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Mano a mano | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Eu sou do tempo em que o politicamente correto a gente só encontrava em ficção científica e história em quadrinhos do Flash Gordon, mas não do Buck Rogers, que não tinha um desenho tão bom quanto o Alex Raymond. Paro de enganar e vou direto ao assunto: quando eu era garoto e, pouco mais tarde, garotão, piadas de bicha, em matéria de popularidade, empatavam com as de português e as de papagaio. Éramos uns pândegos. Todos condenados ao inferno dos politicamente incorretos. Mas que era divertido, lá isso era. Não foi só nosso anedotário que registrou as graças das bichonas em flor, parafraseando Proust (esse “era”). Não se podia ir a uma peça de teatro revista que não tivesse um cômico especializado em imitar bicha. Imitar, eu disse. Em geral, era tudo macho paca. Ou quase tudo. De cara me lembro do – esse vocês, jovens, pegaram – Costinha, do Ivon Cury, do Badu, de pelo menos uma boa dúzia de comediantes com o nome no diminutivo. Outro dia mesmo, sei lá por que motivo, eu cismei de ouvir um velho LP do Ivon Cury gravado “ao vivo” (como se houvesse outra maneira de se registrar no microssulco de um vinil) num restaurante dele em Copacabana, o “Sambão & Sinhá”. Comia-se bem, ele fazia uns dois ou três shows por noite, cantava aquele repertório cafona e engraçadíssimo dele (“João Bobo”, “A valsa em mil tempos”, “Amor de hoje”) e o metido a besta, já que Ivon também era bilingue, no melhor sentido possível, e gostava de cantar em inglês (gravou “Nature Boy”) e em francês (foi de “La vie en rose”). Engraçadíssimo mesmo era ele de bicha em chanchada da Atlântida e contando anedota da bicha. Capaz de ter saído em CD. Tentem encontrar. Mas vamos “ao ponto”, conforme já ouvi dizerem: ninguém contava piada de bicha feito o Ivon. Não me xinguem, não me joguem pedras. Era a vida que a gente tinha, era o léxico que herdamos, que remédio? Se consolo é, e não vejo motivo algum para consolo, já me juraram que o Ivon não “era”, para ficar na linguagem que o tempo, em sua sabedoria, se encarregou de mandar às favas. Foram-se as bichas, aí estão, imponentes, fortes e bigodudos, os “gays”. Aliás, por falar nisso, no começo da debandada dos armários, um cavalheiro pertencente à categoria sexual que eu fui trazer à tona por motivos que já ficarão claros, um cavalheiro, dizia eu, avesso a estrangeirismos, sugeriu “gaio” em lugar de “gay”. “Bicha”, “veado” ou mesmo “viado”, que, segundo uma ala, seria uma maneira total de se assumir. Não pegou. Ficou gay mesmo. Foram-se apenas as aspas, como tanta americanice. E foram todos para a praia, os bares e lugares de sua predileção, onde os heterossexuais são apenas tolerados. Se correm piadas e galhofas a respeito deles, desconheço. Os heteros não têm seu Ivon Cury. Até agora. Também nunca ouvi gay imitar ou contar piada de “straights” (esses ainda de aspas, para tirar uma forra daqueles anos todos). Capital pink Em inglês, o cor-de-rosa, ou “pink” é a cor gay. Estudiosos, lexicógrafos ou não, explicam que a origem da cor remonta não a um gosto pessoal mas sim à cor do triângulo que, na época do nazismo, os homossexuais, então violentamente discriminados, eram obrigados a usar nos campos de concentração. Outros dizem que Pink era o nome de alfaiate. Em todo caso, não vem ao caso. Nos Estados Unidos, a cidade mais gay do país é São Francisco. No Brasil, asseguram-me que Campinas e Pelotas eram apenas piada, que gay mesmo é o Rio de Janeiro, a mais “pink” possível em suas praias, bares e carnavais, essa festança toda que não acaba mais, segundo alguns mal-humorados. Uma coisa, entretanto, se garantia: confirmando nossa tradicional birra com a Argentina, os portenhos, com aqueles tangos todos, seus piropos e sensualíssimos tangos, dançados por “hombres machos” e “mujeres coquetas”, no particular ou em espetáculos de sucesso no mundo inteiro, não podiam ser mais machista-machões. Machões no sentido mais pejorativo possível. Peguem a letra de qualquer tango, de “Mano a mano” a “Lloró como una mujer”. Tudo coisa de machista-machão. Sexista beirando a misoginia. Nós, mais arejados que os portenhos dos anos 20 e 30, ganhamos esta parada, ou esta Copa Roca, ou, mais apropriadamente, Copa Rosa. No entanto, no entanto… parece que, como no futebol, mais uma vez, deixamos o campo da contenda derrotados. O Axel Hotel Abriu suas portas na semana passada, em Buenos Aires, o primeiro hotel gay de luxo do Continente: o Axel Hotel. Já havia um, em Barcelona, que, aliás, eu não sabia que constava de disputa alguma. Este é o primeiro Axel fora das terras de Espanha. Nas folhas, vi mais de uma reportagem, com belíssimas e chiquérrimas fotos a cores. O Axel Hotel é descrito como minimalista, custou mais de 7 milhões de dólares, faz questão de se dizer que não é “gay-friendly” (o inglês é a língua franca gay) mas sim totalmente gay. Os heterossexuais são tolerados na medida em que mantenham um mínimo de dignidade e não chateiem hóspedes e freqüentadores. Rapazes fortes e bonitos decoram o hotel, da recepção ao bar, passando pelos ginásios de malhação. No bar, a música é sempre suave, com a presença sensível da musa Judy Garland. Nacho Rodriguez, gerente geral do Axel, diz nada ter a esconder, que tudo está à vista dos possíveis hóspedes. Em termos, não é caro o Axel. Com seus quatro tipos de sopa, ar condicionado, quartos à prova de som, iluminação tipo arco-íris, seus cinco andares insistem em dizer à cidade e ao mundo que acabou aquela papagaiada de país dito católico e machista. “Nós aqui somos a cidade mais gay do mundo”, disse uma das mil pessoas que compareceram à inauguração do Axel na noite de terça-feira da semana passada. É possível. Mas a Copa do Mundo é nossa. Com brasileiro, não há quem possa, cantarolamos mentalmente o hino de nossa conquista do tri-campeonato de futebol. Questão de brios. Aliás, consta da programação do hotel a promoção de uma espécie de Copa Roca, a tal Copa Rosa, que sugeri, entre os dois tradicionais rivais: Brasil e Argentina. Dou um gol de vantagem e aposto qualquer dinheiro em nosso timaço. |
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