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Bill Viola leva videoarte 'espiritual' à National Gallery
Bill Viola assemelha-se a um sacerdote ao falar de sua obra. Ele gosta de pensar em suas videoinstalações como meios de iluminação. “Meu trabalho tenta introduzir as pessoas às dimensões invisíveis da vida”, diz o videoartista. “Invisíveis porque não são perceptíveis para nós, como as coisas que acontecem rápido demais para nós vermos.” Considerado um dos mais importantes representantes desse tipo de arte em todo o mundo, o americano está rompendo um tabu ao levar 14 de suas obras para a mostra que começou nesta semana na National Gallery, no centro de Londres. O museu, um dos mais tradicionais da capital britânica, nunca havia abrigado uma exposição individual de um artista contemporâneo. Mas, sendo esse artista Bill Viola, o museu teve que aceitar outras mudanças. Passado e presente A mostra The Passions também leva pela primeira vez para a National Gallery salas completamente escuras, onde alguns dos trabalhos do artista estão sendo exibidos.
Por fim, dada a ligação de Viola com conceitos filosóficos e artísticos orientais, o curador da exposição em Londres, Alexander Sturgis, decidiu trazer para a exposição obras ancestrais, como uma estátua de Buda – colocadas lado a lado com as obras do videoartista. Na mesma sala, literalmente em frente ao Buda, o curador decidiu colocar quadros medievais, com iconografia cristã. Oriente e Ocidente, passado e presente, se completam e fazem sentido juntos na obra de Viola. “Eu não acho que há qualquer outro artista em atividade no mundo que tenha uma ligação tão profunda com a arte do passado”, diz Sturgis. Ele explica que, mostrando claramente a ligação das obras do videoartista com os mestres do passado, a expectativa é que mais pessoas se sintam motivadas para ver as obras antigas, em outras partes do museu. O próprio Viola diz que esse é um de seus objetivos com The Passions. “O que Michelangelo e Rafael faziam era a vanguarda, o que havia de mais original. A maioria deles estava na faixa dos 20 anos, e estava fazendo trabalho de vanguarda altamente experimental e radical”, disse.
"Eles estavam criando novas formas de fazer suas obras, formas de ver. É por isso que eu me sinto, como artista tecnológico, muito conectado com eles", completou. Cristo no vídeo A conexão não poderia ser mais evidente em uma das salas da mostra. De um lado, é exibido o quadro The Man of Sorrows, feito por um artista desconhecido no século 13. Nele, um Cristo deformado de dor expressa no rosto todo o seu sofrimento. Logo ao lado, foi colocada a obra de mesmo nome, criada por Viola em Man of Sorrows: um ator chora, e sua expressão é muito parecida com a do Cristo medieval.
“São imagens de pessoas passando por momentos de grande, extrema emoção, ficando alegre, bravas ou particularmente tristes”, descreve Viola, referindo-se às obras na mostra. “O choro é uma parte importante desta exposição. As lágrimas são algo que me fascina há anos. E quando uma pessoa vê isso, fica tocada", afirma. O artista explica que procura dissecar emoções por meio das imagens, levando os observadores a terem uma experiência “muito particular e pessoal”. Para tanto, ele faz uso constante de imagens em câmera lenta. “Quando você torna uma experiência mais lenta, você abre essa coisa e a torna possível para nós penetrar e perceber essa coisa, como um sorriso rápido. Um pequeno sorriso, que na vida real dura dois segundos, eu com a minha câmera fazemos durar dois minutos", diz Viola. Lentidão A lentidão exige que os visitantes da exposição fiquem longos minutos em frente a cada obra para ver o sentido delas.
Em uma das principais, chamada The Crossing, uma tela de cerca de 2,5 metros de altura foi colocada no centro de uma sala escura. Dois vídeos complementares são projetados, mas cada um deles em um dos lados dessa tela. Em um dos vídeos, um homem lentamente vem caminhando e depois para. Em seguida, pingos de água começam a cair sobre sua cabeça. O fluxo de água vai aumentando, até se tornar uma verdadeira cachoeira, engolindo todo o corpo do homem. Por fim, a água para de jorrar, mostrando que o homem que lá estava desapareceu. No vídeo do outro lado da tela, acontece algo parecido, com o mesmo homem. Mas, nesse caso, ele não é “dissolvido” pela água, e sim pelo fogo que cresce a partir de seus pés. Críticos da videoarte acham que esse é um tipo de expressão artística de difícil apreciação, justamente porque exige paciência do observador, que precisa ficar assistindo às imagens. “É verdade que vivemos numa sociedade em que as coisas estão ficando cada vez mais rápida, em que a informação flui mais rápido. Eu não vejo isso necessariamente como uma coisa ruim, mas como uma necessidade”, diz Viola. “Por outro lado, há também conhecimento quando as coisas ficam mais devagar e se revelam, quando você está sentado sozinho numa sala e sente o momento em silêncio.” “Na idade dos celulares, das câmeras de TV, nosso espaço particular tem sido invadido por essas coisas. Tudo bem, mas você ainda precisa encontrar um lugar na sua vida para ficar quieto, parado. Precisamos estar acordados, quietos e parados. Isso é muito importante”, completa Viola. A mostra The Passions permanece na National Gallery de Londres até o dia 4 de janeiro. |
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