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Atualizado às: 03 de agosto, 2005 - 15h25 GMT (12h25 Brasília)
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Arábicas: Minhas férias no conflito árabe-israelense

Tanque de água perto de Jerusalém
Água esquenta a tensão entre palestinos e israelenses
Passei a última semana de férias relaxando - ou tentanto relaxar - em Israel. Mas descansar em um país onde armas e bombas são lugar comum não é coisa fácil.

Todos os dias acontece algo para lembrar ao viajante atento que nas entranhas daquela sociedade há uma grande luta em curso.

Terça-feira, 26/07

Atravessar a fronteira, da cidade egípcia de Taba para a cidade israelense de Eilat - ambas no litoral do Mar Vermelho - foi para mim fácil e rápido. Minhas malas tiveram de passar pelo raio X, e a guarda na fronteira isralense fez algumas perguntas sobre minha origem e destino, mas em cerca de dez minutos toda a burocracia foi vencida.

Bem diferente para uma família de palestinos que estava na minha frente. Malas da mãe, do pai e dos dois filhos foram minuciosamente checadas e rechecadas, com a família reclamando muito, e a segurança israelense fazendo seu trabalho, indiferente.

"Vocês são robôs ou não têm cerébro. Nós somos uma família voltando para casa de uns dias na praia. Será que vocês não percebem isso?", gritava em inglês a mãe palestina, indignada com o controle a que era submetida para voltar para o que considera o seu país.

Quarta-feira, 27/07

Eilat é unica cidade isralense na costa do Mar Vermelho, espremida entre o Egito e a Jordânia. Cheia de lojinhas e bancas de artesanato, bares e restaurantes de todos os preços, muitos jovens passeando pelas ruas e até uma roda de capoeira, o balneário não é, à primeira vista, essencialmente diferente de Búzios ou Maresias.

A não ser pelas armas. Militares - e em Israel há muitos -, mesmo em folga e com roupas civis, costumam carregar suas armas onde quer que estejam.

Ví um rapaz e uma garota, cerca de 20 anos de idade, passeando pela orla de mãos dadas e cada um com sua metralhadora M16 pendurada nas costas. Empurrando um carrinho de bebê e com outra criança no colo, um pai também não dispensava a pistola exposta na cintura.

Quinta-feira, 28/07

Encostados no lado de fora dos muros da cidade velha de Jerusalém, encontro um grupo de palestinos conversando e tomando vodka com energético. Minha camiseta da Seleção Brasileira provoca perguntas sobre o Brasil, e aceito um copo enquanto conversamos um pouco mais.

À medida que vou me sentindo mais seguro, começo a arriscar algumas perguntas e tentar algumas opiniões sobre o conflito com israelenses. Imediatamente o clima vai ficando mais tenso.

"Não queremos apoio de ninguém: nem dos Estados Unidos nem de outros países árabes. Sabemos muito bem o que temos de fazer, e você não tente me forçar a dizer coisas que não posso", diz um deles. "Suas perguntas estão parecendo coisa da CIA", completa.

Peço licença e me retiro. Além da tensão elevada, percebo que tinha esquecido meu passaporte no hotel e não quero nem pensar nas consqüências se fosse encontrado pela polícia isralense sem identificação e conversando com um grupo de desconhecidos palestinos na noite de Jerusalém.

Sexta-feira, 29/07

News image
Shaka é pouco religioso mas aceitou o convite para orar

Conheci o israelense Shaka em Eilat, e acabamos nos encontrando de novo em Jerusalém. Jovem, pacifista e com um cabelo rastafari que ele cultiva desde que deixou o serviço militar obrigatório (três anos para homens, dois para mulheres), Shaka conversava sem problemas com os palestinos e até ensaiava uma frases árabe com eles.

Quando chegamos ao hotel simples em que ficamos hospedados na parte árabe de Jerusalém, o dono disse, com uma mistura de simpatia e cinismo, que estava feliz em ver um isarelense desarmado. Mas a aparência inofensiva de Shaka não impedia que alguns palestinos o reconhecessem como judeu e olhassem feio para nós.

Saímos caminhando pela cidade, que Shaka também não conhece muito bem - ele mora perto de Telaviv -, e inadvertidamente entramos no caminho da mesquita de Al-Aqsa. Dois soldados israelenses no pararam e disseram a Shaka que era pouco prudente que ele continuasse ali naquele momento.

No caminho de volta para o hotel, ele vê uma placa de mármore branco escrita em hebráico que, ele me explica, fala de um israelense assassinado naquela rua por "bastardos" - palavra da placa, não dele - porque estava no lugar errado na hora errada.

Sábado, 30/07

Com a temperatura acima dos 30 graus, Shaka me convida para conhecer uma fonte de água mineral perto da vila de Ein Rafa, nas montanhas dos arredores de Jerusalém. Trata-se de um pequeno tanque de pedra - coisa de 2,5m por 3m - que recebe água fria de uma fonte.

Nos dias quentes, jovens israelenses vão até ali para conversar, fazer pic-nic e fugir do calor. Era isso que estávamos fazendo quando chegou um palestino, com aparência de cerca de 80 anos de idade e um rebanho de umas duas dúzias de cabras.

O palestino chega gritando e ameaçando atirar pedras nos jovens que estavam se banhando no tanque onde suas cabras bebem água. "Minha avó construiu este tanque para nossos animais e não para estas mulheres que se vestem (em roupas de banho) como se estivessem (na praia) em Eilat", ele gritava.

O motorista palestino que nos levou até lá me disse: "Ele está muito bravo, mas não é uma briga de hoje. Esse já é um problema que passa dos 50 anos".

Domingo, 31/07

Sigo para o aeroporto Ben Gurion para meu vôo de volta ao Cairo. Sair de Israel é bem mais difícil do que entrar: passo uma hora e meia sendo interrogado por jovens seguranças que repetem as mesmas perguntas sobre minha viagem diversas vezes, esperando alguma inconsistência que possa despertar suspeitas.

Não é a primeira vez - nem certamente foi a última - que passo por uma entrevista dessas para entrar ou sair de um país. Mas é impossível não deixar a experiência tenso e com mais uma prova de que viver no meio de um conflito acaba com os nervos de qualquer um.

E o conflito entre israelenses e palestinos é algo que se vê todos os dias, todas as horas, numa viagem pela região.

Os dois povos vivem lado a lado, e a menos que um consiga exterminar completamente o outro (três soquinhos na madeira) eles vão ter que continuar convivendo por muito tempo. Melhor - para eles e para nós em todo o mundo - que consigam.

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