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Candidatura do Brasil à OMC dividiu sul-americanos | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Um dos motivos apontados como justificativa para a escalada da tensão diplomática entre Brasil e Argentina é a estratégia brasileira em questões internacionais, considerada “afobada” pelas autoridades argentinas. Os principais casos citados como exemplo pelos argentinos são a campanha do Brasil por uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, a interferência na crise do Equador e a candidatura brasileira para a direção da OMC (Organização Mundial do Comércio). Para Julio Nogues, professor de políticas e instituições de comércio internacional da Universidade Torcuato Di Tella, ao defender candidato próprio à OMC, o Brasil reduziu o prestígio do candidato uruguaio. “Essa estratégia não somou, só dividiu. E pior para a região será ter o europeu Pascal Lamy na OMC”, afirma Nogues. Membros da União Industrial Argentina (UIA) chegam a dizer que a “investida” brasileira poderá provocar o “isolamento” da estratégia de política exterior do Brasil. “Sócio que quer tudo para ele, não vai ter apoio tão fácil dos vizinhos quando precisar”, afirmou à BBC Brasil um alto representante do governo argentino. ‘Erro’ objetivo Na última segunda-feira, em Washington, o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Rafael Bielsa, também citou a disputa pela direção da OMC como um ponto de divergência entre brasileiros e argentinos. O chanceler argentino lembrou que seu país já tinha prometido apoio ao candidato uruguaio Carlos Perez del Castillo seis meses antes do lançamento da candidatura do embaixador brasileiro Luiz Felipe de Seixas Corrêa. De acordo com Bielsa, a “realidade” mostrou que a candidatura brasileira foi um “erro objetivo” porque dividiu o voto regional e acabou com a eliminação de Seixas Corrêa da disputa. Na opinião de Miguel Serna, professor das faculdades de ciências políticas e econômicas da Universidade de la República, no Uruguai, a posição do Brasil no episódio foi um sinal concreto da falta de união política entre os parceiros do Mercosul. “Quando os interesses de um país são colocados acima dos interesses do bloco, ocorrem essas coisas. E isso não ajuda o conjunto”, afirma Serna. ‘Episódio grave’ Para o cientista político José Augusto Guilhon Albuquerque, coordenador do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais da USP, o governo brasileiro tem confundido liderança com demonstração de força. “A diplomacia brasileira e a Presidência da República têm se comportado como líderes incontestes e absolutos na América do Sul, agindo de uma forma muitas vezes precipitada e com grande exibição de força em várias ocasiões”, diz Guilhon. “O espetáculo do Brasil se opondo à candidatura de um país do Mercosul e votando contra todos os outros países latino-americanos na OMC é um episódio grave do ponto de vista da unidade e da cooperação no continente”, acrescenta. De acordo com o professor da USP, o “improviso” de algumas medidas adotadas pelo Brasil surte um efeito negativo e, ao invés de consolidar a liderança brasileira que já existe na região, ajuda a isolar o país dos seus vizinhos. Nos últimos dias, até a nomeação no Brasil de Murilo Portugal para o cargo de secretário-executivo do Ministério da Fazenda foi motivo de críticas na Argentina. Aos jornais locais, fontes do governo Kirchner afirmaram que Portugal não defendeu a Argentina nas negociações com o FMI e, portanto, não caiu bem sua presença como braço direito do ministro Antonio Palocci. Os argentinos temem que a nomeação acabe dificultando ainda mais a relação econômica e comercial entre os dois países. * colaborou Denize Bacoccina, de Washington |
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