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Atualizado às: 23 de fevereiro, 2005 - 11h53 GMT (08h53 Brasília)
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Desdenho industrial
Ivan Lessa
Já me acostumei a olhar no espelho e constatar que mudei. Envelheço a olhos vistos. Meu consolo é que olho em torno – os outros e as cidades; o mundo, enfim – e percebo que o mesmo se aplica a eles.

Londres, onde moro, mudou. O Rio, onde morei, mudou também. Nos filmes, na televisão, na internet, constato que nem nada nem ninguém são mais aquilo ou aqueles que eu conheci.

Conclusão simples, simplória: o mundo não pára quieto, é destino dele, dos que o habitam, mudarem o tempo todo. É o progresso – não necessariamente em ordem, conforme apregoam as bandeiras.

Também podemos concluir que estamos todos marchando para o fim dos dias. E que o Senhor se apiede de nós.

'Coisa de velho'

Para aguentar a barra ontológica, procuro me deter em miudezas. Reclamo animadamente das inanimações que me cercam. Coisa de velho.

Os filmes estão cada vez piores, já não se fazem mais xarope de groselha como antigamente. Aquele papo.

Na lista de ranzinzices, bem no alto, está o desenho industrial. Vivo me perguntando: por que é que mudaram essa e aquela outra embalagem? Que fim levou o guaraná em garrafa de vidro? Cadê os caramelos Busi? E a palhinha de palhinha mesmo, rachando o tempo todo?

De tolices assim somos feitos, desta forma vivemos nossas vidas, chegaremos a nosso fim.

Aqui em Londres, há pouco, o Conselho de Desenho Industrial enumerou as dez melhores bolações de todos os tempos. Aquelas que não sofreram as mazelas do aperfeiçoamento.

Entre elas estão o mapa do metrô de Londres, o clipe (de metal, nunca de plástico), a camisinha e, lá em cima, a caneta esferográfica Bic. É, tem de ser Bic, inventada pelo húngaro Lazlo Biro, nos anos 30 do século passado.

A baratíssima e onipresente Bic já foi, no entanto, aquilo que hoje chamam de "objeto de desejo". Isso lá pelos anos 40. Eu cheguei a pensar em pedir a Papai Noel uma Birome de presente de Natal, conforme se chamava em sua primeira encarnação. Birome era um luxo encapado em dourado que, inclusive – vejam só! –, não vazava nas viagens de avião.

Depois, a caneta, como tudo mais, vulgarizou-se, barateou-se, perdeu a imagem de ícone, mas ganhou a preferência internacional.

O que me cheira a slogan de outro produto, este possivelmente de desinteressante desenho industrial.

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