BBCParaAfrica.comNews image
Brasil
Espanhol
Francês
Swahili
Somali
Inglês
Outras línguas
Última actualização: 24 Abril, 2007 - Publicado em 15:25 GMT
E-mail um amigoVersão para imprimir
Mia Couto galardoado em Itália

Mia Couto
Mia Couto primeiro escritor africano distinguido com este prémio
A carreira literária de Mia Couto foi agora distinguida com o Prémio União Latina de Literaturas Românticas, pela primeira vez atribuída a um escritor africano.

Este prémio, já na sua décima sétima edição, foi instituído para homenagear a diversidade do património literário latino, consagrando anualmente um romancista de língua latina cuja obra é considerada como merecedora de difusão e tradução nas outras línguas latinas.

São 12 mil euros para distinguir uma obra literária de um autor de língua latina.

"Originalidade" e "poder criativo" foram os principais argumentos apontados pelo júri para a escolha do nome de Mia Couto para receber este galardão instituído em 1990.

Singularidade Criativa

A singularidade criativa de que falou o presidente do jurí, Vincenzo Consolo - ele próprio premiado em 1994 -, está fortemente ligada às raízes do escritor que "parte da realidade do seu país para exaltar o poder da vida e a alegria de viver, mesmo se, por vezes, em condições extremamente dramáticas."

capa de romance de Mia Couto
Obra de Mia distinguida por contributo para a revitalização e construção da língua portuguesa

Com este prémio, o júri pretendeu também reconhecer e premiar "a participação dos africanos de língua portuguesa, e em particular os moçambicanos, na revitalização e construção desse idioma."

Distinção

Este ano, a concorrer com Mia Couto, estavam os escritores Maria Velho da Costa, por Portugal, Patrick Modiano (França), Fernando Vallejo (Colômbia), Jaume Cabré (Espanha), Luigi Meneghello (Itália) e Aminata Sow Fall (Senegal).

Mia Couto foi eleito à quarta volta do escrutínio, depois de Aminata Sow Fall e Lídia Jorge terem decidido oferecer o seu voto ao escritor da Beira, uma vez que os seus candidatos não reuniam o consenso necessário.

O juri do prémio sublinhou ainda que "para além da euforia vocabular - que vem influenciando escritores mais jovens em todo o espaço da língua portuguesa - Mia Couto revelou-se igualmente um extraordinário contador de estórias na mais pura tradição africana".

Acácia na Ilha de Ibo, Moçambique
Mia descrito como "contador de estórias na mais pura tradição africana"

Antes do autor moçambicano, a língua portuguesa já vencera três vezes o Prémio União Latina, pela mão de José Cardoso Pires (1991), Agustina Bessa-Luís (1997) e António Lobo Antunes (2003).

Simplicidade

Confrontado com a multiplicidade de adjectivos com que o juri o granjeou, o autor diz que tem dificuldade em olhar para o seu trabalho "como algo que se constroi como uma carreira" e que escreve "por prazer".

Ainda assim, Mia Couto diz-se muito satisfeito com o reconhecimento agora granjeado, que diz ser também o reconhecimento da escrita feita em África e a "confirmação da vocação da União Latina (...) de cobrir territórios geográficos e culturais muito diversos".

O seu colega de profissão, profundo conhecedor da obra de Mia Couto e membro do jurí deste ano, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, destacou o papel do moçambicano na "renovação da língua portuguesa".

Escritor angolano José Eduardo Agualusa
Eduardo Agualusa destaca o poder de influência da obra de Mia Couto noutros escritores de língua portuguesa

Para Agualusa Mia construiu "um universo e estilos muito próprios (...), um mundo literário que tem muito a ver com o mundo rural, com as tradições e a mitologia do mundo rural de Moçambique".

Para o escritor angolano o reconhecimento da obra literária do seu colega Mia Couto, é também "o reconhecimento de que a língua portuguesa é um idioma pertença de todos aqueles que a falam, que é uma língua viva (...) e que hoje está a ser construída em grande medida em áreas novas onde se fala o português".

Agualusa adianta que no seu entender, em África as outras tem outra relação com a língua, mais lúdica e mais descomplexada", para além de que em África, "o português não está sózinho, está em contacto com outras línguas", tirando dai muitas vantagens e fazendo com a língua portuguesa se renove hoje a partir de África.

"Recardo de África"

A escritora portuguesa Lídia Jorge, outro dos membros do jurí, e cuja escolha incial era a também portuguesa Maria Velho da Costa (mas que acabou por apoiar a escolha de Mia Couto quando a sua candidata não reunia o consenso necessário) realçou as qualidades do escritor moçambicano.

Escritora portuguesa Lídia Jorge
Lídia Jorge realça o "recardo de África" na obra de Mia Couto

Lídia Jorge afirma que na obra de Mia Couto se destaca o "recardo de África que ele traz para o mundo da latinidade".

Para a escritora, Mia Couto faz esta transposição "através do veículo que é a língua portuguesa, que ele, como alguns outros escritores - mas talvez nenhum como ele da mesma zona geográfica - consegue trabalhar de uma forma tão extraordinária".

Lídia Jorge realça ainda que Mia Couto "consegue incorporar na literatura o drama do seu país, e a invenção do seu país, da mesma forma que é capaz de fantasiar aí em torno e trazer um mundo onírico transformado para a literatura, que acaba por ser uma espécie de festa da língua e da cultura através do português, mas proveniente daquilo que é a realidade africana".

 Primeiro, desejamos uma mulher que nos faça sentir a vida. Depois, queremos uma mulher que nos faça esquecer a vida. Por fim, queremos apenas estar vivos
Mia Couto, "O Outro Pé da Sereia", 2006

A revitalização e contrução da língua portuguesa pela mão de Mia Couto é outro aspecto salientado por um seu conterrâneo, o escritor Suleimane Cassamo, que insiste ainda na originalidade da obra de Mia Couto.

Cassamo destaca a "criatividade" da obra de Mia Couto, que no seu entender representa "não só o expoente da literatura moçambicana, mas também da língua portuguesa" no seu sentido mais lato.

Suleimane Cassamo acrescenta ainda que "a nível da recriação da língua portuguesa" Mia Couto "tem desenvolvido um trabalho notável".

"Alegria de Viver"

Criança moçambicana
Mia "parte da realidade para exaltar poder da vida (...) mesmo em condições dramáticas"

O jurí da União Latina frisou a "originalidade e poder criativo de um escritor que parte do seu país para exaltar o poder da vida e a alegria de viver, mesmo se, por vezes, em condições extremamente dramáticas".

Confrontado com estes adjectos, Mia Couto diz-se "tocado", pois estes aspectos "ultrapassam a sua obra literária, e até a própria literatura moçambicana".

Mia Couto acrescenta que estas referências têm contudo a ver com o espírito moçambicano e africano em geral, pela "capacidade de produzir alegria, a capacidade de dar uma resposta feliz, positiva" mesmo perante a adversidade.

LINKS LOCAIS
Mia recebe prémio literário
25 Abril, 2007 | Notícias
Chuvas devastam centro de Moçambique
19 Fevereiro, 2007 | Notícias
Viúva de Mondlane critíca corrupção
06 Fevereiro, 2007 | Notícias
LINKS EXTERNOS
A BBC não é responsável pleo conteúdo de sítios externos da internet
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
E-mail um amigoVersão para imprimir
BBC Copyright Logo
^^ De volta ao topo
Arquivo
BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>