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Ivan Lessa: Bichos bichas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Nas terras encharcadas do condado de Gloucestershire, aqui na Inglaterra, cultiva-se, com o carinho que merecem, cisnes, patos e gansos e outras aves. Entre estas, dois belíssimos flamingos, naquele tom de cor-de-rosa crepuscular que lhes é peculiar. Ambos têm nome. São o Carlos e o Fernando. Assim mesmo. Como se fossem ou personagens de uma telenovela brasileira ou teleatores da mesma. Carlos e Fernando são tão bem tratados quanto o resto da passarada. Ambos, no entanto, diferem do resto da alada turma não só por sua altura, cor e tamanho das pernas. Carlos e Fernando são gays. Ou homossexuais, para os que preferem uma designação mais neutra. Sim, há muita gente que ainda não entendeu a luta pelo uso legítimo da palavra “gay” para designar aqueles que preferem amar membros de seu próprio sexo. Há uma ala exaltada, para não dizer extremada, que prefere mesmo “bicha” a “gay”. E uma outra, não menos radical, que busca a legitimação do “veado”. Uma terceira vai ainda mais longe e quer como se pronuncia: “viado”. Isso tudo são paetês e lantejoulas da parte de uma gente que em nada difere das outras gentes, tendo obtido até seu dia internacional de orgulho, celebrado com marchas, desfiles, discursos e música, muita música, pois a música, sabemos todos, tange as cordas de todos os corações, mesmo os mais duros. Carlos e Fernando Conforme é de meu (péssimo) hábito, desviei-me do assunto. Carlos e Fernando. Deles, desses belíssimos exemplares de flamingos gays, é que eu estava falando. Deles falaram os jornais, nas páginas não dedicadas à transição do poder nestas ilhas e da disputa pelo poder (bum!) no Iraque. Carlos e Fernando já vivem juntos há seis anos. Fossem gente, já teriam direito a cerimônia ao menos no civil e papelada em ordem, como qualquer outro cidadão. Sendo flamingos, têm direito apenas ao que a espécie tem direito. Quer dizer, criaram três filhotes. Direitinho como fazem seus equivalentes humanos: adotando e criando. Só que agindo fora da lei, pois roubaram os ovinhos de outros casais de flamingos que, numa metáfora ousada, e talvez até mesmo de mau gosto, flamingos que não queimam incenso no altar de Oscar Wilde. Flamingos straight, como se diz por aqui. Um ato repreensível, esse de Carlos e Fernando, mas nem por isso menos compreensível. Que aspirante a pai e mãe não se viu diante de um dilema desses? Lembremos que Carlos e Fernando não tinham condição de procurar um advogado ou uma agência especializada na adoção de bebês para membros daquilo que muitos maldosamente ainda insistem em chamar de “terceiro sexo”? Carlos e Fernando, apesar daquele jeito indiferente que todos os flamingos aparentam, mostraram-se pais exemplares, alimentando os filhotes com o leite produzido em suas próprias gargantas. Acho admirável o gesto. Mais ainda por desconhecer por completo a maneira como se pode – mesmo em se tratando de flamingo – produzir leite na garganta. Tentei em casa e não consegui de jeito nenhum. Consegui foi engasgar e ter um acesso de tosse de deixar até os vizinhos preocupados. Um happy ending Tamanha é a popularidade do casal Carlos e Fernando, que as autoridades locais, diante do problema de um ovo de flamingo abandonado no ninho pelos pais ingratos, deram-no para que ambos o chocassem e, quando do feliz dia de seu nascimento, irão ambos criá-lo como se fossem seu. Ainda não sabem se será flamingo ou flaminga. Com humildade, tomo a liberdade de sugerir que, não importa o caso, macho ou fêmea, batizem – no sentido figurado, claro – o longilíneo bichinho de Jacy. Sempre achei lindo o nome de Jacy. Com ípsilon. |
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