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Atualizado às: 26 de outubro, 2007 - 11h13 GMT (09h13 Brasília)
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Joana sem chamas
Ivan Lessa
Novo livro causa sensação na França e algum divertimento no Reino Unido. Trata-se de L'Affaire Jeanne d´Arc ("O Caso Joana D'Arc", em tradução livre), escrito a quatro mãos pelo jornalista investigativo Marcel Gay (não façam graça, silvuplé) e por um ex-agente do serviço secreto, Roger Senzig.

É costume dizer que a última pessoa a causar sensação na França foi Voltaire, mas, no caso, há uma certa razão para estouro em vendas, em opinião popular e discurso acadêmico. O livro alega que a Donzela de Orléans não era nem camponesa nem praticamente analfabeta: na verdade, tinha sangue real. Também não ouvia vozes e não foi queimada na fogueira. Escapou do destino cruel, até hoje lamentado, graças ao auxílio dado por soldados ingleses. Depois do que viveu feliz para sempre.

As peças sobre a Donzela que levam a assinatura de dramaturgos como Shakespeare, Paul Claudel, George Bernard Shaw, Bertolt Brecht, Maxwell Anderson e Jean Anouilh, entre outros, baseavam-se em premissas falsas, segundo os dois autores, nenhum deles historiador, é verdade, mas com vasta experiência no mundo dos futricos e segredinhos. O livro, dizem alguns críticos mal-humorados, é apenas uma tentativa de fazer escândalo. Seu modelo, dizem, seria O Código Da Vinci.

As alegações

Gay e Senzig alegam que a camponesa virgem mais famosa da história da França era filha ilegítima da rainha consorte, Isabeau da Baviera, que a preparou, desde a mais tenra idade, como se fosse uma fantoche sua, para as vicissitudes do mundo político. Os dois dão até um nome ao esquema: “Operação Virgem”, o que dá uma idéia totalmente diferente a quem lê, mas não é bem isso que eles querem dizer.

Segundo a dupla terrível, Jeanne, Joan ou Joana não foi inspirada por vozes do Além de jeito nenhum. O livro tenta – repito: tenta – provar que as únicas vozes que a Donzela ouviu foram as vozes de mestres de seu ofício ensinando e aconselhando-a no que, na época, chamavam, enchendo a boca, de “nobre arte da guerra”.

Nesse sentido, Jeanne foi treinada como um desses samurais naqueles filmes de antanho: estudar mapas, estratégias, aprender a empunhar e bom uso fazer de uma espada e até mesmo aprender outras línguas. Tudo para impedir o domínio dos tradicionais inimigos da França: os ingleses – que eu, quase que por descuido e excesso de convivência aqui, quase que digito “nós, ingleses”. Na época, o importante era romper o cerco à região de Orléans.

O resto da história

Como sabemos, sua missão não foi aquilo que poderíamos chamar de um sucesso. Rendeu um belo julgamento transformado em brilhante troca de argumentos de George Bernard Shaw com George Bernard Shaw para divertimento das platéias, um filme fraco de Otto Preminger, com a maravilhosa Jean Seberg, que, na verdade, era mais prendada vendendo o International Herald Tribune no Champs-Elysées, conforme nos mostrou mais tarde o filme Acossado, de Godard, do que empunhando espada em estúdio de cinema.

Deu-se então que, reza a história (nisso os dois autores não põem dúvidas), Jeanne foi julgada por heresia em 1431 e, a seguir, queimada na fogueira (aí os dois vão para outro lado).

O outro lado

Segundo a tese de Gay e Senzig, Jeanne teria então escapado e uma desconhecida foi queimada em seu lugar. O livro levanta a hipótese de que ela teria se casado com um cavaleiro francês, Robert des Armoises.

Medievalistas franceses debocharam do livro e de sua metodologia agora quando de seu lançamento, em setembro. Lembraram que todo mundo adora uma teoria conspiratória e que, depois de Da Vinci, em livro e filme, era só uma questão de tempo – no caso, uns poucos meses – até que dois malandros (os medievalistas é que assim os chamaram) se aproveitassem do ídolo nacional francês e procurassem faturar em cima dele, ou, no caso, dela, a Pucelle d´Orléans.

Consta que há mais de 20 mil livros já publicados sobre a moça na França, sem falar de filmes, peças de teatro e até vídeo-jogos. Segundo as mais recentes notícias, o que há de relíquias de Santa Joana, pois Santa foi, deverá ser submetido ao ora popular DNA - ou ADN, se quiserem. A discussão, como qualquer papo esquentado no país ao lado, está boa e vale a pena acompanhar.

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