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Atualizado às: 23 de abril, 2007 - 09h04 GMT (06h04 Brasília)
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Atirando no que não se viu
Ivan Lessa
Eu comecei a fumar lá por volta dos 10 ou 12 anos. Por causa do Humphrey Bogart. Ele fumava bem. Bem e muito. Todo mundo no cinema fumava. Na tela, na platéia e inclusive o lanterninha. Tudo por causa do Humphrey Bogart.

Por sorte – e estou sendo mais que franco – havia sempre uma mulher ao lado do Humphrey Bogart. Não era só o Dooley Wilson tocando no piano e cantando As Times Goes By. Então, junto com o cigarrinho, eu passei a prestar mais atenção também em mulher (de qualquer tipo ou nacionalidade) e música americana.

Além do Dooley Wilson e o “fox” de Herman Hupfeld, tinha de quebra Ingrid Bergman, Lauren Bacall, Gloria Grahame e quem mais tenha figurado ao lado de “Bogey”, como o chamavam na intimidade, embora ele não fosse íntimo de ninguém. Bastava olhar para o jeitão dele para ver. Olha o que eu acabei de fazer, olha onde estou me metendo, assim como quem não quer e não sabe de nada: uma tremenda de uma confissão.

Nas entrelinhas aí de cima fica subentendido que não fosse o homem contracenar com mulheres, eu poderia muito bem ter seguido o caminho dos homens que seguem outros homens. Homens que preferem homens como Humphrey Bogart. Ou Dooley Wilson. Ou Claude Rains. Ou Sydney Greenstreet. Ou Peter Lorre. Ou Paul Henreid, um tremendo boa pinta.

Enfim, não fosse a presença “delas” e eu poderia muito bem estar hoje puxando parada em dia de Orgulho Gay. E não teria nada demais. De Ingrid Bergman para a paixão por Kathryn Grayson e Susan Hayward foi um pulinho só. Aí eu estava sozinho no meio do salão, minha constituição mental e psicológica já tendo que se defenderem sozinhas, sem o auxílio de ninguém.

Não posso jurar que eu seja heterossexual por causa das moças que acompanhavam as diversas vidas (ah, é, teve ainda Ava Gardner, em A Condessa Descalça!) de Humphrey Bogart. Mas é um dado. Uma pista.

No encalço

Vieram juntos pois: vício, sexualidade e preferência musical. Tudo culpa do cinema americano. Falado.

Aí, depois de me deixar em posição delicada, eu vou a assunto mil vezes mais delicado. Um milhão de vezes mais sério. Atenção: eu disse sério. Sou capaz de apostar quanto quiserem, sou capaz de por minha mão no fogo, que esse rapaz, o sul-coreano lá da universidade no estado da Virgínia, responsável pelo monstruoso massacre da semana passada, deve uma boa parte de seus desvios (nele, desvios; em mim, despertar de tendências naturais) ao cinema americano.

Não interessa, ninguém procurou medir a proporção. Mas sou quase capaz de jurar que em 150 mil pessoas acostumadas à ração semanal de filmes violentos americanos, há pelo menos uma em que a coisa vai descer quadrada, vai pegar de mau jeito, vai dar em bode.

Tá bom, vá lá que seja: em 1 milhão e 500 pessoas, um doente mental vai apontando, lá na cuca bagunçada, a arma para alguém. Ou 10, 20 ou 30 “alguéms”. Já basta, já é muito.

Matar e morrer são a coisa mais natural do mundo. Está aí o Iraque que não deixa ninguém mentir. Filme, parafraseando aquela frase, é chicletes para os olhos. Todos os filmes do Tarantino, do Robert Rodriguez, do Wes Craven, daqueles a que os americanos já deram tantos rótulos, de “slasher” a “ splatter films”.

Eu dei a sorte, só pode ter sido sorte, de não ter uma arma perto de mim quando vi Casablanca. Embora a violência não tivesse o glamour de hoje em dia e fosse em branco e preto.

Uma vez, há muitos anos, já adulto, tive na mão um revólver calibre 38. Estávamos, um amigo (heterossexual como este vosso criado) e eu, num terreno descampado e ele perguntou se eu gostaria de dar uns tiros numa árvore logo ali adiante.

Não estava louco de vontade, mas viver é (era) experimentar coisas. Empunhei o bruto e dei um tiro na direção geral da árvore. Não sei se pegou ou não. Não vem ao caso.

O importante é que eu esvaziei o tambor da arma atirando no nada. Por quê? Porque era agradável.

O peso do revólver na mão, o modo como nela cabia, o estampido do tiro, o pequeno sacolejo pelo corpo inteiro, o… Enfim, é aí que eu queria chegar. Ou preferia nunca ter chegado. Foi agradável. Uma coisa assim.

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