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Não aceitam um indígena na Presidência, diz Morales | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O presidente da Bolívia, Evo Morales, está prestes a enfrentar um de seus maiores desafios na Presidência, quando o Departamento (Estado) de Santa Cruz realizar um referendo sobre autonomia no próximo dia 4. Nesta quarta-feira, o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, convocou em caráter urgente os quatro membros da Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA) para uma reunião em Caracas, porque "a Bolívia está a ponto de explodir". A reunião dos presidentes da Bolívia, Nicarágua e Venezuela e do vice-presidente de Cuba vai tratar do referendo. Antes de partir para o encontro, o presidente conversou com a BBC Mundo de Nova York, onde participava de uma conferência da ONU sobre povos indígenas. Segundo Morales, o referendo de Santa Cruz "é uma sondagem, uma pesquisa de opinião", e os que o defendem "não aceitam que um camponês, indígena, seja o presidente da República". Leia abaixo a entrevista: BBC - Presidente Morales, um dos grandes desafios de sua gestão será o referendo de autonomia em Santa Cruz, daqui a 13 dias. Até onde o governo vai agir para evitar que o referendo seja realizado? Evo Morales - Primeiro, o suposto referendo sobre autonomia é anticonstitucional, nem sequer inconstitucional, porque as autonomias não estão na constituição vigente. Segundo, é ilegal, porque de acordo com a Lei de Referendos, é o Congresso Nacional que tem que aprovar uma legislação convocando o referendo. Portanto, não é um referendo, é uma consulta, uma pesquisa de opinião, que será realizada no dia 4 de maio. BBC - Mas muitos dizem que Santa Cruz poderia avançar para uma autonomia “de fato”. Que fará o governo para impedir que isso ocorra? Morales - Nada. Creio na consciência do povo boliviano. Há resistência nas áreas rurais, inclusive na cidade, há profissionais, intelectuais e advogados que estão envergonhados com a forma como alguns dirigentes cívicos e o prefeito querem confundir o povo boliviano e o povo de Santa Cruz. Primeiro vem a nova Constituição. E mediante a nova Constituição, o governo vai garantir as autonomias. Mas autonomias para o povo, não autonomia para a oligarquia e as sociedades de Santa Cruz. Falemos de maneira bem clara: primeiro a mãe e depois o filho; não pode ser primeiro o filho e depois a mãe. Primeiro garantir a aprovação da nova Constituição e depois a eleição dos conselheiros departamentais (estaduais), eleitos pelo povo, devem redigir primeiro uma lei de autonomia e segundo os estatutos autônomos. Este é o procedimento. BBC - O senhor vê então primeiro a aprovação da Constituição e depois um debate sobre a autonomia das regiões? Morales - Sim. Mas autonomia como unidade, como igualdade, na legalidade, autonomia com eqüidade entre os Departamentos. BBC - Fidel Castro, em uma carta publicada nesta semana, disse temer uma tragédia pelo que chamou de “luta entre irmãos” na Bolívia. O senhor crê que haja possibilidades reais de que haja choques na Bolívia nos próximos dias, semanas e meses? Morales - Vai haver uma dura resistência do movimento indígena, do movimento camponês e dos setores mal chamados “colonizadores”, que são a nova gente assentada em terrenos fiscais. Lamentavelmente, esta proposta está orientada a uma divisão. No fundo, quero que saiba: não é um problema de autonomia ou de estatuto, é um problema de Evo Morales. Não aceitam que um camponês indígena possa ser presidente da República. E se olharmos a história, sempre houve lutas pela federalização do Estado boliviano quando grupos oligárquicos perderam o governo nacional, e quando o recuperaram, se esqueceram da autonomia, ou da chamada nacionalização ou descentralização. BBC - Se isto está dirigido contra o senhor, o senhor acredita que sua gestão está em jogo por conta do tema das autonomias? Morales - Não, não. Isso me fortalece, me potencializa. BBC - Em que sentido? Morales - No sentido de que esses grupos são os inimigos históricos do movimento indígena durante a colônia, durante a República, durante a época neoliberal. Esta classe pratica a politicagem, não a política, que é a ciência de servir ao povo. Não aceitam líderes políticos novos, empenhados em servir ao povo, mudando temas estruturais, sociais, agropecuários. Eu creio na consciência do povo e estamos na etapa de como construir o poder do povo e é uma luta histórica; não há porque se assustar. BBC - O governo vai fomentar os protestos e manifestações contra o movimento pró-autonomia em regiões como Santa Cruz? Morales - Não se trata de fomentar nem incentivar. O povo, as forças sociais são sábias para identificar seus inimigos históricos e também inimigos conjunturais. BBC - O senhor acredita que dentro de um ano estes movimentos autônomos estarão acalmados, ou satisfeitos? Morales - Resistirão, como há resistência na Venezuela depois de tantos anos de governo. Sempre haverá, mas o mais importante é buscar igualdade e justiça nos nossos povos e isso todo o mundo sabe. BBC- Houve vários atores, como a Argentina, o Brasil ou a OEA (Organização dos Estados Americanos) que tentaram, infrutíferamente, interceder para mediar este conflito. Há algum ator, interno ou externo, que possa ajudar a mediar? O governo é transparente. Venham de onde vierem, se forem facilitadores, mediadores, se forem instituições, ou personalidades, não tenho nenhum problema. Melhor que saibam o que está se passando na Bolívia: discriminação desses grupos, dessas famílias, dessas sociedades. Têm direitos, e os respeitamos, mas mais direito têm os povos por justiça social. BBC - Para encerrar, como o senhor imagina que será o cenário no dia da votação, em 4 de maio? Morales - Eu sinto que não vai haver muitos problemas. Talvez em algumas regiões, provocados por esta juventude chamada “cruzenhista”. (Mas) passará o 4 de maio, virá o 5 de maio, o 6 de maio… |
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