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Cacetadas literárias | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Foi o assunto da semana. Quase que ganha da greve dos carteiros e só perdeu, no sábado à noite, para a vitória dos ingleses sobre os franceses, lá em Paris, no rúgbi. Trata-se de outra cacetada. Coisa rara: um pau literário. Eles, escritores, críticos e acadêmicos em geral, ficam quietos em seus cantos, mas quando partem para a grossura, saiam da frente. É raro, mas quando tem é mais divertido que derrota do Chelsea ou do Manchester United. Segundos fora, vamos dar início aos trabalhos de demolição. O primeiro contendor Neste lado do ringue, pesando mais de 35 quilos, segundo as más línguas, o distinto romancista e ocasional crítico, Martin Amis, autor de romances conhecidos tanto aqui no Reino Unido quanto no Brasil: Dinheiro, Campos de Londres, A Informação e muitos, muitos outros. Alguns cotadíssimos entre público leitor amador e profissional, feito o caso do primeiro. Amis é filho de outro escritor (também tido como grande) Kingsley Amis, de quem não herdou o estilo direto e nada rebuscado. Amis Filho adora frases de efeito, ama chocar, aprecia um truque ou, vá lá que seja, inovação literária. Martin Amis, há alguns anos foi notícia em jornal devido à sua vida pessoal e não literária. Mudou de agente, casou-se com uma moça muito bonita, também escritora, chamada Isabel Fonseca (não, não é nem brasileira nem portuguesa), e foi morar nos Estados Unidos. Pegou meio milhão de dólares como adiantamento por um livro ainda por ser escrito. Uma novidade inaceitável pelas bandas de cá. Ele não vende isso tudo de livro, argumentou-se, na época, expondo o óbvio. A coisa pegou mal em vários quesitos, cá nestas ilhas. A agente de Amis Filho era Pat Kavanagh, conhecidíssima e mulher de outro escritor que todos nós manjamos e, na época, amigo do peito de Amis Filho: Julian (O papagaio de Flaubert) Barnes. Martin Amis é tão conhecido, mas tão conhecido que, assim como Ian McEwan, chegou a ser convidado e, como se não bastasse, comparecer ao festival literário de Paraty, que deve ser escrito com Y, letra inexistente em português, mas de grande charme pessoal. Como bom escritor, e também ou principalmente os maus escritores, Amis Filho se julga no dever de dar uma opinião sobre tudo. De duas torres caindo em Nova York à partida de rúgbi em Paris. Frise-se: opinião final. Falou ou escreveu, acabou o papo. Na verdade, a coisa não funciona bem assim. Primeiras fintas Martin Amis em ensaio recente intitulado (olha o jogo de palavras) A Era do Horrorismo escreveu o seguinte: “A comunidade islâmica terá de sofrer até que venha a por sua casa em ordem. Que tipo de sofrimento? Não deixar que eles viajem. Deportação – mais adiante no caminho. Restrição às suas liberdades. Passar por revistas pessoais apenas por parecerem oriundos do Oriente Médio ou do Paquistão... Coisas discriminatórias, até que toda a comunidade venha a sofrer e eles comecem a endurecer com seus filhos...” “Pra quê, meu Deus? Pra quê, Alá deles?” Foram as palavras mágicas que puseram em ação o segundo contendor: o crítico marxista e professor de literatura inglesa, Terry Eagleton, que, apesar de não ter dado uma chegada a Paraty, é respeitadíssimo nas cidades novas e velhas destas ilhas. Menos nos EUA, onde se desconhece o significado da palavra “marxista”. Terry Eagleton escreveu um livro desses que são carinhosamente apelidados de “seminais”: Teoria literária: Uma introdução, publicado pela primeira vez em 1983 e, em edição revista, 1996. Eagleton trabalha com as ferramentas marxistas que, para quem já teve alguma intimidade com elas, doem para burro quando deixadas cair no pé ou arremessadas contra a cabeça de um moreno. Não pagava dez que Eagleton iria responder. Botou as luvas, um calção vermelho e foi para o outro canto do ringue. A platéia presente, nós todos, semi-alfabetizados, prendeu a respiração, quando Terry soltou o primeiro murro. Disse, com os punhos, Eagleton: “Há algo que faz nosso estômago dar voltas quando nos depreendemos com aqueles que, como Amis e seus aliados políticos, por séculos, sempre defenderam uma civilização que executou uma carnificina indizível pelo mundo afora, esbravejando a favor de medidas ilegais quando, pela primeira vez, se vêem no lado sofredor do mesmo tratamento.” Amis cambaleou, estremeceu e foi à lona. O juiz contou até seis, esperando que o beletrista se levantasse e fosse para seu canto. Amis passou a luva no nariz sangrando, cheirou amônia e, então, partiu, com mais cautela, para o contra-ataque. Um resultado justo? Martin Amis ensina criatividade literária na mesma universidade em que Terry Eagleton ensina teoria cultural, a Universidade de Manchester. Era para saírem na mão todos os dias antes das aulas começarem. Para os pobres dos alunos, algum interesse, ao menos, bem maior que literatices, a troca de cachações serviria: as coisas são muito monótonas nas universidades do norte do país. Infelizmente, a coisa passou para os ringues impressos. Todo mundo dando opinião, até uma ex-senhora de Kingsley Amis, a também escritora Elizabeth Jane Howard, andou dando opinião e defendendo a memória de Kingsley Amis, o Amis Pai, que no meio da história acabou também levando umas boas sobras por parte de Eagleton. Se houvesse um juiz isento mesmo, teria que, primeiro, dar a vitória a Terry (bom nome para boxeador, marxista ou não), mas sem deixar de levar em consideração as últimas palavras, até agora, de Amis Filho, tentando botar um ponto final na história: “Chega, vá!”, exclamou o pequerrucho (1,62cm de altura) gigante literário do eixo Londres-Manchester-Nova York-Paraty. “Chega, vá!” é um grande argumento crítico-literário. |
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