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Atualizado às: 05 de outubro, 2007 - 09h33 GMT (06h33 Brasília)
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Pequena vírgula sotoposta
Ivan Lessa
A vida imita a ficção! A ficção imita a vida! Sammy Davis Jr. imitava todo mundo! Torna-se cada vez mais difícil dizer a diferença entre vida e ficção no Brasil brasileiro versão 2007.

(Sammy morreu. A morte traz uma diferença enorme a tudo.) Talvez a vida não imite a ficção. Talvez a ficção não imite a vida. Talvez ambas se limitem apenas a me imitar. Vida e ficção são de uma extraordinária ordinarice.

(Por falar nisso, pequena vírgula é o sinal gráfico sotoposto sob a letra C desde o século XI no espanhol, segundo o Houaiss.)

Carl Gustav Jung amava coincidências. Tanto que legou a nós todos, vivos, fictícios ou meros transexuais e travestis, a expressão “sincronicidade jungiana”, que muitos confundem com aqueles balés aquáticos dos filmes da Metro com a Esther Williams.

Nada disso. É quando uma coisa acontece num canto com todo jeitão de outra coisa acontecendo em outro lugar. A psiquiatria jungiátrica é uma ciência exata.

Agora, vejam vocês: outro dia mesmo, nesta coluneta, meio verdade e meio ficção, com uma pitada de plágio ou mera cópia escolar, eu andei fazendo troça de uma proposta reforma ortográfica a se passar em países lusófonos, entre os quais, e principalmente, podemos incluir o Brasil.

Estive eu a mexer, pois, com a inquietante possibilidade que poderá entrar em vigor no ano que vem, ou a qualquer momento, dependendo dos caprichosos rigores a que estão expostos os membros de nossas academias letradas e fileiras legislativas, um número infinito de mudanças a serem introduzidas em nossa maneira de escrever, falar e até mesmo de calar-se e ficar olhando para os próprios pés.

Ortografia e fonética se abraçariam – primeiro com doçura, depois em fúria física – igualando-se, a seguir, em bacanal digna de friso romano (circa 385 a.C).

Cedilha: um desafio aos bravos

A uma certa altura da dissertação de meu arrazoado, em três linhas encimadas pelo subtítulo de “Tremas, tremei!”, escrevi o seguinte:

“Entre dezenas de outras besteiras, nossos lecsicógrafos e congreçistas querem abolir o trema.” E seguia adiante com meu iluminado e luminoso besteirol. Isso no dia 26 de setembro.

Eu tenho poderes extra-sensoriais. (Talvez até mesmo extrassensoriais, dependendo do lado em que se aborda esse raio dessa reforma.)

Eu poderia ser um personagem dessa série televisiva de ficção científica intitulada Heróis, que eu acompanho e adoro.

Eu não só vejo o futuro e o presente distante como sou capaz de influenciá-los. Esta a minha realidade, este meu super-poder. Passemos à dura, à grotesca realidade.

Realidade nua, crua e sem farofa

No dia 3 de outubro, folheando a Folha de São Paulo eletrônica, deparei-me com a seguinte notícia: “Carimbo oficial grafa errado “Congresso”. E o texto que se segue:

“Um único carimbo fabricado com pouco zelo em relação à língua portuguesa fez com que milhares de documentos oficiais da Câmara e do Senado trouxessem um “Congreço Nacional” estampado nos cantos inferiores de suas páginas.

O tropeço vocabular está grafado em documentos como medidas provisórias enviadas pelo Executivo. O carimbo, fabricado em meados de agosto, está em documentos com datas de até cerca de três semanas atrás, quando finalmente alguém descobriu o erro.”

Ora, pois, pois. Claro que no dia seguinte, 4 de outubro, na mesma Folha, José Simão, com sua verve e graça habituais, gozava a coisa logo no título de suas linhas:

“Buemba! O Congreço é um suceço!” E prosseguia em subtítulo: “Tô paçado! O Congreço tá falando lulês. Desaprenda português no Congreço! Rarará!”

O resto do texto seguia na mesma divertida linha com vários achados e graças (vale a cedilha): “Habeas pernas”, “Torre de Bebel”, “Regime de cargoidratos” et cetera.

Deixo o jornal, volto ao porto de mim mesmo, com suas cortesãs baratas, como um velho e apaixonado marinheiro.

O Bruxo de Bush House

Já recebi um sem número de emails (na verdade, três) apontando o que ingenuamente chamam de “coincidência” ou a tal da “sincronicidade”.

Um dos bilhetes eletrônicos chega a duvidar de meus poderes e sugere que eu tive acesso ao carimbo em questão graças a um vazamento.

Não sou bombeiro ou torneiro mecânico, não trabalho com vazamentos. Foi apenas intuição, uma mistura de memória presente e lembrança futura.

O misticismo ativo é apenas uma dentre minhas múltiplas facetas exóticas. O que eu estranho é ninguém ter notado que, no papel oficial de correspondência do Instituto Brasileiro de Lexicografia (IBL), perto de cem mil folhas de papel de carta foram impressas com os dizeres lá em cima, em letras enormes, dizendo-se tratar do “Instituto Brasileiro de Lecsicografia”.

Bruxaria não ocorre pela metade. As bruxarias exigem serviço completo e não deixam gorjeta: eu escrevi, em fins de setembro, “lecsicógrafos e congreçistas”. Assim foi, assim será. Maktub.

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