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Atualizado às: 03 de maio, 2005 - 15h49 GMT (12h49 Brasília)
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Irã confisca fitas de documentário da BBC sobre programa nuclear
O repórter da BBC Paul Kenyon no Irã
Os EUA não têm provas sólidas contra o programa nuclear do Irã
A BBC exibe nesta terça-feira, na Grã-Bretanha, documentário sobre programa nuclear do Irã.

Nele, os jornalistas Paul Kenyon e Olly Bootle falam do programa e mostram as dificuldades que enfrentaram, incluindo confisco de fitas de vídeo e ameaças de prisão pelo serviço secreto do país, apesar de terem recebido autorização do governo iraniano para viajar ao país e fazer o documentário.

Leia o texto escrito pelo jornalista Olly Bootle:

"Três meses atrás o repórter da BBC Paul Kenyon e eu recebemos vistos para ir ao Irã.

Depois de muita negociação, a Organização de Energia Atômica do Irã concordou em nos ajudar a fazer um documentário sobre o estado de seu programa nuclear.

Com as crescentes ameaças dos Estados Unidos e de Israel e com a janela da diplomacia européia aos poucos se fechando, os iranianos quiseram contar o outro lado da história.

Essa história é simples: eles têm um programa de energia nuclear pacífico e, de acordo com o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, eles têm o "direito inalienável" de desenvolver e usar tecnologia nuclear para fins pacíficos.

A história dos americanos também é simples, como nos contou Stephen Rademaker, sub-secretário de Controle de Armas do Departamento de Estado: "Achamos que não dúvidas de que o Irã embarcou em um projeto de adquirir armas nucleares".

Segredo

A suspeita dos americanos, compartilhada por muitos países do Ocidente, dá-se pelo fato de que, por 18 anos, o Irã desenvolveu um programa nuclear que manteve escondido do resto do mundo, obtendo recursos no mercado negro e construindo instalações subterrâneas.

Foi apenas há alguns anos atrás que a comunidade internacional descobriu a extensão do programa nuclear iraniano, quando um grupo da oposição no país revelou o segredo.

Ali Akbar Salehi, ex-embaixador do Irã na Agência Nuclear da ONU (AIEA), disse que o programa foi mantido sob segredo "por causa das sanções" – sanções impostas pelos Estados Unidos há mais de duas décadas.

O problema dos americanos, no entanto, é que não há evidências sólidas de que os iranianos têm um programa nuclear militar.

E, ao contrário da Coréia do Norte, o Irã ainda é membro do Tratado de Não-Proliferação Nuclear e da AIEA. Os inspetores nucleares viajam para lá todo mês para verificar se o país não está fazendo algo proibido.

Confisco

Em fevereiro, viajamos com eles para lá. A chamada transparência não foi exatamente o que esperávamos.

Nem os países do Ocidente nem os iranianos parecem ceder
Os repórteres da BBC Paul Kenyon (direita) e Olly Bootle no Irã

Fomos informados que não poderíamos acompanhar os inspetores dentro das instalações nucleares por questões de segurança.

Mas Gholamreza Aghazadeh, presidente da Organização de Energia Atômica do Irã – que é também o vice-presidente do país – nos deu a permissão para filmar o lado externo das instalações.

No Irã, contudo, as coisas nunca são tão simples.

No fim da nossa viagem, estávamos sendo seguidos por agentes do serviço secreto iraniano. Fomos informados que seríamos presos se nos aproximássemos de certas instalações e tivemos que parar de andar de carro com os inspetores.

Apesar dos nossos vistos de jornalista, uma carta de autorização para filmar e permissão do vice-presidente do país, o serviço de inteligência nos deteve quando estávamos saindo do país e confiscou mais de metade das nossas fitas.

Divisão

Enquanto isso pode sugerir que eles têm algo a esconder, qualquer um que conhece o Irã diz que esse é um país dividido.

Os reformistas buscam reconciliação com o Ocidente e, então, nos deixaram entrar no país. Já os conservadores estão felizes em serem vistos com desconfiança no exterior porque isso incentiva o nacionalismo que consolida sua base de poder doméstica.

Mas a história nuclear do Irã chegou a um capítulo decisivo.

Os iranianos concordaram em suspender temporariamente o seu programa nuclear. Quando perguntamos a Salehi se essa suspensão poderia se tornar permanente ele respondeu: "Não... essas são as linhas vermelhas desenhadas pelo Líder Supremo (Ali Khamenei)".

O Ocidente, por outro lado, diz que o país não pode ter um programa de enriquecimento de urânio porque aproxima o Irã da capacidade de ter uma arma nuclear.

Nenhum dos lados parece ceder.

A única coisa que impede o Irã de recomeçar seu programa nuclear é o fato de que os europeus estão buscando uma solução diplomática.

Mas com a Europa agora concordando com os Estados Unidos e com o Irã dizendo que não vão permitir que a suspensão seja feita por mais do que alguns meses, é difícil de ver como essa equação pode ser resolvida sem a visita ao Conselho de Segurança."

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