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Diplomacia americana entra em fase de concessões táticas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
George W. Bush está cumprindo em política externa o que prometeu para este começo de segundo mandato. O presidente americano está investindo na diplomacia, consultando mais os aliados e escutando. Há uma percepção mais sofisticada das nuances das relações internacionais, uma preocupação em não se vangloriar das vitórias (como o aquecimento de uma marcha da democracia no Oriente Médio) e um reconhecimento da necessidade de concessões táticas. Por exemplo, na sua edição de quinta-feira, o jornal New York Times revela que o governo Bush estaria alterando com relutância a maneira de lidar com o grupo xiita libanês Hezbollah. Após anos de campanha contra uma organização definida por Washington como "terrorista", a Casa Branca parece aceitar a visão da França e das Nações Unidas para conduzir o Hezbollah para o centro institucional da vida política libanesa. Prioridade A manifestação-gigante pró-Síria promovida pelo Hezbollah esta semana em Beirute – maior do que os protestos de oposição – comprovou o peso do grupo, o mais organizado no cenário libanês. A idéia, portanto, seria antagonizar menos o Hezbollah, no momento, em nome do objetivo prioritário dos americanos no Líbano, que é forçar a retirada das tropas sírias do pais. Obviamente não está na agenda de Bush a idéia de reconhecer ou legitimar o Hezbollah, e o porta-voz da Casa Branca inclusive negou a versão do New York Times. Mas existe o empenho para tentar minimizar a desconfiança que a minoria xiita no Líbano nutre em relação aos gestos de solidariedade dos EUA à chamada "revolução dos cedros". Existe a constatação em Washington de que uma marcha pela democracia no Oriente Médio é tortuosa e que não convém a desestabilização do Líbano, onde o Hezbollah é uma força indiscutível. Incentivos Lances mais sutis do governo Bush também são patentes na crise nuclear do Irã. Bush tenta pela primeira vez arquitetar uma estratégia conjunta com os europeus. Como parte do plano, Washington insiste em um prazo – talvez junho – para que os negociadores de França, Alemanha e Grã-Bretanha convençam o governo iraniano a abrir mão do enriquecimento de urânio e outras atividades que possam levar à produção de armas nucleares. Em uma reversão de posições anteriores, os americanos até topariam oferecer alguns incentivos e não apenas ameaças para o Irã abrir mão do seu programa nuclear. Mas se as negociações falharem – como é a expectativa da Casa Branca – haveria um firme compromisso dos europeus de se mobilizarem pela aprovação de sanções da ONU contra Teerã. Concessões táticas não significam o abandono de objetivos estratégicos ou da visão de mundo de Bush. Cadência Alianças multilaterais valem quando convém aos EUA e segue valendo uma "postura muscular" no jogo político. E concessões táticas também são feitas à direita do presidente. A diplomacia com Condoleezza Rice já se revelou mais cadenciada, realista e efetiva. A secretária de Estado se cercou de assessores conhecidos por um desempenho duro, porém, pragmático. Aos neoconservadores mais intransigentes restaram prêmios de consolação, como a indicação de John Bolton para ser o novo embaixador dos EUA na ONU. Bolton é conhecido por seu desprezo pelo sistema multilateral. Setores mais liberais receberam com desalento o nome de Bolton, mas é difícil imaginar que seu papel será simplesmente desacreditar a ONU. Ele não estaria chegando para destruir, mas para pressionar com vigor pela reforma da casa. Afinal, a administração Bush está em fase de reengenharia diplomática. |
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