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Irmãos: grandes e pequenos | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Derek Laud, de 40 anos, é negro e, de seu currículo, dois fatos se destacam: como assessor político escreveu discurso para a ex-primeira-ministra Margaret Thatcher; em sua vida particular é o único “master of the hounds” de sua cor em toda a Grã-Bretanha – ou seja, na caça à raposa, veste, garboso, calça justa de flanela branca e casaca vermelha, e lidera os cães atrás da pobre presa. Roberto, 32 anos, destituído de sobrenome, se acha lindo e pode provar mostrando o diploma de finalista num programa de televisão italiano destinado a encontrar o homem mais bonito do país. Kemal, turco cipriota, 19 anos, adora Elvis Presley, dança do ventre e sexo. Anthony, 23 anos, é escocês, trabalha como bailarino especializado em danças dos anos 70 e prefere ser conhecido como “Chico from Puerto Rico”. E o desfile continua com mais nove aves bizarras. Estou me referindo, claro, à mais recente edição do programa Big Brother, sua sexta versão, que está sendo e continuará a ser transmitido pelo resto do verão pelo Channel 4, cansado de fazer sucesso com a fórmula. Realidade? Assim como Derek, Kemal e Roberto, boto meus documentos na mesa: não estou acompanhando o programa. Armado de controle remoto, zapeando distraído, às vezes caio no raio da casa onde estão os 13, agora, aliás, reduzidos para 12, já que ocorreu a primeira expulsão: Maria, feiticeira e psíquica que afirmava que sua família fora seqüestrada sete vezes por alienígenas. Caio na casa e dela logo chispo, uma vez que cismei que, além de idiota, esse troço dá azar. A culpa deve ser minha, mas nunca consegui me interessar por qualquer tipo de reality show, como o chamam. Deve ser o simples nome, a apropriação indevida da palavra “realidade”, com a qual vivo em luta perene. Não creio que nada de real possa acontecer às celebridades de 25ª categoria em ilha ou floresta tropical. A realidade, como diz o povão, fica mais embaixo. A realidade talvez seja votar “sim” ou “não” nos referendos sobre a Constituição da União Européia. A realidade talvez seja ouvir rock no parque e depois marchar para a Escócia protestar contra a reunião dos países ricos. Com um imaginário controle remoto na mão, zapeando por essas bandas de roqueiros, paro e chego à terrível conclusão: não, dá tudo na mesma - Big Brother ou G-8 é a mesma palhaçada. |
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