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Fome em África - uma crise sistémica | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Mais de metade do continente africano precisa de assistência alimentar urgente. O Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO, diz que 27 países sub-Saharianos precisam agora de ajuda. Mas o que parecem ser desastres isolados provocados por secas ou por conflitos em países como a Somália, o Malawi, o Níger, o Quénia e o Zimbabwe são, na realidade, problemas sisméticos. É a própria agricultura africana que está em crise e, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar, isso deixou 200 milhões de pessoas desnutridas. É particularmente notável que a FAO destaque problemas políticos como guerras civis, movimentos de refugiados e deslocados em 15 dos 27 países que declarou como necessitados de assistência urgente. Em comparação, a seca é apenas citada em 12 dos 27 países. A implicação é clara - os anos de guerras, golpes e conflitos em África são mais responsáveis pela fome do que os problemas naturais. Questões críticas Essencialmente, a fome em África é produto de uma série de factores interligados. África é um vasto continente, e nenhum factor isolado pode ser aplicado a qualquer país em particular. Mas há quatro questões críticas: 1. Décadas de sub-investimento nas áreas rurais, que têm pouca influência política prática. As elites africanas respondem à pressão política, que é principalmente exercida nos centros urbanos. Isto é agravado pela corrupção e pela má gestão - o que os doadores chamam de 'falta de boa governação'. "A má governação é uma questão importante em muitos países africanos, com sérias repercussões na segurança alimentar a longo termo", diz uma declaração do Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar. "Problemas como a corrupção, o conluio e o nepotismo podem inibir significativamente a capacidade dos governos na promoção dos esforços de desenvolvimento". 2. Guerras e conflitos políticos, resultando em refugiados e instabilidade. Em 2004, o Presidente da Comissão da União Africana, Alpha Oumar Konaré, lembrou, durante uma cimeira da UA, que o continente tivera 186 golpes de Estado e 26 grandes guerras nos últimos 50 anos. Calcula-se que haja mais de 16 milhões de refugiados e deslocados em África. Os camponeses e agricultores precisam de estabilidade e de certezas para conseguir produzir os alimentos necessários para as suas famílias e para a sociedade. 3. O HIV/SIDA está a roubar às famílias a sua força de trabalho mais produtiva. Isto é um problema particularmente na África Austral, onde mais de 30% dos adultos sexualmente activos são seropositivos. De acordo com a agência de auxílio humanitário, Oxfam, quando o membro de uma família é infectado, a produção de alimentos pode cair até 60%, porque as mulheres passam a ter não apenas que cuidar dos familiares adoentados mas também a fornecer a maior parte da força de trabalho agrícola. 4. Crescimento populacional descontrolado. "A população da África sub-Sahariana cresceu mais rapidamente do que a de qualquer outra região nos últimos 30 anos, apesar das milhões de mortes causadas pela pandemia de SIDA", diz o Fundo das Nações Unidas para a População.
"Entre 1975 e 2005, a população mais do que duplicou, passando dos 335 para os 751 milhões, e está actualmente a crescer a uma taxa anual de 2,2%". Em algumas regiões de África há terras suficientes, e o crescimento populacional não constitui um problema. Mas, noutras regiões, tem tido consequências severas. A escassez de terras forçou os agricultoers e as suas famílias a subdividir repetidas vezes as suas terras, o que conduziu à criação de lotes de terra cada vez mais pequenos ou a famílias a terem que se mudar para terras impróprias ou improdutivas. No interior da Etiópia e da Eritreia algumas terras estão agora tão degradadas que há agora poucas perspectivas de que venham a produzir colheitas decentes. Este problema é agravado pelo estado dos solos em África. Na África sub-Sahariana a qualidade dos solos é classificada como 'degradada em cerca de 72% das terras aráveis e em 31% das pastagens. Para além das deficiências naturais de nutrientes nos solos, a fertilidade dos solos está em declínio contínuo devido à remoção dos nutrientes durante o período das colheitas e também devido à erosão e a outros fenómenos. "O nível dos nutrientes caíu nos últimos 30 anos", diz o Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar. Consequências Como resultado, um continente que, há 50 anos, era mais do que auto-suficiente em termos alimentares, é agora um importador maciço de alimentos. O livro "A Crise Alimentar Africana" diz que em menos de 40 anos o sub-continente passou de exportador de alimentos básicos a dependente de importações e de auxílio alimentar. Entre 1966 e 1970, as exportações atingiram uma média de 1,3 milhões de toneladas anuais de alimentos, diz o livro. "Em finais dos anos 70, África importava anualmente 4,4 milhões de toneladas de alimentos - uma cifra que subiu para os 10 milhões de toneladas anuais em meados dos anos 80". "A Crise Alimentar Africana" diz que desde o período das independências africanas, a produção agrícola per capita estagnou e, em muitas regiões, regrediu. Alguns activistas e académicos defendem que os agricultores e camponeses africanos só serão capazes de alimentar adequadamente as suas famílias e sociedades quando os produtos ocidentais deixarem de invadir os seus mercados. | LINKS LOCAIS Fome mata 6 milhões de crianças por ano22 Novembro, 2005 | Notícias Mudanças climáticas afectam Àfrica25 Outubro, 2005 | Notícias Aumenta número de 'esfomeados crónicos'16 Outubro, 2005 | Notícias HIV/Sida está a 'matar' agricultura em África09 Setembro, 2005 | Notícias Fome ameaça 10 milhões de pessoas na África Austral08 Setembro, 2005 | Notícias 20 milhões de africanos em risco de fome10 Agosto, 2005 | Notícias Oxfam quer criação de fundo especial de emergência03 Agosto, 2005 | Notícias LINKS EXTERNOS A BBC não é responsável pleo conteúdo de sítios externos da internet | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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