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Meus caros | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Também podia começar com “prezado”, “querido”, “companheiro”, o que vocês quisessem. Lembram? É. Cartas. Nós, brasileiros, nunca fomos muito de missivar, para ir logo neologizando, salvo a exceção de mineiro que não acaba mais. Felizmente. As cartas do Drummond, do Pedro Nava, de Fernando Sabino, Otto Lara, Hélio Pellegrino, enfim a turma toda, continuam circulando e lidas, para deleite e aprendizado. Só que aí é tudo profissional de letras. E as cartas dos amadores? Melhor ainda: dos amantes? Ou, nivelando um pouco mais por baixo, dos namorados. As cartas dos e para os parentes, meu Senhor! Cartas, mesmo, eram essas. Mesmo as copiadas daqueles folhetos vendidos nas feiras ou papelarias ensinando como escrever, ou compor, uma missiva. Para carta comercial tem, ou tinha, livro que não acabava mais. Aquele troço: botar em cima, à direita (mas podia ser à esquerda) a data, dar espaço, e daí ir caprichando no bico de pena que era muito melhor que caneta ou máquina de escrever. Esta última já tirava um pouco a alma do negócio de escrever carta que não fosse de negócio. Mas ainda valia. Carteiros lesmas Ainda agora, nas duas primeiras semanas de outubro, os carteiros destas ilhas entraram em greve. Uma chatice. Uma delícia também. Chatice porque conta, cheque, disquinho ou DVD comprado pelo computador, revista de assinatura, ficou tudo atrasado e atrasando a vida da gente. Delícia porque há que se reconhecer que esses pobres coitados desses carteiros andam pelas ruas daqui carregando, no mínimo, 70% de besteira: convite para se juntar a isso ou aquilo outro, comprar panela de pressão, botar o apartamento para vender no comércio imobiliário e por aí afora. Carta de amigão ou amigona (sejamos discretos) acabou, se fué, num tem mais. Como se foi aquela época em que, estando-se no estrangeiro, só de ver chegando o envelope com aquela barra verde e amarela causava um frisson. A eletrônica acabou com isso há pelo menos dez anos. Carta eletrônica, como numa greve, ganhou, em inglês, o apelido de “snail mail”, carta-lesma, ou “operação tartaruga”, para ficar por aqui de papo pro ar. Eu escrevi email. Nós, sempre saindo na mão com um hífen, preferimos chamar de e-mail, contrariando o pai – e avô, bisavô e trisavô – de todos os burros, o Oxford English Dictionary, que acabou se decidindo pela rasteira no pequeno sinal ortográfico. É possível que, em alguma feira informática, ainda vendam um folhetinho, em formato de literatura de cordel, ensinando as boas maneiras do correio eletrônico. Acho pouco provável. Email se improvisa, deve vir na natural. Ou na menos natural possível. “Fala, meu boneco!” Eu, por exemplo (figura nada exemplar), gosto dos emails bruscos, que constituem o equivalente ao malandro que te pega no meio da rua e te arrasta até um poste ou árvore depois de parar de insistir em dar uma chegada ao boteco logo ali “tomar um cafezinho”. Feito o título deste parágrafo. Esses começam logo te pegando pelo cangote, ou passando a mão em teu traseiro, e vão direto à sua falta de assunto. Mais ou menos assim: “Olhaí! Ontem eu falei de ti com o Olegário! Nós nos lembramos daquele vexame que você deu naquele inferninho na rua Duvivier! Tu tá lembrado?” Esse safado não manja de acento, modos e, em matéria de pontuação, só conhece de vista o ponto de interrogação ao passo que o de exclamação é que guia seus passos trôpegos. Com ele, é assim! Viram! Tão sabendo! Assim! Uma berração dos diabos! Há os tradicionalistas, entre os quais me incluo. Começam com a devida saudação, botam uma vírgula, dois espaços, e seguem em frente como se Pero Vaz de Caminha descrevendo silvícola, árvore, flor e fruta. Há muito parágrafo, tremendos brancos para deixar as despedidas e nos desejarem paz e saúde. Salamaleques que não acabam mais. Rareiam, esses. Outro problema grave: que título dar ao bilhete informatizado? Que por naquele espaço logo após a palavra “Assunto”? Cruel diadema. Aí ou entra violenta inventividade (Paixão dos Brutos), tremenda grossura (Sacanagem) ou, em inglês ou português, “Nenhum assunto”, “No subject”. Pelo menos há sinceridade aí. P.S. William Makepeace Thackeray, romancista inglês do século 19, autor de A Feira das Vaidades, costumava escrever 15 cartas de manhã entre o desjejum e a hora do almoço. Não se sabe se eram interessantes nem quantas respondidas, nem de que falava. Os ingleses, entretanto, sempre foram magníficos escritores de cartas. De George Eliot e Jane Austen a Evelyn Waugh, P.G. Wodehouse e Somerset Maugham, todos deixaram dados mais que suficientes para a feitura de outro de seus pontos fortes, a biografia, que, sem cartas, não existiria. Nunca esquecendo que, num jornal, principalmente os mais alfabetizados, a seção de cartas é quase que invariavelmente o que há de melhor. Também é o caso de se perguntar: e que fim levará o romance epistolar? Feito Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, que nós todos achamos que foi escrito pelo John Malkovich e a Glenn Close com a colaboração de Michelle Pfeiffer? Francês também é chegadíssimo (ou era) a uma carta-lesma. E agora? Como é que fica? De repente, me lembro da história com agá maiúsculo. Aquela documentação toda. Vai, no futuro, ser tudo feito na base do disco rígido? É o que espera, sinceramente, de todo coração, este vosso amigo e correspondente. Cordiais saudações. |
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