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Repórter relembra horror do genocídio em Ruanda | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
As memórias continuam nítidas na minha cabeça, como um filme com clareza digital que começa com o corpo de uma adolescente na região central de Kigali, em algum ponto entre o Hotel Mille Collines e o hospital da Cruz Vermelha. Ela vestia um vestido azul quando foi assassinada, junto com toda a família, em um posto de controle na rua. Eu sei que foi a milícia pró-governo que cometeu o crime porque duas horas antes eu tinha atravessado o mesmo posto de controle na base da conversa, e o corpo dela não estava lá. O filme passa, quadro a quadro. Há um antigo conjunto habitacional no norte que foi transformado em quartel-general do movimento rebelde RPF. Lá do alto dos prédios, no topo de um morro, pode-se ver uma plantação de chá abandonada. 'Mar plácido' As folhas de um verde intenso não foram colhidas há anos e contrastam com o verde mais escuro dos arbustos que as cercam. O contraste entre as duas tonalidades é tão forte e preciso que o campo parece um plácido mar verde. De volta a Kigali, posso ver as ruas vazias cobertas por andrajos abandonados. Também posso sentir aquele cheiro horrível. Aquele cheiro adocicado nauseante que te faz ter ânsias de vômito e querer voltar atrás, mas que você sabe, como jornalista, que tem que investigar – ainda que por pouco tempo. Afinal, há um limite para o número de corpos que você quer ver. No estacionamento das derrotadas forças de paz das Nações Unidas, posso ver as carcaças de dois transportes de tropas blindados no portão. Abandono As tropas da ONU são poucas demais, não têm equipamentos necessários e foram mais ou menos abandonadas pelo Conselho de Segurança em Nova York. No entanto, um punhado obstinado de soldados de paz insiste. Posso ver um capitão africano desdentado atravessar o estacionamento apressadamente e entrar no prédio, com uma pilha de mapas debaixo do braço, o distintivo azul-claro da ONU contrastando com o verde-oliva da farda. Minutos depois, o capitão sai correndo do prédio mais uma vez e dá início a mais uma das suas dezenas de missões para localizar e salvar pessoas encurraladas pela batalha ou visadas por assassinos, trancadas em casa. O nome do jovem capitão africano é Mbaye Diagne, do Senegal. Ele morreria em breve debaixo do fogo de morteiros. Ainda posso ver o sangue dele no carro, minutos depois da sua morte. Dente de ouro Posso ver o dente de ouro do homem que reinou brevemente como presidente interino de Ruanda, Theodore Sindikubwabo. Ele está conversando comigo em uma escola profissionalizante abandonada em Gitarama, uma hora de carro a oeste de Kigali. Os remanescentes do governo fugiram pouco antes da chegada do RPF e ele diz que tem a situação sob controle. "É um problema étnico, vamos derrotar o inimigo", afirma repetidas vezes o presidente. Eu relato o que ele diz. De volta à capital, sentado na cobertura do prédio da ONU, posso ver, além do vale, o recém-construído prédio do Parlamento. A luz é boa, a imagem, nítida. Mas não vejo o arco descrito pelos morteiros no céu. Ouço apenas a explosão, nas proximidades do Parlamento, e me encolho. Vidas a salvar "Você nem viu eles chegarem, hein?", diz, ao meu lado, o general Romeo Dallaire, comandante das forças da ONU. Junto com algumas centenas de soldados de paz, ele decidiu ficar em Ruanda para tentar salvar quantas vidas conseguisse. Sentado naquela cobertura, entro em piloto automático e entrevisto Dallaire. A verdade, entretanto, é que uma muralha sonora nos alcança, do subúrbio de Nyamirambo. "Armas de pequeno calibre. Muitas delas", diz Dellaire. Armas de pequeno calibre? Pequeno calibre? Rifles e pistolas não têm este som. Deveria-se ouvir cliques e zumbidos de vez em quando. Não esse trovão constante e ensurdecedor. "É", diz Dallaire com seu sotaque canadenese, "um montão delas". Rotunda Posso ver as filas dos caminhões brancos da ONU se encontrando na rotunda central de Kigali. Uma das filas carrega tutsis e hutus moderados que se opõem ao governo. A outra fila saiu do estádio de futebol de Amahoro e leva hutus. Observadores desarmados da ONU estão sobre os caminhões supervisionando a troca de prisioneiros. Milhares de pessoas tiveram as suas vidas salvas dessa forma. Milicianos armados do governo cercam os tutsis, querendo matá-los. Posso ver Dellaire me descrevendo o seu plano em outra entrevista, dessa vez no escritório dele. Ele veste um uniforme castanho-claro canadense com distintivos azuis da ONU. "Cinco mil e quinhentos soldados. Acho que posso salvar muitas pessoas. Me dê 5,5 mil soldados e eu dou segurança a todas as igrejas e estádios de futebol", diz o general. Tarde demais O Conselho de Segurança aprova o envio de tropas, mas elas, evidentemente, não chegam a tempo. Dos cinco membros permanentes do conselho, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha não querem um compromisso maior e se opõem ativamente ao plano de Dallaire. Os franceses têm o seu próprio plano. Os russos e os chineses estão em cima do muro. O último quadro do meu filme se passa em Gisenyi, na fronteira do antigo Zaire, hoje República Democrática do Congo. Gisenyi está inundada de engradados de cerveja por causa do saque da cervejaria local. Fim da guerra Um comandante do RPF, forte e alto, sai da cidade enfumaçada e se apresenta como Bruce Munyango. Ele não tem um dos dedos da mão direita. Sou levado para a fronteira para que eu veja que a última grande cidade está agora sob controle do RPF. No dia seguinte, o comandante do RPF, Paul Kagame, me diz que a tomada de Gisenyi significa que ele ganhou a guerra. Não parece uma vitória, entretanto. O RPF pode ter ganhado a guerra dos tiros (entre exércitos), mas perdeu a guerra do genocídio (entre povos). Enfim, ajuda Ruanda cheira a corpos em putrefação por quase todos os lugares onde se vá. Em Gisenyi, olho atrás da cerca de arame farpado e vejo vários aviões de carga chegando da Europa. Eles estão pousando na cidade de Goma, no Zaire, e trazem tropas de paz, comida e remédios para ajudar os cerca de meio milhão de refugiados que deixaram Ruanda. Tropas de paz, comida e remédios. Muito pouco, muito tarde e no lugar errado. |
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