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A falta que a banha nos faz | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
– Fala, Banha Rosa! Era o insulto invariável que nos vinha à boca para ferir aquele menino gordinho que não estava – coitado – fazendo nada, em geral na ponta esquerda da pelada na praia. Banha Rosa era uma marca popular do produto lá por meados do século passado. Banha. E ainda mais de porco. Bleargh! Tudo a ver com banha sempre me repugnou. Estou vendo umas imensas latas de outra marca de banha, a Carioca (azul, com palmeiras), cheias de um líquido incolor e oleoso, equilibradas na cabeça das pobres daquelas mulheres que, quando faltava água, começavam a dolorosa subida para o morro com o que, para elas e família, possivelmente constituía o precioso líquido. Banha, em suma, era uma coisa de garoto desajeitado e gente pobre. Nada a ver comigo, residente de um belo apartamento de décimo andar na avenida Atlântica, bem em frente do mar. Na minha casa, isto era óbvio, nunca entrara a maldita da tal banha. Era, pelo menos, o que eu preferia acreditar. Até hoje peço o obséquio de não me informarem que eu não podia estar mais enganado. Nunca entendi nada de cozinha. Tal como hoje, só sei me sentar à mesa e esperar ser servido. Na cozinha, no máximo abrir a geladeira para pegar um refrigerante. Mais: banha, para mim, era coisa de brasileiro. Puro subdesenvolvimento. De ilusões sou feito, assim pretendia continuar. Chocado, abro os jornais britânicos e lá vejo, em notícias de cinco colunas, com fotos, reportagens sobre a crise da banha que ameaça o país neste Natal. Quer dizer, vai faltar banha. Banha para fazerem todos aqueles bolos e sobremesas de Natal que, em mais de 30 anos, me acostumei a apreciar. Era tudo enganação. Banhas Rosa e Carioca em cima de mim. Perseguindo-me para eu deixar de ser besta. Tentarei. Ou então, como uma criancinha africana dependendo de roqueiro britânico, emagrecerei, definharei e, finalmente, morrerei. |
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