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Caso Kelly reabre debate sobre controle da BBC
A morte do perito David Kelly reabriu o debate na Grã-Bretanha sobre a necessidade de algum tipo de controle externo sobre a atuação da BBC. Uma das polêmicas em torno do assunto é a maneira como vazou a informação de que Kelly teria sido a principal fonte de uma reportagem da BBC que acusava o governo britânico de ter "maquiado" o dossiê sobre armas ilegais no Iraque. Nesta terça-feira, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, desmentiu "enfaticamente" ter autorizado a divulgação da identidade de Kelly. Vários jornais britânicos acusam o ministro de Defesa britânico, Geoff Hoon, de ter liberado o nome do perito como informante da BBC. Confira abaixo as respostas para algumas das dúvidas mais comuns na polêmica entre o governo britânico e a BBC. Quem responde às questões é o especialista em imprensa da BBC, Nick Higham. As respostas foram originalmente transmitidas na programação de rádio da BBC. A BBC fez algo de errado? A empresa argumenta que não. A BBC endossou no nível mais alto a reportagem de dois jornalistas - Andrew Gilligan, no programa de rádio Today, e Susan Watts, do telejornal Newsnight. A empresa concordou, através de seu conselho de administração, com a opção de ter divulgado a história que, agora foi revelado, teve o cientista David Kelly como fonte. Houve uma reunião extraordinária do conselho há duas semanas e o órgão emitiu um comunicado afirmando que apoiava todo o processo jornalístico. Mas existem, é claro, muitas pessoas que criticam duramente a BBC. Se a BBC foi ou não correta, essa é uma das questões que serão consideradas no inquérito aberto pelo Parlamento britânico. A BBC deveria ter revelado a fonte anteriormente? Por que a BBC somente admitiu que Kelly era a fonte depois de sua morte? A BBC, como praticamente todas as organizações jornalísticas da Grã-Bretanha, acredita na importância de manter sigilo sobre suas fontes - especialmente, se elas disserem coisas extremamente sensíveis e que talvez deveriam não ter dito. Há duas razões para isso. Se jornalistas rotineiramente começarem a revelar suas fontes em episódios como esse, as pessoas rapidamente vão parar de contar a eles seus segredos porque não poderiam acreditar nos jornalistas. Isso colocaria a fonte numa situação muito difícil. Se você declara quem eles são, eles podem sofrer ações disciplinares de seus empregadores ou alguma coisa do gênero. Então, a BBC argumenta que se comprometeu com David Kelly a manter sigilo sobre sua identidade, e é por isso que ela se recusou a confirmar ou negar que ele era a fonte de sua reportagem, até ele morrer. Depois que ele morreu, é claro, a situação é diferente. A BBC deixou de ter uma obrigação com Kelly, e assim se sentiu apta a dizer: "sim, este homem era nossa fonte". Por que as fontes são tão sagradas? As fontes são consideradas pela maioria dos jornalistas como algo sagrado porque elas são o pré-requisito necessário para boa parte do que é produzido em termos de jornalismo investigativo. Se um profissional quer fazer algo além de reportar simplesmente o que os porta-vozes dizem, então precisa de fontes que estejam preparadas para falar de forma privada. Elas geralmente se colocam sob risco quando fazem isso - e é muito errado colocá-las sob risco ao se revelar quem elas são. Isso é, no entanto, algo que enfurece governos e políticos - e freqüentemente também os tribunais. Jornalistas e organizações de mídia com freqüência também entram em conflito com juízes porque alguns magistrados dizem que é errado manter as fontes secretas quando elas podem ter informações sobre comportamentos criminosos. É um grande dilema moral e ético que jornalistas enfrentam às vezes. Mas a regra geral é: não revele sua fonte. Faz diferença o fato de a BBC só responder a si mesma? Ela deveria ter algum tipo de controle externo? Este episódio reabriu o debate. O governo diz que não existe ligação entre o que ocorreu agora e as questões sobre o futuro da BBC - se a definição do papel da BBC será renovada (as regras atuais valem até 2006) ou se o sistema de licença pago pelos telespectadores para manter a BBC será renovado. Mas a maioria dos observadores diz que