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Atualizado às: 24 de maio, 2008 - 21h14 GMT (18h14 Brasília)
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Fundador das Farc, Marulanda passou maior parte da vida na selva

Manuel Marulanda
A morte do líder das Farc já foi desmentida no passado
As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) só confirmaram a morte de seu líder Pedro Antonio Marín, o "Tirofijo" (tiro certeiro, em tradução literal), mais conhecido como Manuel Marulanda Vélez, um dia depois de a informação ter sido divulgada pelo governo colombiano.

Marulanda, de 80 anos, morreu em março, devido a um ataque cardíaco, segundo as Farc. Ele era considerado o guerrilheiro mais velho do mundo e passou a maior parte de sua vida nas montanhas e selvas do país.

Acredita-se que a maior cidade que Marulanda conheceu foi Neiva, nos anos 60, quando a capital regional tinha apenas 100 mil habitantes.

Marulanda nasceu em 13 de maio de 1928, em uma família camponesa de Génova, na região cafeeira do oeste da Colômbia.

Era um homem corajoso e desconfiado, um autodidata que conseguiu fama por suas habilidades militares.

"O apelido de 'Tirofijo' destaca sua pontaria, a capacidade para o combate, para se mover em um terreno, para mimetizar e iludir", disse à BBC o sociólogo Fernando Cubides, da Universidade Nacional da Colômbia.

Marín e Marulanda

O líder das Farc adotou o nome de Manuel Marulanda Vélez em homenagem a um dirigente do Partido Comunista colombiano, que foi torturado e assassinado na década de 50. Mas, dentro das Farc, todos se referiam a Marulanda usando outros nomes.

"Os velhos comunistas o chamavam de 'camarada', os compadres, de 'companheiro', e os guerrilheiros o chamavam de 'el Viejo' ('o Velho', em tradução literal)", disse à BBC o sociólogo Alfredo Molano, que entrevistou Marulanda várias vezes.

Segundo Molano, Marulanda muitas vezes era visto sem uniforme, mas com uma arma na cintura, e passeava com o cachorro pelas montanhas.

Marulanda (segundo da esq. para a dir.) com camponeses nos primeiros anos das Farc
Marulanda (segundo da esq. para a dir.), nos primeiros anos das Farc

Muitas vezes, as autoridades colombianas anunciaram a sua morte. Mas, no início dos anos 80, Marulanda apareceu pela primeira vez na televisão colombiana, quando as Farc iniciaram um processo de paz com o então presidente Belisario Betancur.

Conversão

Marulanda havia se transformado em guerrilheiro do Partido Liberal no final do ano de 1948, pouco depois da onda de violência iniciada depois do assassinato do líder do partido, Jorge Eliécer Gaitán, candidato à Presidência.

Mas, com o passar dos anos, ele se sentiu traído pelos dirigentes do partido. Em 1964, transformou-se então em um dos fundadores das Farc, que nasceram sob a sombra do Partido Comunista.

"Fugindo da repressão oficial, nos estabelecemos como colonos na região de Marquetalia (departamento de Tolima, centro-oeste do país), onde o Estado nos tomou propriedades rurais, gado, suínos e aves de granja", diria Marulanda 40 anos depois.

O sociólogo Alfredo Molano diz acreditar que Marulanda não se referia aos meios de produção e nem ao materialismo dialético, mas falava "com base na pobreza e na arbitrariedade política".

De fato, em suas entrevistas Marulanda quase sempre falava dos mesmos temas: reforma agrária, educação, saúde, meios de comunicação e a busca pela paz.

"Seu conceito básico de rebeldia era a lei e a ordem", avalia Molano. "Como não se cumpriam (a lei e a ordem), ele dizia que as faria cumprir."

Apesar da influência do Partido Comunista, com quem o guerrilheiro romperia mais tarde, para o sociólogo, Marulanda era muito mais um "liberal de esquerda".

Mito

Ninguém duvida que Marulanda foi uma espécie de mito vivo. Um mito de poucas palavras e que aparecia pouco.

Uma de suas ausências mais famosas ocorreu em janeiro de 1999, quando não foi a um encontro com o presidente Andrés Pastrana em San Vicente del Caguán, nas selvas do sul do país, para iniciar formalmente um processo de diálogo e negociação.

A ausência marcou de certa forma o atribulado processo de diálogo que foi interrompido em fevereiro de 2002, depois do seqüestro do senador Jorge Eduardo Gechem, que ficou seis anos e meio em poder das Farc.

Para Alfredo Molano, Marulanda era o chefe absoluto das Farc
Para Alfredo Molano, Marulanda era o chefe absoluto das Farc

Mas, para Molano, Marulanda era pragmático. O sociólogo afirma que, apesar de inicialmente ser contra os cultivos de coca e maconha, o líder acabou aceitando a idéia porque rendia dinheiro para as Farc. E o mesmo ocorreu com a prática do seqüestro.

Já o sociólogo de origem francesa Daniel Pecault afirma que, sob o comando de Marulanda, as Farc "deixaram de ser uma guerrilha de autodefesa e se converteram em uma guerrilha muito poderosa militarmente".

"E, na última fase, muito envolvida com o narcotráfico e com métodos muito discutíveis, começando pelo uso sistemático do seqüestro", acrescentou.

Camponês

Embora muitos concordem que as Farc são, em grande parte, uma guerrilha camponesa, ainda se discute o quanto de camponês havia em Marulanda.

"Eu diria que foi um camponês sábio, com o conhecimento dos comerciantes do povo em matéria de aritmética, contabilidade, história e geografia regional", afirmou Molano.

Para o sociólogo Fernando Cubides, Marulanda não era um camponês típico.

"Sua família era camponesa, mas ele tinha uma experiência urbana, inclusive queria ser inspetor do Ministério de Obras Públicas", afirma Cubides.

"Ele já tinha feito uma transição para o urbano, mesmo sem conhecer nenhuma das grandes metrópoles da época", acrescenta o sociólogo.

Não se sabe ao certo quantos filhos Marulanda teve. Alguns, como o ex-conselheiro de paz Carlos Eduardo Jaramillo, afirmam que todos são homens.

Mas não é fácil afirmar quem realmente foi este homem que passou grande parte de sua vida na clandestinidade.

Para Fernando Cubides, Marulanda foi um "estrategista intuitivo que conseguiu construir sua lenda e sobreviver em uma guerrilha mais disposta a matar do que a viver".

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