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Atualizado às: 25 de abril, 2007 - 08h54 GMT (05h54 Brasília)
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Cem anos de dinheirão
Ivan Lessa
Uma das poucas observações inteligentes que eu fiz nos últimos dois anos foi a de que, a cada semana que passa, morre a pessoa mais velha do mundo. Outro dia mesmo foi uma senhora na Somália com 114 anos.

Googlei muito mas não encontrei uma lista com um mínimo de pelo menos os 10 primeiros colocados em idade avançada para saber quem subira agora ao trono.

Acho injusto. Não há jornal que se preze que não viva publicando lista com as 100 ou 500 maiores fortunas do mundo, por que não, ao menos, uma materiazinha com a velharia?

Falo como parte mais ou menos interessada. Nessa maratona da vida eu não estou, por certo, entre os primeiros colocados. Para falar a verdade, nem quero estar.

Sou, no entanto, meio azarado em certas coisas e, quem sabe?, sou capaz de chegar aos 77 anos, seguramente lanterninha no campeonato da vida, como deveria ter composto Noel Rosa ou Orestes Barbosa.

A verdade é que acho uma injustiça e uma falta de respeito com o leitor que gosta de saber das coisas essa falta de informação. Ao que parece, a humanidade vem vivendo mais.

Especificamente naquelas partes estratégicas do globo terrestre que já foram chamadas de “desenvolvidas” ou “primeiro mundo”, mas que, hoje, tanto economistas quanto sociólogos consideram de mau gosto e preferem chamar de… nem sei direito o quê. Algo insosso e mendaz, com toda a certeza.

Aqui na Grã-Bretanha, há 200 anos a expectativa de vida era de 50 anos para as mulheres e 40 para os homens.

Crianças? Essas não existiam. As crianças são uma invenção escocesa do século 18. Pegou mais que videojogo.

Hoje em dia, ao vir para o centro da cidade, esbarro às pamparras em cidadãos com 97, 99 e 101 anos. Sei com precisão a idade deles porque a vivem apregoando ao menor pretexto querendo puxar conversa com estranhos.

Não estão, faço a questão de frisar, pedindo esmola. Parecem-me também vagamente lúcidos. Quer dizer, empurram direitinho o “andador” e só cospem no chão e não nos outros. Os anciões descobriram agora, com o rastejar dos anos, uma maneira infalível de ganhar uns bons cobres.

Façam suas – Cof! Cof! – apostas!

Um caso que deu esta semana nos jornais ilustra como a terceira idade, e até mesmo a quarta, está pondo suas manguinhas de fora, para usar uma expressão que qualquer velho brasileiro de 62 anos de idade conhece, em matéria de levantar uns cobres, por aí.

Em 1997, o senhor Alec Holden, da cidade de Epsom, no condado de Surrey, ex-professor e ex-carpinteiro, como bom inglês que é, resolveu fazer uma fezinha. Os britânicos são conhecidos por serem doidos por uma apostinha. Ou apostona. Alec Holden, nascido em 24 de abril de 1907, contava então 90 anos.

Foi até uma casa de apostas das mais populares, a William Hill, regulamentada e supervisionada pelas devidas autoridades, como todas as outras, e bateu no balcão 100 libras em dinheiro vivo dizendo que vivo estaria dentro de exatamente 10 anos.

Ou seja, agora mesmo, no dia 24 de abril de 2007, quando completaria (como completou) seu centenário, recebendo telegrama da Rainha e tudo, como é o costume local.

O camarada atrás do balcão, suposto especialista na arte de não perder dinheiro, fez um “check-up” visual do bom sr. Holden e concordou, dando ao freguês a proporção de 250 para 1, ou seja 250 libras para cada libra apostada.

Qual seria o aspecto físico de Alec Holden aos 90 anos? Não sei e não vem ao caso, porque um dia depois do Dia de São Jorge, o santo padroeiro da Inglaterra, na terça-feira, Alec Holden atravessou a rua com cuidado e foi até os escritórios da William Hill para receber suas merecidas 25 mil libras, uns 12 mil e 500 dólares.

Ainda não sabe em que vai gastar o razoável tutu. Espero que seja em mulher e bebida.

Um sinal dos tempos: as casas de apostas não estão mais topando essa de chegar aos 100 anos. Agora só 110. Vivendo (muito) e aprendendo.

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