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Príncipe proibitivo | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Por um desses milagres da tecnologia informática, estou com algumas imagens minhas rodando – uma vez que foram rodadas – na Internet. Mais não digo, já que sou tímido, arredio, anti-social e, importantíssimo, tenho vergonha na cara. E olha que não me refiro à imagem que ilustra estas mal digitadas, para dar uma sacudida num velho lugar-comum. São… são… como direi? Não direi, uma vez que já começo a voltar atrás. Para frente, portanto, e para o alto. Per ardua ad astra, conforme disse Ptolomeu ao ser queimado na fogueira em praça pública. Falemos de astros e estrelas, mantenhamos um silêncio respeitoso em relação à possibilidade desse novo planeta que acharam e que, para variar, os cientistas juram que é capaz de ainda ter ou ter tido um dia vida humana. Como se vida humana fosse algo sensacional. Ter tido vida humana já melhora um pouco, mas, mesmo assim, não acho uma boa. Nenhuma pessoa com um mínimo de sensibilidade pode achar. Para justificar minhas palavras extremadas, vou fazer algo que não é de meu costume: dar um exemplo mediante a citação de um fato. Exemplo e fato Acho uma chatice a atual música popular. É um direito do mais velhos implicar com tudo que os jovens fazem e gostam. Continuo trabalhando, pois recordar é mais que viver, é dar duro pra chuchu. E xuxu também, conforme se escrevia no meu tempo. (Isso é mentira. A mentira é um privilégio que o tempo nos confere.) Só feirante e verdureiro muito analfabético (cunhar palavras vale) é que escrevia xuxu com X. Os pobres ficam muito impressionados com a letra X, uma vez que acham, iletrados que são, que assim é que seus nomes são escritos. Fato é que existe um – riam comigo – “artista” pop americano chamado, ou que se faz passar, pelo nome de Prince, príncipe. Trata-se de um anão estranhíssimo e que, em meio ao bizantinismo obscuro e pretensioso que permeia os meios do mundo da música – música! Rá! – popular, conseguiu atingir com uma tijolada na testa a fama e a fortuna. Quatro em cada dez jovens do mundo inteiro conseguem a fama e a fortuna mediante a prática patética em meio a guitarra e aparelhos elétricos de sons exóticos e desagradáveis aos ouvidos de quem cresceu ouvindo Bach, Beethoven e Mozart. Basta não ter talento mas contar com os esforços sádicos de um exército de publicistas e a burrice e ingenuidade de mutirões de menores de 18 anos: sucesso, dinheiro, fotos em revistas coloridas, tudo isso é teu, meu filho de uma… boa senhôra. Devido à extraordinária proliferação dos chamados astros e estrelas do mundo pop, faz-se necessário uma permanente capacidade de inventar macetes e bizarrias para ser notado, se destacar e ocupar espaço na inconsciência coletiva dos mais jovens, dos mais lentos em raciocínio, uma vez que música mesmo, essa já era, conforme disse e repetiu outra geração de tolos. Música, pois, repetindo, não é portanto com eles, esses tremendos sucessões, que se limitam a ser ídolos e promover causas da e em moda. Príncipe: grátis e com juros Prince há uns anos resolveu que não teria mais nome. Nem de batismo nem de vida artística. Seus pais botaram Prince Rogers Nelson na certidão de nascimento, fato infelizmente ocorrido no dia 7 de junho de 1958, informa-me a Wikipedia. Uma vez vendidos os milhões de discos necessários para se tornar mito e lenda viva, o jovem decidiu em 1993 que não teria mais nome, apenas um símbolo em seu lugar. Assim quis seu mestre, assim o fizeram todos. Passou a se assinar – se é que sabe escrever ou então desenhar – com um hieróglifo que logo os jornais, sempre atrás da criançada, batizaram de “the love symbol”, o símbolo do amor. A mídia mais conservadora, ou, a bem dizer, a radiofônica e a botequinesca, passou a se referir a ele como “o artista anteriormente conhecido como Prince”. Não é que pegou? O que, bem burilado, não pega e brilha nesses meios? Sucesso vai, sucesso vem, a figurinha difícil em questão (vou logo simplificando), nuns dias bicudos, resolveu vender diretamente seus discos aos admiradores pela internet. Deu certo. Mais certo ainda quando, aqui no Reino Unido, seu CD mais recente foi distribuído gratuitamente com um dos jornais de domingo mais populares. Marqueteiro há ser, marquetear é preciso. Para isso o moço tinha gênio. Tinha mesmo? Agora, nesta semana que passou, o artista et cetera e tal (aliás um bom nome artístico) entortou de novo. Algum problema de vendas? Não se sabe direito. Sabe-se é que ele está de novo nas primeiras páginas de tudo quanto é jornal. Porque investiu agora contra as legiões de fãs. Decidiu, armado de uma frota de advogados, que sua imagem só a ele pertence, portanto estão infringindo alguma lei todos os websites e fansites que exibirem (ou postarem, não é assim que se diz?) sua imagem. Longas cartas redigidas em legalês já chegaram aos respectivos destinatários, ou seja, os admiradores do homenzinho, ameaçando processo seguido das devidas indenizações. Exato: indenizações. As ameaças partem dos responsáveis legais e comerciais do – vocês sabem quem – e são a Paisley Park Entertainment Group, os discos NPG e a AEG, que, se não me engano, cuida também de eletrodomésticos. Ele se proibiu em todos seus aspectos ditos físicos a todos seus apreciadores. Menos o mais importante: a voz, as canções e os discos. Dia virá. |
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