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Atualizado às: 26 de janeiro, 2006 - 11h07 GMT (09h07 Brasília)
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Análise: Êxito do Hamas cria dilema para os EUA

Candidatos do Hamas
Hamas diz ser possível conciliar política e luta armada
Espalhar democracia no Oriente Médio é um dos ideais da política externa de George W. Bush. E com as eleições parlamentares da quarta-feira, os palestinos provaram que vivem em um dos sistemas políticos mais abertos e competitivos da região. A partir daí, as boas notícias começam a se complicar.

Basta ver qual foi uma das primeiras reações da Casa Branca à votação. O porta-voz do presidente Bush, Scott McClellan, disse que o pleito fora um evento histórico, mas ele reafirmou a hostilidade de Washington ao grupo radical islâmico Hamas, que se cristalizou como uma força eleitoral formidável.

Para os Estados Unidos, governos europeus e, obviamente, Israel, o Hamas é uma organização terrorista, e o ex-presidente Jimmy Carter, que chefiou uma equipe de observadores às eleições palestinas, antecipou a complicação. Ele lembrou que por lei o governo americano não pode negociar com um governo palestino que contenha o Hamas.

O dilema mais abrangente para Washington é como lidar com um grupo que tem legitimidade eleitoral e, ao mesmo tempo, promove atentados suicidas e prega a destruição de Israel?

Em um claro recado ao Hamas, o presidente Bush disse em entrevista publicada nesta quinta-feira ao Wall Street Journal que "nós não vamos tratar com vocês até que vocês renunciem ao seu desejo de destruir Israel".

Armas ou Legislativo

O Hamas também tem seu dilema. Não poderá para sempre tentar reconciliar o irreconciliável, como foi feito na quarta-feira por um dos seus principais líderes. Falando em Gaza, Ismail Haniya afirmou que "americanos e europeus dizem para o Hamas: armas ou Legislativo. Nós dizemos que não há contradição entre os dois".

Claro que há. Na visão mais otimista, o Hamas irá resolver a contradição e se tornar mais pragmático. Se americanos e europeus tiverem habilidade, vão guiar os radicais islâmicos para o caminho do Exército Republicano Irlandês (IRA), que ao longo do tempo rachou entre as facções política e militar, com a primeira pacientemente abafando a segunda. Mas para tal, o Hamas precisará reconhecer o direito de existência de Israel e dar passos efetivos para o seu desarmamento.

Na visão mais pessimista, o Hamas irá viver a contradição às últimas conseqüências: vai aproveitar os espaços institucionais na democracia palestina (como um contrapeso à ineficiência e corrupção do Fatah), mas também manter a luta armada contra Israel. Tal opção claro que é intolerável para americanos, europeus, israelenses e irá resultar no colapso do projeto político de Mahmoud Abbas. E aqui está mais um dilema: o caos palestino tampouco interessa ao governo Bush.

Na falta de opções, Abbas é o interlocutor dos americanos. Mas em Washington e em tantas outras capitais, ele é visto como incapaz de desarmar o Hamas, consumando a conversão da milícia islâmica em partido político que seja fiador de uma nascente democracia palestina.

No cenário mais pessimista, o avanço eleitoral do Hamas poderá dar mais vigor ao grupo para bloquear qualquer sério empenho de negociações de paz com Israel. É um preço quase que intolerável para a democracia. Na entrevista ao Wall Street Journal, o presidente Bush deixou claro que "não há alternativa" à democracia como força estabilizadora a longo prazo.

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