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Falta um gene ninóis | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Acompanhei com vivo interesse essa série que nós (na verdade, a boa gente que faz para valer este sítio) andamos despachando em multimídia. O das raízes afro-brasileiras. Ninguém escapa das garras implacáveis da genética. Interessante saber que Obina, do Flamengo, é 61,4% africano, 25,4% ameríndio e 13,2% europeu. Ou que Milton Nascimento é 99,3% africano, pois assim berram, se vozes têm, seus genes. Daiane dos Santos, consta, é “protótipo” da brasileira. E o Brasil “tem a cara do futuro”, segundo afirmou um professor de Harvard. Eu gostaria de ter participado. Quero imensamente saber o quanto de quê sou eu. Ninguém, lamento, veio com um palito grosso com algodão na ponta para passar pelos cantos de minha boca, conforme vejo fazerem o tempo todo nas telesséries norte-americanas. No escuro, eu me arrisco a prever que sou 28,5% africano e o resto dividido entre os sabores morango, baunilha e groselha, muita groselha. Falando (mais ou menos) sério: eu sou mais brasileiro que a Daiane, uma vez que me dou ao trabalho de só chamar de ADN, quando em torno todos falam em DNA. Minha vida é legendar brasileiros e brasilidades. Por que ADN? Porque é a abreviatura de ácido desoxirribonucleico. Eu disse “legendar”. Nunquinhas que, num papo, eu pronunciaria o sobrenome do ácido em questão. Gosto de ser pedante. Tentei, pois, sozinho em casa, em frente ao espelho, pronunciar desoxirribonucleico, assim como a Eliza Dolittle, em My Fair Lady, musical baseado na peça Pigmaleão, de George Bernard Shaw. Não houve jeito. Mesmo dividindo bem lento as sílabas: de-so-xir-ri-bo-nu-clei-co, para, em seguida, tentar a galope. Nada. Nenhum professor Higgins, ou mesmo inspetor Porciúncula, para me dizer o equivalente em português à frase famosa que dá ensejo ao número inesquecível do sucesso, em filme e na Broaway, de Frederic Lowe e Alan Jay Lerner: “He´s got it! By George, he´s got it!” Legendando, como de hábito: “Ele pegou o jeito! Quiuspa! Ele pegou o jeito!” Não peguei. Mas só escrevo ADN e decifro a abreviatura com uma naturalidade de dar inveja a Audrey Hepburn e Rex Harrison. Ou Susana Vieira e José Wilker, se é para a cena se passar pelo Brasil.Tudo bem. Então eu não pronuncio o ADN correto por completo. Não peguei o jeito. Mas uma coisa descobri. A coisa que eu peguei Eu peguei o fato de que falta um gene vital nessa molécula orgânica que reproduz o código genético e é responsável pela transmissão das características hereditárias de cada espécie de todos os seres vivos. Peguei o fato de que não temos em nossa “sopa genética”, chamemo-la assim, o gene que nos dá a capacidade – mais: a responsabilidade – de ter e manter vivas as memórias. Sei disso porque Entubo muito. No bom sentido, claro. Entubar, já disse e repito, é navegar nas águas agitadas do sítio (site é a mamãezinha) YouTube. Lá vivo a tentar pescar coisas nossas, nossas coisas, que vieram e já se foram. Tem pouco, muito pouco. Outro dia, peguei um Carequinha cantando aquela marchinha da “fã da Emilinha”. Muito Taiguara, Chico Buarque, Elis e, conforme é lugar-comum dizer hoje em dia, os “suspeitos de sempre”. Na janelinha perto da search (é busca) tente você mesmo, aí em sua casa, no seu potente computador banda larguíssima, tente coisas que já se foram e não tem ninguém cantando nada. Ao todo, em 3 ou 4 EnTubadas, tem no máximo uns 4 minutos de “Rio Antigo”. Outros tantos para bondes, esses em cores e, claro, em movimento. Alguns filmes do Jean Manzon feitos de encomenda, nem por isso menos curtíveis, e outras preparadas pelos americanos quando queriam garantir nossa presença ao lado dos aliados na luta contra as forças do eixo (é preciso, é importante uma boa pitada de chavões nessa história). Futebol? Tem, sim senhor. Pelé, Garrincha estão lá. Mas em branco e preto, que são as cores de tudo que passou, menos o Botafogo, lógico. Pouco, muito pouco, repito eu. Desconheço o ADN e até mesmo o DNA de Pelé e Garrincha. Uma coisa eu garanto: apesar de todo talento, ou mesmo gênio, assim como nós outros, brasileiros, falta-nos o gene da memória. Gente, vamos partir agora para outras raízes. Desta vez, as Raízes da Memória, que é minha colaboração e sugestão para nosso – sim, claro – sí-ti-o. |
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