado no passado intenção de tomar o poder. Corriam negociações para um governo compartilhado, mas milícias hutus se voltaram contra a população tutsi. Hutus moderados também morreram. A Frente Patriótica entrou em Ruanda, pondo fim aos genocídios. Os interahamwe fugiram para a República Democrática do Congo, que foi invadida por tropas ruandesas. Os dois países assinaram um acordo de paz no final de 2002. Longo caminho Os ruandeses votaram nas eleições, mas o caminho para uma reconciliação verdadeira ainda é longo. Winifrid Mukagihana, uma tutsi que conheci em Kigali, disse que cinco dos seis filhos dela foram mortos no genocídio de 1994, assim como o marido. Aparentando ter mais de 40 anos, ela diz que foi estuprada por um grupo de milicianos hutus. Ela estava grávida na época e deu à luz apenas para ver o recém-nascido atirado aos cães. Ela também contraiu o vírus HIV, como 65% das mulheres estupradas durante o genocídio. Winifrid vive de memórias, caridade e uma indenização do governo que mal chega aos 50 reais por mês. A história trágica desta viúva é apenas mais uma em Ruanda - o genocídio deixou 400 mil viúvas e 500 mil órfãos no país. Muitos perderam tudo e acham que a Justiça é lenta em punir os responsáveis pelo genocídio. Outros esperam uma vida melhor neste tempo de paz. |
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