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Atualizado às: 08 de junho, 2007 - 08h47 GMT (05h47 Brasília)
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Britanicidades
Ivan Lessa
Acho que está na hora de pedir meu boné. Até outro dia mesmo, eu me julgava em Londres, Inglaterra, Reino Unido.

De repente, quando não tinha ninguém olhando, ou pelo menos eu estava distraído, passou por estas terras um verdadeiro tsunami daquilo que só consigo chamar dessa palavra que cunhei neste princípio de junho, às vésperas de sair um primeiro-ministro. Tony Blair, e assumir outro, Gordon Brown, todos os dois do mesmo partido, Labour por nome, trabalhista, por boa vontade e má tradução minha.

Lá estava, nas proverbiais letras garrafais, na edição de terça-feira, dia 5 de junho, do jornal que compro na porta do metrô, o Guardian: “Regras para fazer com que os migrantes se integrem”.

Como estou com um resfriado beirando a gripe, e a apenas 1 grau e 5 segundos da febre, pensei por uma fração de segundo que eles estavam falando em migrantes “se entregarem”. Não, não. É integrar mesmo.

Há um grupo de ministros deste governo que aí está e aí ficará, apesar da mudança de líder, que quer porque quer que a cidadania britânica dependa de bom comportamento, passar em testes de inglês e de conhecimentos (gerais e específicos) do Reino Unido.

Sou um dos 347 cidadãos brasileiros radicados neste país que não obteve cidadania ou passaporte da Comunidade Européia (dá na mesma). Dos outros 500 mil brazucas (é assim que gostam que os chamem) que vivem por aqui, 87% se encontram em pleno e regozijante estado de ilegalidade.

Não que isso faça muita diferença para eles: no Brasil também, seu torrão (e botemos torrão nisso) natal, estariam na mesma condição. Todo brasileiro é culpado de alguma coisa. Mesmo depois que o provem inocente.

Nas palavras imortais de Clint Eastwood em “Os Imperdoáveis” (aí um esplêndido erro de tradução. É para ser “não-perdoados”, algo muito diferente), logo depois de mandar bala num moreno e ouvir um circunstante alegar que o executado era inocente: “Inocente de quê?” Perfeito. Grande diálogo. Curto e grosso.

Mas antes que eu divague ainda mais: vai todo mundo ter que fazer exame. Não vale cola. Cola é cadeia garantida. Segundo as novas regras do novo jogo. Acho. Aliás, por que é que estão chamando de regras? Deixemos de eufemismos, ladies and gentlemen. Vão ser leis mesmo. E se bobearem vem aí a Constituição escrita. Um perigo de que me ocuparei outro dia.

Tem mais, tem muito mais.

Dia da Pátria

Estão preparando um dia nacional para a Grã-Bretanha afim de reforçar a idéia e o sentimento de cidadania e impedir que as comunidades locais se dividam ainda mais.

Sem dúvida. Dois ministros já chamaram a possível introdução de um dia nacional como uma verdadeira “revolução na cidadania”. Revolução é diferente, minha gente. Basta dar um mergulhinho na Net e lá googlar: revolução frança 1789. Ou rússia 1917. Aí, sim, verão como é revolução. Com guilhotina e execução sumária, sim senhor. Nada a ver com parada, banda marcial, pompas, uniformes garbosos, cavalos enfeitados, hinos, bandas e coisa e tal. Eu já passei por isso e sei que só dá em besteira. Começa gente a se mandar a mais não poder.

Claro que a coisa – só pode ser “coisa” – seria à inglesa, ou britânica, bem teatral, que disso eles entendem. O que não impediu Andrew Lloyd Webber de compor aqueles horrores todos, supostamente “musicais”, e comprar não sei quantos teatros no West End, a teatrolândia aqui de Londres.

Gordon Brown, já quase líder do país, discursou elogiando a “britanicidade”, essa tal de Britishness, que em inglês leva automaticamente maiúscula. Acrescentou que os laboristas, ou trabalhistas, deveriam abraçar a “Union flag”, que é o apelido carinhoso que se dá ao querido símbolo da pátria, da amada pátria do Reino Unido. Segundo Brown urge (há um tipo que vive a “urgir”, pois não?) recapturar o lábaro não-estrelado, arrancando esse pendão das garras afiadas da extrema-direita.

Não fugirei ao lugar-comum. Eu já vi esse filme antes. Juro que não acaba bem.

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