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Atualizado às: 27 de maio, 2008 - 09h26 GMT (06h26 Brasília)
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Conflito com as Farc só será resolvido com negociação política, diz analista

Soldado colombiano
Estratégia militar tem apoio da opinião pública, diz analista
A estratégia e as ações militares do governo colombiano contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) podem estar enfraquecendo o grupo rebelde, mas o conflito só será resolvido com negociação política, afirma o cientista político colombiano Alejo Vargas.

"As Farc podem estar se enfraquecendo, vivendo seu momento mais difícil, mas não se pode dizer que o conflito está perto do fim", disse à BBC Brasil, por telefone, o professor de ciências políticas da Universidade Nacional da Colômbia.

"As ações militares estão enfraquecendo o grupo, mas o fim deste conflito só ocorrerá com uma negociação política", disse ele.

Autor de vários livros, entre eles "As Forças Armadas no conflito colombiano" e "Guerra ou solução negociada – ELN, origem, revolução e processo de paz", Vargas diz que a estratégia militar e seus resultados têm apoio da opinião pública colombiana e vão continuar, independentemente de o governo ser de direita ou de esqueda.

Veja os principais trechos da entrevista concedida por Vargas à BBC Brasil:

BBC Brasil - É possível ou não vencer esse conflito militarmente?

Alejo Vargas - É possível enfraquecer as Farc, como o que está ocorrendo desde o fim do ano passado. Mas o fim desta história, que ainda não sabemos quando ocorrerá, necessitará de uma negociação política.

BBC Brasil - O governo poderá intensificar sua estratégia militar de agora em diante, principalmente depois da morte de Manuel Marulanda, fundador do grupo?

Vargas - Não acredito que haverá mudanças fortes no curto prazo. Esse fato (a morte de Marulanda) ocorreu há dois meses. O fato é que não vejo nenhuma mudança na estratégia militar das Forças Armadas colombianas.

Acho que agora a expectativa é saber se haverá mudanças nas Farc, mas enquanto isso não ocorre, o governo não mudará nada no seu plano de ação. Ou seja, o governo vai esperar o próximo passo das Farc. Enquanto isso, o resto se mantém.

 Nestes últimos tempos, ocorreram baixas de militares e de guerrilheiros. Mas ainda não se pode falar de uma derrota militar da guerrilha.

Todos estão esperando o próximo passo das Farc, inclusive o grupo internacional de negociadores (formado por França, Suíça e Espanha) autorizados a trabalhar na facilitação (acordo humanitário que envolve a entrega de reféns) e a Igreja Católica. E tudo isso está mantido.

BBC Brasil - Na sua opinião, a estratégia militar traçada pelo governo do presidente Álvaro Uribe vem sendo mantida? Ou alguma coisa mudou antes e depois da morte de Raúl Reyes (considerado chanceler das Farc, morto em março)?

Vargas - A estratégia das Forças Armadas colombianas começou antes mesmo do governo Uribe. Começou com o "Plano Colômbia", assinado (nos anos 1990) pelos presidentes Bill Clinton, dos Estados Unidos, e Andrés Pastrana, da Colômbia, depois seguiu com o "Plano Patriota" e agora é a etapa do chamado "Plano Consolidação".

E esta estratégia, que é permanente, vem mostrando resultado vitorioso para o Estado colombiano. Chegou-se a pensar que o Plano Colômbia era limitado ao combate às drogas, mas ele foi fundamental para mudar a reengenharia das Forças Armadas. Foi quando aumentaram-se recursos para as Forças Armadas e se intensificou seu processo de inteligência.

Nestes últimos tempos, ocorreram baixas de militares e de guerrilheiros. Mas ainda não se pode falar de uma derrota militar da guerrilha.

BBC Brasil - Mas com estas últimas mortes, como a de Reyes, e a entrega, por exemplo, da guerrilheira conhecida como "Karina", não se poderia afirmar que as Farc vivem uma etapa complicada?

Vargas - Complicada, difícil. Mas, sem dúvida, não se pode falar em derrota militar das Farc. Porém, o grupo recebeu golpes muito contudentes e isso mudou a relação de forças no conflito colombiano.

As Farc podem estar se enfraquecendo, vivendo seu momento mais difícil, mas não se pode dizer que o conflito está perto do fim.

As ações militares estão enfraquecendo o grupo, mas o fim deste conflito só ocorrerá com uma negociação política.

BBC Brasil - É a primeira vez na história de 44 anos das Farc que isso ocorre?

Vargas - É sim, a primeira que isso ocorre. Houve um pouco disso no início do governo (César) Gaviria (1990-1994), quando as ações (do governo) ficaram conhecidas como guerra integral, mas nada do que ocorreu naquela época foi da magnitude atual e também não durou o mesmo tempo que esta etapa de hoje.

