|
Argentina descarta acordo com Brasil sobre reforma da ONU | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O embaixador da Argentina na Organização das Nações Unidas (ONU), César Mayoral, disse não acreditar que seja possível obter um acordo entre o Grupo dos Quatro (G-4), formado pelo Brasil, Alemanha, Índia e Japão, e a União para o Consenso, liderada pela Argentina e o Paquistão, sobre a reforma do Conselho de Segurança (CS) até o próximo dia 21, como pretende o presidente da Assembléia Geral, Jean Ping. Em entrevista à BBC Brasil, Mayoral acrescentou que considera “perigosa” a possibilidade do G-4 apresentar à Assembléia Geral uma resolução que acrescente seis novos membros permanentes ao CS, porque isso aprofundaria os conflitos em várias regiões. A seguir, os principais trechos da entrevista. BBC Brasil - O senhor acredita que seja possível um acordo entre o G-4 e a União para o Consenso até o próximo dia 21 de junho, como deseja o presidente da Assembléia Geral? César Mayoral - Não creio. Não haverá consenso antes do dia 21. Creio que o Grupo dos Quatro, se está decidido a ir adiante, vai seguir (apresentando sua resolução). Ainda que isso seja ruim para o interesse das Nações Unidas. BBC Brasil – Por que isso seria ruim para a ONU? Mayoral - Isso seria lamentável porque dividiria as Nações Unidas. Há uma grande diferença de poder entre alguns países, e há uma grande potência mundial (os Estados Unidos). Então, para que haja uma possibilidade de discutir, de ter um mecanismo de discussão multilateral, não deve haver divisão por parte dos países menores. Esperemos que o G-4 não se apresse. BBC Brasil – Mas e se o G-4 de fato colocar sua proposta para a criação de seis novos membros para o CS até o final do mês? Mayoral – Isso colocaria o mundo numa situação muito tensa e perigosa. Por exemplo, para um país como Uruguai ou Paraguai, votar a favor ou contra o Brasil ou a Argentina é um grande problema. Eles sabem que um voto a favor ou contra vai lhe trazer consequências em esferas de outro tipo. Por isso penso que é muito mal ir à votação. Isso é mal não apenas para nós próprios, mas para os países que têm um relação muito estreita com ambos (Argentina e Brasil) e se encontram em posições muito difíceis. Esta votação não vai passar despercebida e vai criar problemas não só para a América Latina, onde graças a Deus nossos países perderam essas idéias belicosas. Mas o que pode acontecer entre a Índia e Paquistão, China e Japão? As Nações Unidas foram criadas para manter a paz e a segurança. O que menos tem que se fazer é provocar conflito que acrescente ainda mais o perigo de guerra. BBC Brasil – O senhor acredita que o G-4 teria os 128 votos necessários para a primeira rodada de votação na Assembléia Geral? Mayoral - Sinceramente, penso que não. Mas você tem que perguntar a eles. BBC Brasil – Eles têm dito que sim. Além da Argentina e do México, quem mais na América Latina e Caribe se opõe à vaga permanente para o Brasil? Mayoral - Colômbia, Costa Rica, e Trinidad e Tobago. Existem países que estão muito indecisos, como Nicarágua e Peru. BBC Brasil – Como o senhor justifica a posição argentina, de se opor à candidatura brasileira? Mayoral - Essa não é uma posição nova e nem minha. Esta é uma posição de princípio, que a Argentina tem tido desde 1946, no sentido de que nunca foi a favor da existência de membros permanentes no Conselho. A Argentina sempre foi a favor de que os membros do Conselho sejam eleitos pelo conjunto de suas regiões ou o conjunto da Assembléia (Geral). Nunca fomos a favor de membros permanentes, o que nos parece um privilégio, além do segundo privilégio que é o (direito de) veto. Mas como a Argentina foi chamada à ONU depois da primeira reunião que tiveram os três vencedores da Segunda Guerra – Estados Unidos, Grã-Bretanha e naquela época a União Soviética – não pôde, na discussão, derrubar a posição desses membros. Mas em 1946 a Argentina absteve-se de votar sobre a criação de membros permanentes. Por que deve haver Estados que sejam membros permanentes e outros não? Essa é a minha pergunta. Porque para que hoje existam membros permanentes foi preciso uma guerra, ganha por alguns. E sempre que se discutiu a reforma do Conselho, temos sido a favor de que haja mais membros no Conselho, mas que eles sejam eleitos e possam, também, ser reeleitos. Que possam ser permanentes através do voto. BBC Brasil – O Brasil tem justificado sua candidatura como um direito pelo fato de ser a maior e mais populosa potência da América Latina e Caribe. Mayoral - O Brasil é um grande país, que tem um grande destino, que deverá ser uma potência mundial – se já não é. Mas o fato de que seja um grande país e poderoso não significa que tenha que ter um privilégio para sempre. Hoje é assim e esperamos que seja sempre, mas se algum dia não for assim, ou se houver outro país que seja mais poderoso, que seja eleito. Me parece que não há nenhuma atitude contra o Brasil. Ao contrário, eu creio que o destino da Argentina está unido ao do Brasil. A Argentina vai ser maior, mais poderosa, mais rica e mais respeitada se for junto com o Brasil. Mas isso não quer dizer que nós, como argentinos, acreditamos que tenha que haver novos membros permanentes. Argentina e Brasil têm um destino comum e um destino de grandeza. Mas para isso não temos que brigar. Essa discussão não é contra o Brasil. A Argentina não briga com o Brasil. O que a Argentina pretende é que as Nações Unidas sejam um sistema multilateral adequado à realidade geográfica, política, cultural, populacional e econômica dos países. BBC Brasil – O senhor acredita que seja possível um acordo sobre a reforma do CS até setembro, como deseja o secretário-geral da ONU, Kofi Annan? Mayoral - Não vai acontecer nada até lá. Os chefes de Estado viriam em setembro para assinar esta reforma. Mas se a reforma não estiver pronta, não sei porque eles viriam. Mas vai chegar um dia em que teremos que negociar. Mas isto depende mais do G-4 do que de nós. Porque nós queremos buscar uma fórmula de consenso. Mas se o G-4 não pode modificar sua postura de ser membro permanente, então não temos o que negociar. |
| |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||