BBCBrasil.com
70 anos 1938-2008
Español
Português para a África
Árabe
Chinês
Russo
Inglês
Outras línguas
Atualizado às: 02 de maio, 2007 - 10h09 GMT (07h09 Brasília)
Envie por e-mailVersão para impressão
Estrela Acompanhada
Ivan Lessa
Até o começo desta semana, eu era um ex-torcedor botafoguense. A partir de segunda-feira, passei de novo à ativa.

Tudo porque um bom amigo, na verdade o mais antigo dos amigos, teve a enorme e mágica gentileza de me enviar, sem eu pedir nem nada, o caderno esportivo do Globo do dia 23 de abril, com tudo que eu não sabia desde 1978 sobre o Botafogo.

Pois é, o time está em busca do bi, fora campeão da Taça Rio e vencera, no dia anterior, a Cabofriense por 3 a 1.

Eu que até mesmo ignorava a existência de uma Cabofriense. De Cabo Frio, lembro apenas de uma casa de veraneio e alguns pescadores safados.

Não sabia que por lá se batia bola. O Botafogo, dest'arte (é sempre arte com o Botafogo, esteja eu presente ou não), conquistara o segundo turno do Estadual e agora iria defender o título com o Flamengo.

Depois de esmiuçar as dez páginas do suplemento, ler tudo que foi escrito, observar com lupa jogador por jogador alvinegro, vi-me de novo transportado àquele que realmente é o mais nobre dos esportes: torcer.

Feito o Lamartine Babo escreveu para o hino do América (plagiando, por sinal, uma música americana tradicional, Row, row, row your boat: hei de torcer, torcer, torcer até morrer.

Aqui de Londres e 35 anos atrasado, mas vale a desculpa: há certas coisas que só acontecem não só com o Botafogo, mas também com os botafoguenses.

Esquentando os músculos

Torci pelo Botafogo de ir a treino, chegar a jogo à uma e pouco da tarde para pegar o campeonato de aspirantes e, de manhã, sábado ou domingo, ir ver os juvenis baterem bola.

Confesso: cheguei a treinar numa manhã ensolarada. Ensolarada e triste, já que não fui convidado para voltar.

Mesmo assim, continuei torcendo furiosa e desesperadamente pelo Botafogo, juntamente com os outros 17 camaradas, que hoje devem ser mais de 21.

Em 1948, não perdi um único jogo do time que acabou campeão, depois de 16 anos (havia uma tertúlia a respeito de um tetra meio maroto nos anos 30).

Sofri os nove anos que se passaram até 1957, quando Garrincha e Paulinho Valentim, com seus cinco gols, fizeram a festa do campeonato bem entre as pernas do Fluminense (a Cabofriense e seus valorosos defensores o que estariam fazendo naquele dia?).

Esperei mais um pouco, veio um bi no início dos anos 60 e depois… depois eu viajei, tudo ficou mais complicado e saía caro acompanhar a valorosa equipe de General Severiano, o Glorioso, o time da Estrela Solitária, tudo aquilo que ele era e é, e continuará a ser.

Castidade da Leonor em Londres

Aqui, ao menos, fui casto em matéria de futebol. Não consegui, como não consigo, torcer por Chelsea, Arsenal, Liverpool ou Manchester United, nenhuma dessas bobagens.

São todos uns estrangeiros, estão por fora, escandalosamente na banheira e os juízes foram comprados.

Depois há gente que diz que a imprensa não tem força. Tanto li o tal do suplemento que, agora, nestes dias que antecedem o jogo decisivo com o Flamengo (na minha época era freguês), não consigo pensar em outra coisa.

Para mim, adquiriram vida, muito mais vida que Wayne Rooney ou Thierry Henry, Alex, Túlio, Lúcio Flávio, Dodô (não vale a pena ir a um estádio onde não tenha ao menos um Dodô dando seus pontapés).

Joílson também é bom. Sem Joílsons, não há nem futebol nem Brasil. Sem esquecer, em hipótese alguma, de Diguinho, que nós não vivemos de verdade sem alguém no diminutivo a pelo menos dez passos de nós.

Alea jacta est, conforme se dizia na minha época. Eu, como aquele cachorro de 1948, o Biriba, costumava dar sorte. Tanta sorte que fiquei folgado.

Sou mais o Botafogo, dou um gol de vantagem e canto o placar: 3 a 1. Vou mais longe, como bom alvinegro: gols de Diguinho, Lúcio Flávio e Joilson.

Nem eu nem a estrela estamos mais solitários. Reencontramo-nos, um e outro, apesar dessa distância toda. Comemoremos.

Arquivo - Ivan
Leia as colunas anteriores escritas por Ivan Lessa.
NOTÍCIAS RELACIONADAS
Cem anos de dinheirão
25 abril, 2007 | BBC Report
Atirando no que não se viu
23 abril, 2007 | BBC Report
Uma velhinha do barulho
20 abril, 2007 | BBC Report
O terceiro a morrer
18 abril, 2007 | BBC Report
Ivan Lessa: Fãs-bomba explodirão?
16 abril, 2007 | BBC Report
O arrefecimento global
13 abril, 2007 | BBC Report
O goleiro: seu susto e busto
11 abril, 2007 | BBC Report
Rizoneirices
04 abril, 2007 | BBC Report
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
Envie por e-mailVersão para impressão
Tempo|Sobre a BBC|Expediente|Newsletter
BBC Copyright Logo^^ Início da página
Primeira Página|Ciência & Saúde|Cultura & Entretenimento|Vídeo & Áudio|Fotos|Especial|Interatividade|Aprenda inglês
BBC News >> | BBC Sport >> | BBC Weather >> | BBC World Service >> | BBC Languages >>
Ajuda|Fale com a gente|Notícias em 32 línguas|Privacidade