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Arábicas: Quem quer comprar o novo dinar iraquiano? | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Você acredita que o Iraque está no caminho da democracia e do desenvolvimento e que daqui a alguns anos o país vai se tornar de novo uma grande potência do Oriente Médio? Diversos sites americanos na internet estão atrás de gente que responda um sonoro sim à pergunta e esteja disposto a colocar o próprio dinheiro nessa aposta. “Você compra agora 2 milhões de dinares iraquianos por US$ 2,1 mil, mostra de vez em quando para um amigo e esconde num armário. Daqui a alguns anos, quando o Iraque for de novo uma nação próspera e o dinar recuperar o valor de antes da primeira guerra do Golfo, você pode ter US$ 6 milhões guardados”, sugere um destes sites. Estas empresas dizem que depois que o cliente faz seu pagamento em dólares, notas novinhas em folha são enviadas do Iraque para qualquer endereço nos Estados Unidos. Problemas O novo dinar iraquiano foi lançado em outubro de 2003, em substituição ao dinheiro antigo, que trazia estampada a efígie de Saddam Hussein em todas as notas. De fato, uma consequência da estabilização e do desenvolvimento iraquianos – se eles de fato vierem – seria uma valorização dramática da nova moeda. Como os brasileiros estão cansados de saber, de modo geral problemas jogam a moeda para baixo e soluções fazem com que ela recupere seu valor. Quem, no fim da 2ª Guerra Mundial, apostou que Alemanha e Japão estariam recuperados em algumas décadas se deu muito bem. Mas investir em moeda – qualquer moeda, em qualquer situação – é um jogo arriscado que pode trazer ganhos e perdas rápidos e imprevisíveis. Loteria Em uma economia com tantas variáveis em aberto, como a do Iraque, o risco fica infinitamente multiplicado. Isso sem contar a loteria de encontrar um site na internet (em geral são operações pequenas, não ligadas a grandes corretoras) que de fato vá entregar o que prometeu na casa do cliente. Quando fui ao Iraque em abril de 2003, o dólar valia 3.500 dinares iraquianos – aqueles ainda com o rosto de Saddan Hussein – para a troca no mercado paralelo das ruas do Centro de Bagdá. À beira das estradas, crianças ficavam acenando com maços de notas de baixo valor para trocar com estrangeiros por dólares. Mas esta troca não seguia a cotação semi-oficial do doleiros. Qualquer uma das notas custava um dólar: era a troca de um papelzinho colorido com o rosto de Saddam Hussein por um papelzinho verde com o rosto de George Washington. Perspectivas Hoje não é só na Internet e por empresas americanas que os negócios com os novos dinares estão sendo feitos. “Motivados pela perspectiva de lucro, pequenos investidores paquistaneses e mesmo pessoas comuns estão invadindo casas de câmbio para comprar o novo dinar iraquiano, na esperança de colher grandes ganhos, que poderiam acontecer quando a situação naquele país, riquíssimo em petróleo, se estabilizar”, relatou em uma nota, do início de 2004, a Agência da ONU para Assuntos Humanitários. Para os paquistaneses, o novo dinar iraquiano ainda pode ser negociado mais facilmente no país deles, o que reduz um pouco o risco e aumenta a utilidade imediata da moeda. Mas para os americanos que compraram os dinares pela internet, as notas – pelo menos por enquanto - não passam de papéis coloridos para exibir para amigos e guardar debaixo do colchão. É certo que, no mínimo, vai demorar até que casas de câmbio americanas destroquem estes dinares coloridos pelas cobiçadas verdinhas. |
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