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Atualizado às: 30 de março, 2007 - 20h19 GMT (17h19 Brasília)
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Diário do Amazonas: Conquistando o rio a nado

"Meu objetivo é conquistar o impossível"

Martin Strel, o esloveno que tenta se tornar a primeira pessoa a nadar o rio Amazonas em toda sua extensão, quebrou o seu próprio recorde mundial e segue em direção a Belém onde pretende terminar sua aventura.

Strel começou a travessia no dia 1º de fevereiro, em Atalaya, Peru, e espera completá-la em meados de abril.

Uma vez por semana, você poderá acompanhar aqui no site da BBC Brasil os detalhes da aventura do "homem peixe", contados pelo próprio Strel.

Na coluna da direita, envie perguntas e comentários sobre a façanha do nadador.

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Lidando com piranhas

Sexta-feira, 30 de março

Cerca de 4.820 km rio abaixo, em 57 dias de nado, ainda tenho nove ou dez dias para nadar. Espero chegar ao fim como planejado no dia 7 de abril. Não há cidade ou vila perto daqui, estamos no meio da floresta, ancorados com nosso barco.

Estamos em uma bifurcação onde o rio se divide, uma parte vai para o norte, para Macapá, a outra vai para o sul, para a cidade de Belém. Se você olhar no mapa pode ver onde o delta do Amazonas se divide. Estamos bem próximos da bifurcação, vou passar por ela dentro das próximas duas horas.

Bandidos

Quando chegamos a Santarém, cinco ou seis dias atrás, as pessoas nos alertaram. "Vocês têm uma grande expedição, não podem prosseguir sem guardas armados", disseram. "Porque essa região é muito perigosa. Se eles virem um barco como esse, com muitas pessoas dentro, equipamentos e provavelmente dinheiro, podem vir até o barco com as canoas. Eles vão começar a pedir coisas e, se vocês não derem comida ou presentes ou cerveja, eles podem subir no barco. E eles têm armas. Eles podem ameaçá-los. Há pessoas observando constantemente o progresso do barco."

Então, foi o que fizemos. Temos três guardas armados no barco, observando constantemente o que acontece à nossa volta. Especialmente à noite. Não é tão perigoso durante o dia, mas, no momento em que ancoramos, o barco pode ficar perigoso.

Armas

Eles têm várias, eles têm pistolas pequenas, não sei exatamente que tipo. E têm armas maiores e facas. E eles têm uma espécie de colete salva-vidas. Na verdade, não é um colete, é uma coisa longa que eles colocam em volta da sua barriga se precisarem tirar você da água e puxam você para fora do rio. Eles são bem fortes, como esses homens que você vê em academias de ginástica. Eles são treinados para ser guarda-costas de políticos e de pessoas importantes.

30 mil braçadas por dia

É verdade. Um dos membros da minha equipe, Matthew, que passa as tardes comigo, contou no outro dia quantas braçadas eu dou por hora, aí você faz as contas para saber o total. Eu faço uma média de 54 braçadas por minuto. Então, é uma média de 3,2 mil ou, se estou mais lento, 3 mil por hora. E, se você multiplica isso por dez, você chega a 30 mil. É bastante, mas eu nunca conto minhas braçadas porque é muito chato.

Máscara

Ainda uso a máscara, porque preciso. O sol é muito forte. Eu não esperava que fosse durar tanto, mas tenho de usá-la toda tarde durante algumas horas. Se não fizer isso, o sol pode me matar em um ou dois dias, aí vou ter de parar porque vou estar muito queimado. É muito perigoso. Prefiro usar a máscara.

Piranhas

Uns três dias atrás, nós ancoramos o barco quando eu parei de nadar e um guia local veio conversar com a gente. Ele disse: "vocês estão nadando aí? Deixa eu mostrar o que tem dentro desse rio". Eles colocaram um pedaço de carne dentro do rio com um anzol. Em um minuto, as piranhas devoraram aquilo. Tem muitos milhares de piranhas naquele rio. Muitas vezes, elas não estão na corrente, ficam perto das margens e dos bancos de areia. Mas, quando você sai da água, ficam em volta de você, milhares delas. Se você estiver sangrando ou tiver feridas abertas, tenho certeza de que elas te pegam na hora. Eles me contaram como as piranhas mataram a filha de um homem daqui. Tudo porque eles não tomaram cuidado e a menina morreu rapidamente.

Como evitá-las?

A primeira coisa é: nunca nado perto das margens. Nado no meio do rio, na correnteza. Meu barco de escolta está sempre ao meu lado e eu uso uma roupa de mergulho de borracha. E as piranhas não podem sentir o cheiro do meu corpo. Se eu tenho algum ferimento – eu tenho um machucado nas minhas costas – eu ponho pomada e gaze então elas não sentem o cheiro.

Há umas semanas, levei algumas mordidas de piranhas porque minha roupa de mergulho estava um pouquinho gasta. Pulei do barco, não sei o que tinha debaixo da água, mas o pessoal do barco me tirou da água e ficou tudo bem. Se acontece de novo, eu só preciso chamar o pessoal no barco e eles me tiram da água.

