|
Vitória do 'sim' traz novas esperanças e desafios para o Equador | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O Equador é um país cheio de divisões. Divisões entre ricos e pobres, entre o litoral e a serra, entre indígenas e mestiços, entre a cidade e o campo. Uma das poucas coisas com que todos concordam é a decepção com o sistema político do país. O Equador atravessou dez anos de turbulência política - oito presidentes em uma década, três deles destituídos do poder por multidões furiosas. O Congresso ficou fechado por semanas, desde que o governo afastou 57 deputados de oposição. O presidente Rafael Correa tomou posse em janeiro prometendo mudanças radicais para tirar o país do que ele chama de "buraco de miséria" no qual o Equador afundou. O referendo realizado no último domingo foi o primeiro passo nesse processo, e teve um resultado melhor do que o próprio Correa poderia ter sonhado. A sua proposta de formar uma Assembléia Constituinte para reescrever a Constituição ganhou o apoio de 78% dos eleitores - segundo resultados extra-oficiais, com mais de 90% dos votos apurados. "Meu único objetivo é ajudar a tirar o meu país dessa miséria - da pobreza na qual afundamos, que sempre nos dominou", disse o presidente no discurso em comemoração à vitória do "sim". Fé perdida Mas não deveria ser assim. O Equador é o maior produtor mundial de bananas, tem vastas reservas de petróleo e um setor de turismo florescendo. Mas muita da riqueza está - e sempre esteve - concentrada nas mãos de poucas famílias. Cerca de 40% da população vive abaixo da linha de pobreza e centenas de milhares de equatorianos deixaram o país em busca de uma vida melhor - a maioria deles em direção aos Estados Unidos e à Espanha. As pessoas perderam a fé nos políticos e nas instituições políticas. Na Praça San Francisco, no coração do centro colonial de Quito, as pessoas davam a sua opinião com entusiasmo. "As antigas constituições que nós tivemos foram manipuladas e controladas pelos partidos políticos", disse a dona de casa Carmen Maurillo. "Os mesmos partidos de sempre. Essa nova Assembléia Constituinte e a nova Constituição serão do povo. É essa a mudança que nós queremos ver." "O presidente Rafael Correa está agindo de acordo com a vontade do povo, porque o povo quer mudança", disse o professor universitário Gustavo Pazmiño. "Durante mais de 30 anos, com o mesmo Congresso e os mesmos congressistas, nós não vimos nenhuma mudança ou melhora. Mas em três meses, esse novo presidente fez as coisas andarem para frente", afirmou o motorista Arnoldo Saona. "Neste país nós temos petróleo, temos recursos naturais, temos alguns dos lugares mais lindos do mundo, como as Ilhas Galápagos, e mesmo assim há pessoas com tanta fome", disse William Tapia.
"A nova Constituição vai tentar combater essa desigualdade, e aquelas pessoas que votaram pelo 'não' são apenas parte do velho sistema político ou da oligarquia do Equador." Concentração de poder A oposição, derrotada com folga nas eleições do ano passado e agora no referendo, reclama que Correa está agindo ilegalmente. Um dos 57 congressistas afastados no início do ano é o presidente do Partido Democrata Cristão, Carlos Larrategui. Ele admite que os políticos e o Congresso decepcionaram o povo equatoriano. "Nós não somos contrários à mudança. Mas nós sentimos que essas mudanças estão apenas concentrando poder nas mãos do presidente, assim como na Venezuela", afirmou Larrategui. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é um assunto delicado no Equador. Correa não esconde a amizade com seu vizinho radical, mas é rápido em salientar que o Equador tem os seus próprios problemas e deve encontrar as suas próprias soluções. Horas depois de sua vitória no referendo, Correa já estava em Caracas para um encontro com o aliado venezuelano. Muitos analistas vêem semelhanças no que está ocorrendo na Venezuela, na Bolívia e no Equador - uma revisão radical das instituições políticas em um esforço para dar aos pobres e aos marginalizados mais voz no governo de seus países. Os Estados Unidos estão assistindo a esse desenrolar com alguma preocupação. Correa fala em reestruturar a dívida externa do Equador. Ele disse que vai fechar a base militar americana da cidade de Manta, no oeste do país. Investidores potenciais estão nervosos com a instabilidade. Mas a larga vitória no referendo significa que Correa ganhou agora um reforço no seu mandato para executar mudanças fundamentais. Mais voz para os pobres O primeiro passo é convocar uma nova eleição para escolher representantes para a Assembléia Constituinte. O trabalho dessa assembléia será reescrever a Constituição, reformando radicalmente as instituições políticas, o Judiciário e o modo geral como o país é governado. O objetivo será dar mais voz aos pobres, às comunidades indígenas e às mulheres. Eles irão ignorar o atual Congresso e tentar assegurar que as elites econômicas e políticas que sempre comandaram o Equador tenham seu poder e sua influência reduzidos. Não causa surpresa que a oposição não esteja feliz com isso. Há boatos de que milhares de dólares estão sendo retirados do país rumo a contas bancárias no exterior. Apesar do apoio popular, o governo de Correa está bem ciente do enorme desafio que tem nas mãos. O principal conselheiro do presidente, Fernando Bustamente, disse que o futuro do Equador era incerto. "Mas", acrescentou, "o governo simplesmente não pode se dar ao luxo de fracassar. Todos os elementos, todas as divisões estã aí. Se não formos bem-sucedidos, teremos um Estado falido." | NOTÍCIAS RELACIONADAS Presidente do Equador ' deve vencer plebiscito'15 de abril, 2007 | Notícias Equador: Congresso suspende sessões até resolver crise04 de abril, 2007 | Notícias Impasse paralisa Congresso no Equador29 de março, 2007 | Notícias Com segurança reforçada, Equador reabre Congresso21 de março, 2007 | Notícias Crise no Equador se agrava em meio a tensão14 março, 2007 | BBC Report Votos de ex-presidente podem definir Constituinte no Equador13 março, 2007 | BBC Report Em crise, Equador tenta reativar Congresso com suplentes13 março, 2007 | BBC Report Equador aprova plebiscito para Constituinte14 de fevereiro, 2007 | Notícias LINKS EXTERNOS A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo dos links externos indicados. | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||