seria muito difícil para o governo levar em consideração essas questões sem pelo menos levar em conta o comportamento da rede pública nesta ocasião. Com os acontecimentos, pelo menos um novo projeto virou lei: é a Lei das Comunicações, que dá a oportunidade ao governo de colocar a BBC sob controle e severamente limitar os poderes do conselho administrativo que hoje define os destinos da empresa. O governo escolheu não fazer isso e a oportunidade nesse momento passou. A BBC continua uma organização independente, assim como os membros do conselho continuam com poder. Mas, como esse episódio mostrou, eles se encontram numa posição difícil. Eles são tidos como os reguladores da BBC, os que asseguram que a BBC siga seus altos padrões de produção. Mas outra função deles é defender a BBC de interferência política, por exemplo. Agora, essas duas funções podem entrar em conflito. O conselho escolheu muito explicitamente apoiar a gerência e os jornalistas da BBC e a maneira como a BBC reportou todo o episódio. Fazendo isso, é muito difícil que o conselho aja numa data futura, se tiver que fazer isso, como regulador, respondendo a reclamações contra a corporação. Eles se tornaram parciais. Eles levantaram questões sobre se seria melhor para a BBC se ela se submetesse a um órgão regulador independente externo. A ex-ministra Claire Short disse que o governo está usando o caso Kelly para distrair a atenção do público de questões difíceis sobre as razões para ir à guerra no Iraque. Ela tem razão? Esse foi um argumento apresentado de maneira contundente - particularmente por políticos de oposição - quando o caso veio à tona em um primeiro momento. Alastair Campbell, diretor de comunicações do governo, foi acusado de tentar desviar a atenção das supostas falhas do governo na escalada rumo à guerra. Embora aquilo pudesse ter sido uma acusação dos primeiros dias, o caso avançou. Alguém perdeu sua vida, tragicamente, como resultado disso. A partir daí, mudaram as regras do jogo. Além de Claire Short, poucas pessoas fazem essas alegações. Além disso, Alastair Campbell e seus colegas de governo sentiram isto como um ataque muito pessoal - incluindo, certamento, o primeiro-ministro Tony Blair, que deu entrevista a um jornal dizendo acreditar que a reportagem da BBC o acusava efetivamente de ter mentido ao público britânico. O governo realmente considerou essa história muito grave, e avaliou que a BBC irresponsavelmente colocou tudo no ar. Eles analisaram isso do ponto de vista pessoal, o que ajuda a entender a paixão com que atacaram a BBC. Se a BBC sair perdendo nesse caso, qual será o impacto disso para o jornalismo independente? Certamente, seria um má notícia para a BBC, cujos altos padrões de imparcialidade e precisão, além da sua credibilidade, seriam manchados nesse episódio. A BBC não teria cumprido as suas próprias expectativas. E, para uma organização como a BBC, com uma reputação mundial, cuja credibilidade é realmente parte do seu patrimônio, isso é potencialmente muito sério. Mas você poderia dizer também que, se a BBC perder, será porque um inquérito independente julgou que o jornalismo da BBC não é bom o suficiente. E isso, claro, não será ruim para o jornalismo independente, já que o jornalismo estará sendo cobrado de acordo com os parâmetros certos e da mais alta qualidade. Qual é a relevância dessa polêmica entre o governo britânico e a BBC para o jornalismo em outros países? É um exemplo das dificuldades que redes jornalísticas públicas, financiadas pelo Estado ou que pelo menos funcionam sob a égide do governo, podem passar quando a sua apuração os leva a um confronto direto com o Estado. O instinto da maioria dos jornalistas seria dizer que a BBC está certa em ter protegido a sua fonte e o seu jornalismo. Mas a BBC é uma organização muito robusta e de longa tradição, com 80 anos de história. Em uma emissora pública de outro país, com muito menos história nas costas, em uma democracia talvez mais recente, em que os direitos civis estão ainda mais frágeis, alguém poderia olhar para a BBC e pensar: "Puxa, acho que essa situação é muito preocupante. E, se isso acontecesse conosco, teríamos força para resistir à pressão do governo?" |
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