A primeira coisa que eles fazem é atirar um pouco de carne do outro lado, longe de mim. E depois me tiram da água. Mas, se isso acontece, eles têm de agir muito rápido. É por isso que tem gente me observando do barco o tempo todo.

Jacarés

Os jacarés são realmente perigosos. Nós vimos vários deles por aqui. Especialmente quando você pára o barco à noite. Quando você ilumina o rio, dá para ver os olhos deles. Normalmente, eles saem do rio à noite. Nós vimos jacarés no Peru, durante o dia. Eles estavam nas margens quando eu estava nadando. Mas eles não entraram na água, o que significa que não sou atraente para eles. Até agora, nenhum jacaré tentou me atacar, espero que continue assim. Mas eles estão por toda parte.

Necessidades fisiológicas

Todo nadador que faz maratonas está acostumado com isso. Você tem de fazer seu intestino funcionar de manhã. Normalmente, eu como uvas, que ajudam a acelerar o processo. Então, eu tento fazer antes de entrar na água ou no final do dia.

Por que terminar em Belém quando a nascente fica no Amapá?

Há duas razões para eu estar nadando no sentido sul em direção a Belém.
Eu não estou nadando em diração a Macapá, onde fica a parte norte do delta, e onde o rio termina, porque essa parte do rio é muito aberta e tem ondas imensas. E a pororoca é muito mais acentuada lá do que na parte sul, em direção a Belém. A segunda razão é que a distância até Belém é maior do que até Macapá.

Atlântico

Nos últimos 500 quilômetros de jornada, nós já começamos a sentir a presença do Atlântico. Quando vamos dormir à noite, o nível da água está alto, mas, quando acordamos de manhã, a água está mais baixa. E essa influência é muito mais forte quando a lua está cheia.

Medo

Sinto medo especialmente antes de nadar. Quando estava no Peru, sentia medo de várias coisas no Amazonas. Ainda estou consciente (do medo), mas, depois de tantos dias, melhorou bastante. A primeira coisa que me assustava era não saber o que ia estar debaixo da água. Porque isso é uma coisa que você não pode saber, você não pode pesquisar. Eu li muitos livros, assiti a vários filmes. Esse era meu grande medo. Mas, até agora, deu tudo certo.

Logo no início da viagem, nadei com dois botos cor-de-rosa. Eles pareciam meus amigos, nadaram ao meu lado e eu pensei: ok, então talvez o rio Amazonas esteja me aceitando, eu me tornei parte do rio. Talvez eu seja parte do mundo dos animais e eles não me incomodaram. Eu acho que é assim: se você é uma pessoa boa, um homem bom, se você não faz nada mau contra o rio, o rio te aceita como parte dele e deixa você viver nele.

Estou me relacionando bem com o rio. O rio me aceita, e espero que continue assim.

É mais perigoso quando você sai da água. Não só, para mim, como também para os membros da minha equipe. Você tem de ser realmente cuidadoso, onde você pisa, o que você bebe, o que você come. Muitos da equipe foram parar no hospital com infecções.

Para vencer o medo, eu digo a mim mesmo que não tenho qualquer poder naquela imensidão de água. A única coisa que posso fazer é rezar e tentar conversar com o rio e pedir: "Eu quero fazer uma coisa boa para a história, me deixe fazer isso. Eu vou ficar feliz, você vai ficar feliz também e tudo vai ficar bem de novo".

Converso muitas vezes comigo mesmo no rio, e nós temos uma câmera.

7 de abril

Não temos certeza, mas esperamos chegar a Belém no dia 7 de abril, se tudo der certo. Estamos adiantados. A razão para o adiantamento é que estamos entrando em uma parte onde existem vários canais. O rio se divide em milhares de canais. Isso significa que a corrente perde a velocidade dramaticamente. E a influência do Atlântico é imensa.

Então, se eu hoje estou nadando 70 ou 75 quilômetros por dia, talvez amanhã, ou depois de amanhã, eu nade apenas 40 quilômetros, ou 35. Eu não sei. Espero conseguir chegar no período planejado porque há muitas pessoas esperando por mim lá.

Estamos planejando um evento na minha chegada, com o prefeito de Belém e o governador do Pará. A idéia é que eu chegue durante a tarde, por volta de duas da tarde.


Abaixo reproduzimos algumas perguntas e comentários recebidos.


Esse cara é louco no sentido de enfrentar adrenalina. Nunca imaginei gue alguém poderia fazer isso. Espero que ele não seja devorado por nenhum jacaré, pois tem muito no Pará. Boa sorte. Ele pode ficar consciente que ninguém vai tirar dele esse recorde.
Dennis, Manaus

Depois de ter lido tantas outras reportagens bárbaras que estão acontecendo nesse mundo, ler sua reportagem é como sentir o calor do sol, energizante e inspirador. Que Deus o abençoe, sem dúvida você é um exemplo para humanidade.
Saskia Grime, Budapeste (Hungria)

