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Ruanda busca justiça para cicatrizar feridas de genocídio | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Passados dez anos do genocídio de mais de 800 mil pessoas em Ruanda, o país ainda tenta encontrar a melhor forma de lidar com os culpados pela matança. Mais de 130 mil suspeitos lotam as prisões do país, enquanto o governo da Frente Democrática Ruandesa (FDR) tenta organizar os julgamentos que podem ajudar na reconciliação do país. Por outro lado, cerca de 20 mil prisioneiros já confessaram os seus crimes e – como não tiveram participação na liderança do genocídio – devem ser julgados em liberdade por tribunais regionais nas suas vilas de origem. O sistema de julgamentos regionais, batizado de Gacaca, vai lidar com pessoas como Simeon Gasana, que confessou ter matado cinco crianças da etnia tutsi. "Os soldados do governo me obrigaram a matá-las. Para me salvar, eu decidi fazê-lo. Matei as crianças com um facão", conta Gasana. Repetição A história de Gasana se repete milhares de vezes em Ruanda. Em abril de 1994, Noel Kayanda matou uma mulher e uma adolescente de 15 anos a golpes de facão. "Não tinha opção", conta Kayanda, que viu o irmão ser fuzilado na sua frente pelas tropas do governo depois que ele se recusou a matar a mulher, que acabou sendo morta pelas mãos do próprio Kayanda. "Peguei o meu facão e matei a menina, depois matei a mulher. Eu não as conhecia."
Kayanda, que hoje voltou à sua vila de origem e trabalha em uma olaria, é outro dos 20 mil temporariamente anistiados. "A maior parte dos criminosos que confessaram, quando são levados de volta às comunidades para contar o que fizeram, pedem perdão", conta Fatuma Ndangiza, da Comissão Nacional de Unidade e Reconciliação. Reconciliação Ndangiza acredita que os Gacacas podem fornecer justiça às vítimas e ajudar na reconciliação. "A maior parte dos parentes quer saber como as vítimas morreram. Se os criminosos estão dispostos a contar as suas histórias aos sobreviventes e contar para eles onde eles foram enterrados, eles poderão enterrá-los com dignidade. É o começo da cicatrização e da reconciliação", conta Ndangiza. No entanto, esse é um processo cheio de obstáculos. A maior parte dos sobreviventes tutsi não testemunhou os assassinatos. Eles só sobreviveram porque estavam bem escondidos. Ou seja: as testemunhas dos crimes são outros hutus que temem ser implicados se falarem. Fase piloto Tudo isso faz o processo dos Gacaca ser muito lento. Até agora, apenas uma fase piloto foi implementada. A maior parte dos julgamentos nem começou. E o processo em si também encontra opositores. "Acho que os Gacaca não aliviam as tensões no início. Eles as aumentam. Quem é que gosta de ser apontado como assassino?", pergunta Klaas de Jonge, da Reforma Penal Internacional, que coordena um projeto de pesquisa para avaliar a eficácia dos tribunais Gacaca. De Jonge afirma que muitos dos sobreviventes não conheciam as histórias e, para os próprios assassinos, o processo é difícil. "Isso aumenta muito as tensões na população no início do processo." No entanto, para o governo – que está promovendo uma campanha de "desetnização" da população, estimulando as pessoas a não se verem como hutus ou tutsis – não há outra solução. "Para participar de um Gacaca e para aceitar a reconciliação, é preciso aceitar que o processo é doloroso, porque tolerar alguém que matou algum dos seus é um sapo difícil de engolir. E nós acreditamos que esse sapo doloroso é, às vezes, o que cura", afirma Charles Kayitana, da Comissão Gacaca. |
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