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Atualizado às: 30 de abril, 2007 - 08h58 GMT (05h58 Brasília)
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Decadência de abril
Ivan Lessa
Abril era uma espécie de preparativo engalanado para maio, que como todos sabem é o mês mais bonito que há em qualquer parte do mundo. Dizem.

Eu nunca comparei, nunca medi, nunca apalpei. Senti ou menos frio ou mais calor, ou o que é ainda mais provável não senti nada.

Dia da semana, para mim, tem mais personalidade do que mês, com exceção de dezembro a março quando é época de férias. Era época de férias. Agora acabou é só tempo de trabalho.

As próprias férias passaram a ser um trabalhão. Pegar condução, fazer fila após fila no aeroporto, ser revistado, aguentar atraso. Enfim, viver é uma longa e prolongada série de exames, escritos e orais, para os quais não estamos preparados.

Consegui, até agora, driblar abril. Tento um pouquinho mais. Por que será que, em inglês, por exemplo, mês e dia da semana se escreve em maiúscula? Que bobagem é esse excesso de respeito? De maiúsculo, na vida só Deus e Nós.

Cá estou de novo às voltas com esse abril que se vai. Aqui no Reino Unido, em sua última semana de vida, quando os meteorologistas têm que justificar a fortuna que ganham, abril não saiu dos noticiários.

Trata-se do abril mais quente dos últimos 300 anos, quando começaram os registros. Ou melhor, quando começou a boca de ficar com um termômetro ou barômetro, ou sejá lá o que for, na janela vendo a quantas anda a temperatura.

A imprensa, que não agüenta mais ficar noticiando os últimos suspiros do governo de Tony Blair, ou dar as más notícias habituais do Iraque, adorou.

Os ingleses só falam do tempo sempre foi o lugar-comum. Mentira. Os ingleses sempre falaram de mil coisas, de mal dos amigos à pouca-vergonha que são esses políticos de agora (e esse agora é válido para os últimos 600 anos, desde que começaram os registros).

O tempo sempre foi assunto secundário é nunca rendeu mais que os proverbiais dois dedos de prosa. Assim:

- Puxa, como está quente hoje.
- Eu acho que ontem fez mais calor.
- Talvez.

E ponto final. Isso o que se falava do tempo. O resto era o que já citei mais conversa altamente literária, indo de Christopher Marlowe (Shakespeare nunca foi assunto de papo) a Virginia Moore. Sim, Moore.

Virginia Woolf não provocava e não provoca o menor interesse entre as pessoas de fino e grosso trato nestas ilhas. Virgina Moore foi uma moça que viveu em Berkshire entre os anos de 1920 a 1964 e nunca escreveu uma linha em toda sua vida. Em compensação, tinha... Mas isso não vem ao caso.

Importante mesmo, como vínhamos (é, sou manhoso, inclui você e você e você nesta história sem a menor graça) dizendo, é que abril – esse abril minúsculo definha – e em 300 anos nunca foi tão quente.

Teve até gente, coitada, que foi à praia por aqui. Vocês não têm idéia de como é uma praia por aqui. É pedra sobre pedra.

A maior parte das pessoas se contentou em tirar a camisa e ficar sentadona na grama dos parques expondo as costas perebentas ao sol de 20 graus dos nossos. É, precisamente. O abril mais quente do Reino Unido teve uma média entre 19 e 21 graus. Queria ver eles pegando um abril dos nossos.

Ah, eu quase que ia esquecendo. No último fim-de-semana de abril teve terremoto no condado de Kent. Bateu 4.3 na escala Richter, derrubou dois ou três muros, não feriu ninguém a não ser um gato chamado Moggy (já está melhor) e os jornais puseram a boca no mundo.

Houve, no entanto, por falar em jornal, um fato realmente digno de nota na imprensa local: nenhum jornalista, mancheteiro ou tituleiro, botou lá em cima de uma notícia relativa ao tempo e ao tremor de terra: abril é o mais cruel dos meses.

Sempre tive vontade de que abril passasse logo só para não ver qualquer citação ou variação do célebre verso do poeta T.S. Eliot. Este ano não teve, fez forfait.

Portanto, pelas minhas contas e meu calendário, um abril que, só por isso, já passou para meu livro particular de recordes.

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