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Atualizado às: 17 de abril, 2007 - 05h02 GMT (02h02 Brasília)
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Vitória do 'sim' traz novas esperanças e desafios para o Equador

População de origem indígena faz fila para votar no plebiscito do Equador
Cerca de 40% da população do país vive abaixo da linha de pobreza
O Equador é um país cheio de divisões. Divisões entre ricos e pobres, entre o litoral e a serra, entre indígenas e mestiços, entre a cidade e o campo.

Uma das poucas coisas com que todos concordam é a decepção com o sistema político do país.

O Equador atravessou dez anos de turbulência política - oito presidentes em uma década, três deles destituídos do poder por multidões furiosas.

O Congresso ficou fechado por semanas, desde que o governo afastou 57 deputados de oposição.

O presidente Rafael Correa tomou posse em janeiro prometendo mudanças radicais para tirar o país do que ele chama de "buraco de miséria" no qual o Equador afundou.

O referendo realizado no último domingo foi o primeiro passo nesse processo, e teve um resultado melhor do que o próprio Correa poderia ter sonhado.

A sua proposta de formar uma Assembléia Constituinte para reescrever a Constituição ganhou o apoio de 78% dos eleitores - segundo resultados extra-oficiais, com mais de 90% dos votos apurados.

"Meu único objetivo é ajudar a tirar o meu país dessa miséria - da pobreza na qual afundamos, que sempre nos dominou", disse o presidente no discurso em comemoração à vitória do "sim".

Fé perdida

Mas não deveria ser assim. O Equador é o maior produtor mundial de bananas, tem vastas reservas de petróleo e um setor de turismo florescendo.

Mas muita da riqueza está - e sempre esteve - concentrada nas mãos de poucas famílias.

Cerca de 40% da população vive abaixo da linha de pobreza e centenas de milhares de equatorianos deixaram o país em busca de uma vida melhor - a maioria deles em direção aos Estados Unidos e à Espanha.

As pessoas perderam a fé nos políticos e nas instituições políticas.

Na Praça San Francisco, no coração do centro colonial de Quito, as pessoas davam a sua opinião com entusiasmo.

"As antigas constituições que nós tivemos foram manipuladas e controladas pelos partidos políticos", disse a dona de casa Carmen Maurillo.

"Os mesmos partidos de sempre. Essa nova Assembléia Constituinte e a nova Constituição serão do povo. É essa a mudança que nós queremos ver."

"O presidente Rafael Correa está agindo de acordo com a vontade do povo, porque o povo quer mudança", disse o professor universitário Gustavo Pazmiño.

"Durante mais de 30 anos, com o mesmo Congresso e os mesmos congressistas, nós não vimos nenhuma mudança ou melhora. Mas em três meses, esse novo presidente fez as coisas andarem para frente", afirmou o motorista Arnoldo Saona.

"Neste país nós temos petróleo, temos recursos naturais, temos alguns dos lugares mais lindos do mundo, como as Ilhas Galápagos, e mesmo assim há pessoas com tanta fome", disse William Tapia.

O presidente do Equador, Rafael Correa, comemora o resultado do plebiscito
A oposição acusa o presidente Rafael Correa de agir ilegalmente

"A nova Constituição vai tentar combater essa desigualdade, e aquelas pessoas que votaram pelo 'não' são apenas parte do velho sistema político ou da oligarquia do Equador."

Concentração de poder

A oposição, derrotada com folga nas eleições do ano passado e agora no referendo, reclama que Correa está agindo ilegalmente.

Um dos 57 congressistas afastados no início do ano é o presidente do Partido Democrata Cristão, Carlos Larrategui.

Ele admite que os políticos e o Congresso decepcionaram o povo equatoriano.

"Nós não somos contrários à mudança. Mas nós sentimos que essas mudanças estão apenas concentrando poder nas mãos do presidente, assim como na Venezuela", afirmou Larrategui.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é um assunto delicado no Equador.

Correa não esconde a amizade com seu vizinho radical, mas é rápido em salientar que o Equador tem os seus próprios problemas e deve encontrar as suas próprias soluções.

Horas depois de sua vitória no referendo, Correa já estava em Caracas para um encontro com o aliado venezuelano.

Muitos analistas vêem semelhanças no que está ocorrendo na Venezuela, na Bolívia e no Equador - uma revisão radical das instituições políticas em um esforço para dar aos pobres e aos marginalizados mais voz no governo de seus países.

Os Estados Unidos estão assistindo a esse desenrolar com alguma preocupação.

Correa fala em reestruturar a dívida externa do Equador. Ele disse que vai fechar a base militar americana da cidade de Manta, no oeste do país. Investidores potenciais estão nervosos com a instabilidade.

Mas a larga vitória no referendo significa que Correa ganhou agora um reforço no seu mandato para executar mudanças fundamentais.

Mais voz para os pobres

O primeiro passo é convocar uma nova eleição para escolher representantes para a Assembléia Constituinte.

O trabalho dessa assembléia será reescrever a Constituição, reformando radicalmente as instituições políticas, o Judiciário e o modo geral como o país é governado.

O objetivo será dar mais voz aos pobres, às comunidades indígenas e às mulheres.

Eles irão ignorar o atual Congresso e tentar assegurar que as elites econômicas e políticas que sempre comandaram o Equador tenham seu poder e sua influência reduzidos.

Não causa surpresa que a oposição não esteja feliz com isso. Há boatos de que milhares de dólares estão sendo retirados do país rumo a contas bancárias no exterior.

Apesar do apoio popular, o governo de Correa está bem ciente do enorme desafio que tem nas mãos.

O principal conselheiro do presidente, Fernando Bustamente, disse que o futuro do Equador era incerto.

"Mas", acrescentou, "o governo simplesmente não pode se dar ao luxo de fracassar. Todos os elementos, todas as divisões estã aí. Se não formos bem-sucedidos, teremos um Estado falido."

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