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Ivan Lessa: Drásticas medidas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Os britânicos estão em pânico. Acabam de descobrir que é ilegal vender um pint (pouco mais de meio litro) de cerveja de pressão num pub. Tudo isso que eles vêm fazendo há séculos é ilegal. Tempos modernos como Carlitos chegaram. Aqui, no Reino Unido, o mar não vai virar sertão nem o sertão vai virar mar, conforme aconteceu no Brasil. Mas a ilha vai virar continente e o continente vai virar ilha. Minto. O continente continuará na dele. Só a ilha é que tem até 2009 para mudar uma pilha de hábitos e costumes. No pub, nas compras, nas refeições com a família. Papai Noel ficou maluco no Reino Unido! para anunciar a coisa em termos publicitários natalinos. Essa sopa das medidas imperiais vai acabar. Não haverá mais essa história de chegar na venda de “seu” Kumar, logo ali na esquina, e pedir um quarto de queijo – cheddar ou stilton. Vai ter que ser na base do quilo. Ou do grama (ou da grama, conforme se diz nas favelas mais abonadas). Eles chamavam de “medidas imperiais”. Pois eu tenho uma notícia para vocês, gente boa imperial: vossas medidas encheram as medidas do resto do continente. Além do atual primeiro-ministro Tony Blair insistir em não pedir desculpas pela participação do país que supostamente lídera no odioso sistema escravagista, onde lucrou horrores (“O horror! O horror!”, feito adoram citar por aqui e no Brasil também), deixou muito mal informado o povão em matéria de medidas republicanas. Parêntese desculpável e desculposo Vamos dar uma parada aqui, sentar naquele banco de praça e levar dois dedos métricos de prosa sobre a tal da desculpa, antes de voltarmos às devidas medidas. De repente, virou moda pedir desculpa. Bill Clinton pediu desculpa pelas artes que pintou com Monica Lewinsky. O ex-líder sul-africano FW de Klerk pediu desculpas pelo horroroso (“O horror! O horror!”) sistema do “apartheid”. Não há líder de mundo livre ou escravo (escravo no bom sentido) que não tenha pedido desculpa pelo holocausto ocorrido na segunda guerra mundial. Tony Blair disse que a participação da Grã-Bretanha na escravidão foi lamentável. Foi mesmo. Mas “lamentar” não é a mesma coisa que dizer “sorry”. Se até os zagueiros vigorosos e desleais pedem desculpas a Sua Senhoria, o árbitro, e ao adversário por ele sarrafado, por que não pode Tony Blair, neste melancólico apagar das luzes de seu governo, pedir desculpas aos negros do mundo inteiro pelo que seus antepassados andaram fazendo? Se até Brasil e Portugal já pediram desculpas ao Continente Negro, por que esta ilha não pode fazer o mesmo? Como? Portugal e Brasil não pediram desculpas? “O horror! O horror!” Providências imediatas, brava gente brasileira, suaves portugueses meus avozinhos. O império contra-ataca Os ingleses – e generalizo – compram gasolina e açúcar por litro e quilo respectivamente. Empombaram com outras sutilezas, para nós óbvias, do sistema métrico. As tais das libras-peso e as onças que não mordem nem arranham, aquelas de balança, que se abreviam assim: “oz”. Desaforo. E as crianças, coitadinhas, pesadas em pedras, ou “stones”, da mais tenra idade até a velhice. Essas pedras eu nem vou esmiuçar porque além de complicado dá azar. Tem a onça líquida e que não bebe água, tem o galão também. Mas esses 100 ml de sopa vão acabar. É decisão – sábia! – do altíssimo conselho da Comunidade Européia. Comunidade que vai tirar o mês inteiro de fevereiro de 2007 para pedir desculpas a uma porção de gente por uma porção de horrores. “O horror! O…” Etc e pois é. |
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