Martin, estou torcendo por você!!
Beijos
Ana Paula, Rio de Janeiro

Martin, num mundo cada vez mais ameaçado pela poluição, você cruza o rio mais caudaloso do mundo, na esperança de mudar o ritmo da destruição da natureza pelo ser humano. Pena sua façanha ser pouco divulgada pela mídia brasileira...
Ronaldo Jacinto, Uberlândia

Continue na luta! Meus parabéns! Fique com Deus!
Vinicius, Niterói

Strel, parabéns pela iniciativa. Desejo-te aguas boas até o final de seu percurso e que este teu exemplo se propague, claro, pelo mundo todo, mas com mais ênfase dentre os brasileiros. Espero que tua mensagem filosófica, misturando esporte e ecologia, seja um exemplo!
Mais uma vez, parabéns!!!!!!!
Chris Ruta, Rio de Janeiro

Conhecer a natureza é muito bom, pena que existam pessoas que não sabem valorizá-la. Curta bem sua aventura, você vai vencer...
Burjack, Vila Rica

Eu acho que você só esta fazendo isto por você mesmo, para inscrever sua individualidade na história. Sua atividade não tem nada a ver com a preservação do meio ambiente. É como aqueles rallies de jipões 4x4, que são muito degradantes.
Alexandre, Curitiba

Quero lhe desejar Boa Sorte e
Cuidado com as piranhas!!!
Elizabeth, Haifa (Israel)

Assim que terminar o percurso chegando em Belém, a única coisa a fazer para recuperar os esforços é tomar uma tigela de açaí!
Murilo Costa, Belém

Acho maravilhoso que ele possa realizar o seu sonho. Parabéns para ele.
Lucia de Fatima de Souza Gomes, Recife

Muito bem, Martin, nós brasileiros estamos orgulhosos de você e muito agradecidos pelo seu exemplo. Continue assim, confie em Deus, que você alcançará a vitória.
Oswaldo C. J. Cerqueira, Belo Horizonte

Parabéns, fazendo isso você acaba com o mito de que caindo nas águas do Amazonas, a piraíba, cobra grande e outros, logo te pegam. Siga lá e muito sucesso.
César, Manaus

Martin, me orgulho de saber que existem pessoas como você, que acreditam na vida "plena", da qual todos os seres deste planeta podem desfrutar! Parabéns e obrigado Deus por você existir!
Jose Miguel Obregon,Maringa

Parabéns, Martins Strel. Você é um dos últimos aventureiros, uma espécie em extinção.
David G. Vieira Sr, Brasília

Fico feliz em saber do recorde que você vai conseguir, e principalmente alguém que está mostrando ao mundo a importância da Bacia Amazônica para a humanidade. Que Deus vos abençoe. Abraços
Eder Canho, Jaú

Senhor Strel, a sua coragem é colossal. Parabéns. Pergunto: Ao longo da sua "epopéia" houve algum instante em que o senhor sentiu medo? E, se teve, do que foi, e como superou-o. Deus lhe acompanhe. Um cordial abraço.
Daniel Henriques, Luxembourg

Assim que a notícia surgiu na BBC, fiquei até certo ponto estarrecido com o desafio que ele se propunha. Hoje só tenho que desejá-lo boa sorte e parabéns pela ousadia e determinação. Creio que superou as conquistas do maior Tarzan do cinema, Johny Wesmuller. Uma conquista até inigualável!
Adalberto J. Gazio, Rio de Janeiro

É interessante que precise de pessoas de fora para mostrar e valorizar a grandeza de nossas belezas naturais. Esse ato do esloveno mostra nossa pequenez em relação à grandiosidade da natureza que insistimos em agredir. Me fala seu endereço atual que vou lhe enviar um repelente contra jacaré...rsrs. Parabéns.
Rodrigo Santos, Juiz de Fora

Parabéns. Façanha digna de um desbravador. Sorte. Força. Cuide-se e que Deus proteja seu caminho sempre.
Hiero Jr.,Contagem

Parabenizo pelo feito inédito e gostaria de saber se tem algum fiscal acompanhando esta façanha.
José Carlos de Carvalho, Votuporanga

Parabéns pelo exemplo de vontade e determinação. É uma pena que muitas vezes a gente acabe vendo muito mais imagens sobre violência do que de paz. O que é ruim tem que ser combatido e o que é bom tem mais é que ser divulgado mesmo. Deus te abençoe. Nos momentos bons ou difíceis chame por Jesus que Ele te ouvirá. Para Deus nada é impossível.
Narcisa, Paranaguá

Em primeiro lugar, desejo que Deus o proteja e abençoe! Tenho certeza que sua missão sempre terá êxito, pois está baseada em grande esforço e força de vontade. Creio ser essa uma maneira de meditação: você, água, céu e botos. Que inveja! Boa sorte. Fique em paz.
Sônia Lopes, São Paulo

Parabéns pelo seu ato de coragem e também pelo seu trabalho, que serviu para chamar a atenção do mundo para a Amazônia.
Fernando Tenório, Jaboatão dos Guararapes

Strel, a maior lição que você deixa dessa aventura é a mensagem de que não existem impossíveis. As barreiras quem cria somos nós. Você é exemplar raro de humano. Parabéns!
Jeziel Carvalho, Recife

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