BBC Brasil - Alguns especialistas afirmam que a estratégia de Uribe foi empurrar a guerrilha para a selva, onde se travam os combates.

Vargas - Uribe formulou o plano chamado "Política de Segurança Democrática" (que inclui o aumento do orçamento para defesa e recompensa para informantes que denunciem a guerrilha e estimulou a deserção dos guerrilheiros) e mantém a estratégia das Forças Armadas.

 As ações militares estão enfraquecendo o grupo, mas o fim deste conflito só ocorrerá com uma negociação política.

Uribe deu grande e persistente apoio às Forças Armadas e isso foi positivo para as ações militares. Os componentes fundamentais das Forças Armadas são a inteligência técnica e humana e também mobilidade, o que envolve capacidade de transporte de tropas e aviões de combate, por exemplo. Estes são os grandes componentes desta estratégia militar. E o componente da inteligência é muito importante nesse conjunto.

BBC Brasil - Os militares colombianos são treinados na Colômbia? Como a opinião pública vê estas ações?

Vargas - Os militares são treinados na Colômbia. Hoje, as Forças Armadas do país são as que têm melhor capacidade e treinamento da região. Como em qualquer país presidencialista, Uribe é o comandante das Forças Armadas. Mas o mérito do governo Uribe junto à opinião pública foi sua política de apoio às ações das Forças Armadas.

BBC Brasil - E quais são os principais resultados destas ações?

Vargas - Queda no número de seqüestros e ataques à população. Por isso, para a maioria da sociedade, e inclusive para a esquerda, é preciso manter a política pública em vigor. Nenhum governo que chegue vai acabar com essa política. (Segundo dados do Ministério da Defesa da Colômbia, o número total de seqüestros caiu de 2.882 em 2002 para 486 no ano passado. Os atentados terroristas caíram de 1.645 em 2002 para 387 em 2007).

BBC Brasil - O que está ocorrendo com as Farc hoje? Na sua opinião, o grupo passa por um processo de fragmentação?

Vargas - Não há dúvidas de que as Farc têm recebido golpes contundentes até agora. Mas o que vai acontecer no fututo é especulação. Pode ser que (Alfonso) Cano e o novo secretariado do grupo consigam manter a coesão. Ou não consigam essa coesão e caminhem para a fragmentação interna.

Não há dúvida que a morte de Marulanda é um golpe muito, muito forte, porque ele era fundamental para a união do grupo. E qualquer um que o substitua não será a mesma coisa e existirá um vazio (nas Farc) sem Marulanda. Mas é preciso ver ainda o que vai acontecer.

BBC Brasil - É possível imaginar o fim das Farc?

Vargas - A guerrilha colombiana tem mais raízes que outros grupos, como o (peruano) Sendero Luminoso, e acho sim, esses golpes militares podem enfraquecer as Farc. Mas acredito que haveria negociação política para que se chegue um ponto final. Insisto, não é possível pensar hoje no fim desta história sem um acordo político.

 Não há dúvida que a morte de Marulanda é um golpe muito, muito forte, porque ele era fundamental para a união do grupo. (...) Mas é preciso ver ainda o que vai acontecer.

BBC Brasil - E o senhor acredita que as Farc confiariam numa negociação com Uribe?

Vargas - Um exemplo: o governo Uribe avançou num acordo político com o ELN, mas este foi congelado devido à crise com a Venezuela e o Equador. É verdade que o ELN está mais enfraquecido que as Farc, mas não descartamos essa negociação.

BBC Brasil - Em dezembro passado, chegou-se a especular a possibilidade da entrega de reféns numa área determinada na selva. Como está essa situação?

Vargas - Tudo continua na agenda, mas talvez à espera do momento certo.

BBC Brasil - Qual o futuro das Farc?

Vargas - Acho que as Farc e o ELN vão virar representaçoes políticas e os paramilitares não terão mais função, porque não existirão os insurgentes. Acho que o destino das Farc pode ser o M-19, por exemplo (movimento de guerrilha urbana surgirdo nos anos 1970 e transformado, 20 anos mais tarde, no partido "Aliança Democrática").

BBC Brasil - Mas no meio estão as acusações do envolvimento das Farc com o tráfico de drogas. O que o senhor acha disso?

Vargas - O tráfico de drogas é uma realidade que vai além da Colômbia. O tráfico de drogas também está há muito tempo no nosso país. Esse será um capítulo à parte nesta história.

BBC Brasil - Qual o tamanho das Farc hoje? Alguns falam em 8 mil e outros em 10 mil.

Vargas - Ninguém contou a quantidade de guerrilheiros. Por isso, qualquer número é especulação.

BBC Brasil - Quem está ganhando até agora? O governo ou as Farc?

Vargas - Isso não é uma partida de futebol, mas esperamos que a sociedade colombiana saia ganhando um dia.

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