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Atualizado às: 30 de maio, 2005 - 10h04 GMT (07h04 Brasília)
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O natural e o artificial
Ivan Lessa
Estou na Grã-Bretanha há 27 anos e 4 meses.

Há 27 anos e 3 meses que me fazem a seguinte pergunta: “De que é que você mais sente falta do Brasil?”. Minha resposta varia de acordo com meus humores e diversos fatores imponderáveis.

Na verdade, mas verdade mesmo, eu sinto falta de 1957. Mas isso eu digo agora, em maio de 2005. Amanhã, posso mudar de idéia. Há muita, mas muita coisa mesmo, a se sentir falta do Brasil. Mesmo – e eu friso – no Brasil. Isso é outro papo.

Na maior parte das vezes, eu digo que o que mais sinto falta do Brasil é pastel de queijo e caldo de cana. E não estou mentindo.

Outros dias, entupido com pastel e caldo de cana, digo – sem mentir – que o que mais sinto falta é xarope de groselha. Daqueles bem artificiais, que só os botequins mais vagabundos, feito eu, têm em estoque.

Ora, muito bem. Sabedora disso, de minha paixão por xarope de groselha, uma pessoa querida deu-se ao trabalho – e trabalho a outra boa alma que trouxe a encomenda – de me enviar uma garrafa com 700 ml (700!) de xarope de groselha.

Garrafa que, por sua vez, me permitirá fazer em casa, na cozinha, escondido, pelo menos 8 litros da bebida que poderia ter me levado aos Groselheiros Anônimos. Já experimentei e tomarei em doses de conta-gotas.

Um probleminha com a cor do refresco: é da cor de chá e não aquele escândalo lisérgico em vermelho.

Não quero desfazer de tão carinhoso presente, mas, lendo e relendo o rótulo, como se fosse a carta apaixonada de uma amante, notei que o conteúdo especificava ter sido o xarope – que eles insistem em chamar de natural – preparado (eles dizem, pombas! “elaborado”) com “groselha importada” e, para deixar bem claro, com esta frase cercada por uma bandeirinha da França.

Isto me parece um contra-senso, um absurdo. Não haverá, na cidade no interior de São Paulo, de onde se origina o simpático produto, um químico sem diploma que, no fundo de uma garagem, entre a preparação de alguma droga ilegalíssima, não possa nos brindar com um xaropezinho bem artificial?

O gosto é uma delícia. Mas quem bebe gosto em xarope de groselha? O negócio é a cor. É com a cor que nós, garotos, nos acostumamos a nos embriagar, nela nos viciamos.

Em todo caso… Viva o xarope de groselha! Mesmo sendo francês e natural.

66Arquivo - Ivan
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