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Lição das urnas | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
De vez em quando, no Brasil, eles deixavam (minto, obrigavam) a turma a votar. Não foram muitas, muitas vezes. Entre os 15 anos de ditadura de Getúlio Vargas e os 20 da militar, foram poucas, muito poucas eleições. Algumas, cá entre nós, fajutíssimas. Ao que parece, pegamos o jeito técnico da coisa e a votação eletrônica é de fazer americano babar de inveja. Quem e para que elegemos é absolutamente secundário. O importante é cumprir o dever – e botemos dever nisso – cívico. Juntamente com o escrutínio, a cabine indevassável, os fiscais dos partidos, os cabos eleitorais, os votos de cabresto e dezenas de outras curiosidades típicas de nossa civilização tropical, uma outra instituição sempre me fascinou: a do editorial no dia seguinte às apurações. 'Peça de resistência' Que ninguém nos ouça, mas nem sempre se precisava esperar o resultado da apuração (que muitos achavam pura crendice popular ou superstição) para o editorialista ir até a sua Remington e lá dedilhar, em uns poucos minutos, a sua peça de resistência. Esse nosso querido editorialista era, quase sempre, o camarada mais velho e experiente do jornal, ligeiramente biriteiro, caspento, danado de cínico, grande contador de casos ligados à profissão. Seu editorial levava o invariável título de “Lição das Urnas” e constituía, em matéria de virtuosismo, uma espécie de Clair de Lune de seu repertório. Nele, no “Lição das Urnas”, a cada rara eleição, mudavam apenas alguns adjetivos e a pontuação. O “Lição das Urnas”, se eu tivesse que resumir seu sentido e conclusão, era simples: não significava coisíssima nenhuma. Isso, no meu entender, e no da maioria das pessoas com quem eu me dava, não podia ser mais adequado. A lição contida nas urnas, concluíamos nós, cínicos em flor, era precisamente isso: não queria dizer absolutamente nada, puro blablablá, não mudaria neca de petibiriba. Lendo e ouvindo analistas e comentaristas “realmente técnicos” fazendo o apanhado dessa – qual é o substantivo coletivo para eleições? Pleitorréia? –, dessa onda tsunami de eleições que varreu o mundo, do Oiapoque ao Chuí, estendendo-se até o Uruguai e a Venezuela, passando pela Ucrânia, e – como ignorar? Como evitar? – nosso “grande irmão do norte”, reporto-me à uma das frases do editorial que quase memorizei: “É de ressaltar que só a ausência de contenda eleitoral constitui revés político”. No que todos nós podemos cair no chão e rolar de tanto rir. |
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