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Atualizado às: 06 de junho, 2007 - 19h07 GMT (16h07 Brasília)
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Apesar de juros, Delfim prevê crescimento de 5%

Dólares
Delfim Netto defende queda forte da taxa Selic, o que levaria a elevação do dólar
O economista Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento nos anos 70 e 80 e ex-deputado federal por cinco mandatos, diz que a discussão sobre a taxa de juros “é inútil, porque não vai mudar mesmo”.

Apesar da afirmação - feita em entrevista à BBC Brasil antes do anúncio do Copom, nesta quarta-feira, sobre a redução da taxa Selic de 12,5% para 12% ao ano -, Delfim defende esta mudança, para um patamar bem menor, o que levaria a uma apreciação do dólar em relação ao real, ajudando a indústria brasileira.

Mesmo assim, ele acha que o país pode crescer 5% este ano, acima das previsões do mercado e do próprio governo.

O economista diz que a queda constante do dólar se deve à combinação do aumento das exportações e dos preços das commodities, com a atração de capital externo por conta do juros altos. “Por isso é que está todo mundo aqui. Não é pelas virtudes do governo, da economia braileira. É pelas condições que o Brasil criou”, afirma.

Delfim considera exagerados os alertas de alguns economistas de que está havendo uma desindustrialização no Brasil, mas diz que alguns setores podem sofrer que se esse processo for mantido. Veja abaixo os principais trechos da entrevista que Delfim concedeu à BBC Brasil.

BBC Brasil – O Copom está reunido terça e quarta-feira, e a expectativa do mercado é de uma redução dos juros em meio ponto. É suficiente? O senhor acha que os juros estão no patamar adequado para a economia brasileira?

Delfim Netto – Não, os juros estão num patamar absolutamente inadequado. Mas isso, na minha opinião, é uma discussão hoje totalmente inútil. Porque não vai mudar mesmo, de forma que a gente fica perdendo tempo. Todo mundo sabe o que tinha que ser feito, eles (o Banco Central) têm um comportamente extremamente cuidadoso, inventaram até um nome pra isso. Vão baixar meio ponto depois de terem avisado na última reunião que três tinham votado contra. Conhece aquela piada que a vovó subiu no telhado? Então, é isso. De forma que esta é uma discussão totalmente irrelevante.

BBC Brasil – E diante deste cenário que o senhor acha que não vai mudar, qual é a discussão relevante?

Delfim Netto – A discussão relevante é que o real deveria mesmo se desvalorizar, por pelo menos dois motivos. Um é a mudança estrutural, e outro é o que está acontecendo no mundo. A mudança estrutural no Brasil é que nós éramos um grande importador de petróleo e somos hoje quase um exportador líquido. Também estamos nos beneficiando de uma elevação nos preços das commodities do mundo. E pela primeira vez esta elevação não se reflete na alta de inflação. Então, sobe o preço das commodities, nossas relações de troca melhoraram muito e teríamos uma valorização do real só por conta disso. Por outro lado, existe uma supervalorização produzida por estas operações estimuladas pelo diferencial de juros, que é combinado, no Brasil, com um excelentíssimo mercado financeiro. Então aqui se junta a fome com a vontade de comer. De um lado um diferencial de juros gigantesco e um sistema muito eficiente no mercado futuro.

BBC Brasil – E como fazer para mudar isso?

Delfim Netto – De novo, esta discussão é inútil. Tem que fechar esta janela, mas esta janela não vai ser fechada. A ação do Banco Central estimula o aproveitamento da janela.

BBC Brasil – E derrubando os juros isso automaticamente muda?

Delfim Netto – Se derrubar os juros devagarzinho só piora ainda mais. Tinha que fechar a janela de vez. O dólar não voltaria a R$ 3. O mercado ia simplesmente eliminar a supervalorização. Ninguém sabe quanto, mas na minha opinião é coisa de 10%. Mas isso tudo é chute. Aqui nós somos todos chutadores. Do jeito que está nós vamos continuar o último peru disponível no mundo. Por isso é que está todo mundo aqui. Não é pelas virtudes do governo, da economia braileira. É pelas condições que o Brasil criou.

BBC Brasil – Existe um debate sobre desindustrialização. Como senhor vê isso?

Delfim Netto – Não há desindustrialização, isso é um exagero. O que há é que setores com vantagens comparativas reconhecidas durante os últimos 50 anos estão sofrendo enormemente. E o pior é que o governo diz: "é porque eles são ineficientes", e esquece que o ineficiente é o governo. Aí vem um outro gênio e diz: "é bom apertar o câmbio", porque quem sabe apertando o câmbio o governo vem e fecha os buracos das estradas. A gente quebra o setor privado pra ver se o governo faz estrada melhor, gera energia elétrica, libera os portos.

BBC Brasil – Qual é a sua expectativa para o crescimento neste ano e nos próximos. Vamos crescer de acordo com o previsto no PAC?

Delfim Netto – Neste ano vamos crescer em torno de 5%, na minha opinião. O PAC já cumpriu seu papel, de colocar o desenvolvimento sobre a mesa. E agora vai sendo executado. Está se aperfeiçoando o comitê gestor, está se verificando aquilo que todos nós sabíamos: que não há projetos, há rabiscos. Isso quem tem um pouco de experiência no governo sabe que quando o governo diz que ele tem um projeto, ele tem um rabisco. Agora, na hora de executar é que tem que aparecer o projeto. Eu acho que o PAC está na direção absolutamente correta. Ele tem inclusive condições de ajudar o crescimento. E vai ser em boa parte realizado, eu acho.

BBC Brasil – Um setor que ganhou muito destaque nos últimos meses, até por causa do PAC, é o de energia.

Delfim Netto – Esse é um problema crítico. Na minha opinião a dúvida é justificada, e enquanto o governo não convencer o setor privado de que não haverá um apagão de energia como aquele que aconteceu no governo Fernando Henrique, os investimentos privados serão feitos com muito maior cuidado e de forma muito mais seletiva. Este é um fator mais inibidor de investimento.

BBC Brasil – O senhor acha que o governo tem elementos para convencer o setor privado ou realmente tem uma crise?

Delfim Netto – Na verdade o governo não tem recursos para investir. Ele primeiro precisa convencer quem vai construir a usina, o que já não é fácil. E depois tem que convencer as empresas de que as usinas vão ser construídas. Se isso não for feito, nós vamos sentar e esperar.

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