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Atualizado às: 18 de abril, 2007 - 07h55 GMT (04h55 Brasília)
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O terceiro a morrer
Ivan Lessa
Diz a sabedoria (ou crendice) popular, tanto faz, que as celebridades morrem de 3 em 3.

A se julgar pelo barateamento das pessoas ditas “célebres”, isso significa que as “celebridades” (aí vão as aspas como dois minutos de silêncio) estão vestindo o paletó de madeira de 1500 em 1500, uma vez que se passou a contar qualquer pessoa que, em qualquer lugar do mundo, tenha passado ao menos 24 horas numa sala ou quarto de Big Brother.

Eu, no entanto, vou com a maior cerimônia, e parcimônia também, às minhas celebridades. Que estão se mandando na horizontal, sim, senhor, sempre de 3 em 3, como manda o figurino delas, antigonas e velhuscas feito eu.

Semana passada foi – e foi-se – o Kurt Vonnegut, que era também Júnior e eu a única pessoa na face da Terra a de Júnior chamá-lo. O homem – para não complicar ainda mais as coisas – era um de meus escritores prediletos. Que venham as pedradas.

Outro dia, aqui mesmo, neste espaço onde falo sozinho feito um doudo-maluco do Fernando Pessoa, andei dizendo que eu não lia mais, que eu li muito menos do que digo, que ler é de uma chatice infernal, que, em se tratando de livro e escritor, sempre menti e enganei.

É verdade. Menos no que diz respeito a Kurt Vonnegut Jr. Sempre achei que eu o descobrira sozinho, sem ninguém – gente ou revista especializada – que me recomendasse. Sempre estive certo.

Foi no peito e na marra e na valentia. Feito se conhecia uma moça em festa de formatura nos anos 50 e se tirava para dançar.

Eu era, então, leitor de ficção-científica americana, claro, que chegava tudo no Brasil nas boas bancas do centro da cidade em formato pocket-book, conforme edição original, e o preço era baratíssimo. 25 centavos de dólar era o preço do livro lá ? 25 cruzeiros aqui, ou aí, numa vasta banca da Almirante Barroso, para ser preciso.

Um dia, eu vi lá: The Sirens of Titan (As Sereias de Titã). Gostei da chamada de capa e contracapa e fui nele. Me esbaldei para valer, como se esbaldava naquela época, na falta de coisa melhor, ou pior, a fazer.

Engraçado, irônico, danado de bem escrito, do tamanho exato que um livro deve ter: mais de 200 e bem menos de 300 páginas.

Depois fui lendo tudo do homem, que não era muito, até que, em 1969, ele passou a pegar primeira edição em capa-dura, com o sucessão que foi o Matadouro Cinco, que estourou entre os leitores americanos como estouraram as bombas anglo-americanas em Dresden, na Segunda Guerra, para encaixar, no símile, uma referência ao assunto central do romance.

De lá para cá, Kurt não olhou mais para trás. Nem deu bola quando a crítica abalizada passou a tentar abalá-lo com epítetos como “repetitivo, monocórdio, sentimental, maneirista” e por aí afora.

So it goes, conforme ele tirou patente, no romance, de um mote que aplicava logo após a morte de alguém. Com a ascensão, ou “descensão”, de Kurt, todo mundo tacou lá no fim do obituário: So it goes.

No mesmo dia em que disseram “É isso aí” (minha versão da frase) a Vonnegut, deixou-nos também, mais na moita, a cantora Dakota Staton. So it goes. É isso aí.

E agora? Quem?

Dakota Staton era da “escola”, se assim podemos chamá-la, de Dinah Washington. Viera dos blues, passara pelo gospel, fixara-se nas baladas, sempre com raízes próximas ao jazz.

Gravou com George Shearing, bateu papo comigo lá no início dos anos 70 no clube de jazz Ronnie Scott´s. Não que uma coisa tivesse algo a ver com a outra. Apenas me aproximei da mesa em que estava sentada sozinha, entre um “set” e outro, disse-me admirador, o que era verdade, citei logo, ainda de pé, 2 ou 3 faixas de 2 ou 3 elepês, e ela – gentil, educada – me convidou para sentar.

Aí o pouco que a cervejinha (a noitada saía mais barata) me afetara as desinibições abandonou-me por completo e eu fui até o fim de uns dolorosos (para ela) 15 ou 20 minutos.

Hoje eu acho bacaninha. Que fiz muito bem. Passei a ouvi-la com mais atenção.

E mais atenção ainda prestarei, enquanto estiver lendo de novo (confesso: Kurt Vonnegut Jr. é o único escritor com mais de um livro que eu já li pelo menos 2 vezes) As Sereias de Titã ou Cama de Gato.

Sim, eu consigo ler e ouvir ao mesmo tempo. O que não consigo é sequer pensar quem será o terceirão nessa lista de fatalidades célebres.

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