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Atualizado às: 07 de março, 2005 - 19h34 GMT (16h34 Brasília)
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Entenda a oferta de renúncia do presidente da Bolívia
Protesto na Bolívia
Protestos pressionaram Mesa a pensar em renúncia
Um ano e meio depois que violentos protestos levaram o presidente da Bolívia, Gonzalo Sánchez de Lozada, a deixar o cargo, seu sucessor, Carlos Mesa, também diz que não agüenta mais protestos e deseja se afastar do governo.

Entenda a instabilidade política e social da Bolívia.

Por que o presidente Mesa ofereceu a renúncia?

O presidente Mesa vem lutando para controlar o clima de tensão crescente no país. Apesar de seu passado político conservador, Mesa vem sido forçado a ouvir as exigências de movimentos sociais de inspiração esquerdista, que demonstraram seu poder quando levaram seu antecessor, Gonzalo Sánchez de Lozada, a deixar o poder em outubro de 2003.

Nas últimas semanas, Mesa curvou-se a exigências para cancelar o contrato com uma empresa fornecedora de água de propriedade francesa na cidade de El Alto e recuou parcialmente sua política de aumentar os preços dos combustíveis depois de protestos em várias partes do país. O presidente também acabou atendendo a exigências da elite na província de Santa Cruz, no sudeste do país, de realizar um plebiscito sobre a autonomia da região, rica em petróleo.

Agora, diante de uma escalada de protestos que têm o objetivo de fazer com que empresas internacionais de energia paguem tarifas muito mais altas para explorar reservas de gás natural do país, Mesa diz que não quer mais estar à mercê de manifestantes.

Este é, de fato, o fim do governo Mesa?

Embora repentina, a disposição de Mesa de renunciar não surpreende muitos analistas que acreditavam que ele não conseguiria se manter no poder com toda a gama de exigências apresentadas a ele.

Mas o presidente boliviano mantém apoio significativo entre bolivianos que valorizam sua posição como político independente que tenta conduzir o país em um clima político difícil. Horas depois de haver anunciado que deixaria o poder, milhares de bolivianos se concentraram em várias cidades para pedir que ele continue no governo.

Isto pode levar o Congresso a rejeitar a renúncia de Mesa. A aprovação por parte do Congresso é exigida pela Constituição da Bolívia antes que ela possa ser concretizada.

Os opositores do presidente, tanto da esquerda quanto da direita, acusam-no de usar a ameaça para renunciar em uma estratégia para consolidar seu poder.

Quem substituiria Mesa?

Na falta de um vice-presidente, a Constituição prevê que Mesa seja substituído pelo presidente do Senado, Hormando Vaca Diez. Ele havia pedido ao presidente para "começar a governar" - o que foi amplamente interpretado como um pedido para que o presidente revisse sua decisão anterior de não usar de força para reprimir os protestos.

Caso aceite a renúncia de Mesa, o Congresso deve decidir se Vaca Diez fica no poder até o fim do mandato presidencial ou por menos tempo, até que se convoque novas eleições.

Em longo prazo, analistas sugerem que a renúncia do presidente pode levar Evo Morales, líder do Movimiento al Socialismo (MAS), a conquistar mais poder em negociações políticas, já que o MAS é a segunda maior força no Congresso boliviano.

O partido de Morales conquistou 19% dos votos em eleições municipais recentes, mas ele continua sendo uma figura polêmica e impopular entre a classe média boliviana, a elite empresarial e o governo americano. Sua possível chegada ao poder não implicaria no fim da instabilidade no país.

Qual a origem dos distúrbios na Bolívia?

A Bolívia se tornou democrática em 1982, depois de décadas de instabilidade política e repetidos golpes militares. Mas durante este período aumentaram as desigualdades sociais e não houve redução de pobreza.

Isto levou a uma radicalização da maioria indígena empobrecida do país, que sentiu que a economia era conduzida para beneficiar a elite endinheirada.

Este sentimento de exclusão econômica, associado à hostilidade à idéia de abrir mão do controle das reservas nacionais de gás natural, levaram a uma situação socialmente explosiva.

Nos últimos anos, movimentos sociais do centro da maioria indígena tornaram-se mais ousados depois de haverem obtido várias vitórias - inclusive em uma campanha para forçar um consórcio privado para o fornecimento de água na cidade de Cochabamba e, naturalmente, a derrubada do presidente Sánchez de Lozada, na luta sobre o gás natural.

O nacionalismo também desempenhou um papel no quadro boliviano. Um plano para exportar gás natural através do gasoduto que atravessa o tradicional inimigo da Bolívia, o Chile, estimulou a realização de uma campanha. Os bolivianos também vêem com profunda desconfiança planos para "vender" recursos do país para empresas estrangeiras.

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