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Atualizado às: 05 de abril, 2004 - 13h05 GMT (09h05 Brasília)
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Ruanda busca justiça para cicatrizar feridas de genocídio
Ruandense
Os criminosos estão confessando as mortes em tribunais regionais
Passados dez anos do genocídio de mais de 800 mil pessoas em Ruanda, o país ainda tenta encontrar a melhor forma de lidar com os culpados pela matança.

Mais de 130 mil suspeitos lotam as prisões do país, enquanto o governo da Frente Democrática Ruandesa (FDR) tenta organizar os julgamentos que podem ajudar na reconciliação do país.

Por outro lado, cerca de 20 mil prisioneiros já confessaram os seus crimes e – como não tiveram participação na liderança do genocídio – devem ser julgados em liberdade por tribunais regionais nas suas vilas de origem.

O sistema de julgamentos regionais, batizado de Gacaca, vai lidar com pessoas como Simeon Gasana, que confessou ter matado cinco crianças da etnia tutsi.

"Os soldados do governo me obrigaram a matá-las. Para me salvar, eu decidi fazê-lo. Matei as crianças com um facão", conta Gasana.

Repetição

A história de Gasana se repete milhares de vezes em Ruanda. Em abril de 1994, Noel Kayanda matou uma mulher e uma adolescente de 15 anos a golpes de facão.

"Não tinha opção", conta Kayanda, que viu o irmão ser fuzilado na sua frente pelas tropas do governo depois que ele se recusou a matar a mulher, que acabou sendo morta pelas mãos do próprio Kayanda.

"Peguei o meu facão e matei a menina, depois matei a mulher. Eu não as conhecia."

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Algumas pessoas boicotaram em Ruanda os tribunais Gacaca

Kayanda, que hoje voltou à sua vila de origem e trabalha em uma olaria, é outro dos 20 mil temporariamente anistiados.

"A maior parte dos criminosos que confessaram, quando são levados de volta às comunidades para contar o que fizeram, pedem perdão", conta Fatuma Ndangiza, da Comissão Nacional de Unidade e Reconciliação.

Reconciliação

Ndangiza acredita que os Gacacas podem fornecer justiça às vítimas e ajudar na reconciliação.

"A maior parte dos parentes quer saber como as vítimas morreram. Se os criminosos estão dispostos a contar as suas histórias aos sobreviventes e contar para eles onde eles foram enterrados, eles poderão enterrá-los com dignidade. É o começo da cicatrização e da reconciliação", conta Ndangiza.

No entanto, esse é um processo cheio de obstáculos. A maior parte dos sobreviventes tutsi não testemunhou os assassinatos.

Eles só sobreviveram porque estavam bem escondidos. Ou seja: as testemunhas dos crimes são outros hutus que temem ser implicados se falarem.

Fase piloto

Tudo isso faz o processo dos Gacaca ser muito lento. Até agora, apenas uma fase piloto foi implementada. A maior parte dos julgamentos nem começou. E o processo em si também encontra opositores.

"Acho que os Gacaca não aliviam as tensões no início. Eles as aumentam. Quem é que gosta de ser apontado como assassino?", pergunta Klaas de Jonge, da Reforma Penal Internacional, que coordena um projeto de pesquisa para avaliar a eficácia dos tribunais Gacaca.

De Jonge afirma que muitos dos sobreviventes não conheciam as histórias e, para os próprios assassinos, o processo é difícil. "Isso aumenta muito as tensões na população no início do processo."

No entanto, para o governo – que está promovendo uma campanha de "desetnização" da população, estimulando as pessoas a não se verem como hutus ou tutsis – não há outra solução.

"Para participar de um Gacaca e para aceitar a reconciliação, é preciso aceitar que o processo é doloroso, porque tolerar alguém que matou algum dos seus é um sapo difícil de engolir. E nós acreditamos que esse sapo doloroso é, às vezes, o que cura", afirma Charles Kayitana, da Comissão Gacaca.

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