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Não aceito imitações | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Nos meus tempos de garoto, na música popular, não havia imitadores, era tudo cantor ou cantora influenciado por fulano ou sicrana. Quando o rapaz ou a moça beirava a mediocridade, costumava dizer, com muita educação, que era da escola de – e seguiam os nomes populares de época – Orlando Silva, Sílvio Caldas, Francisco Alves. Com uma pronunciada ênfase em Orlando Silva. Tinha cantor que não acabava mais fazendo o curso na escola do bom Orlando Silva, alcunhado, com propriedade, o Cantor das Multidões. Lá estão, ou estavam, que não me deixam mentir, o Nelson Gonçalves, Gilberto Alves, Francisco Carlos e até mesmo Lúcio Alves e João Gilberto. Esses dois, para sermos justos, sempre cuidamos de chamar de “influenciados” por Orlando Silva. Era o jeitão que tinham de encarar a música. Tinha mais a ver com musicalidade do que semelhança em voz, timbre e interpretação. Claro que havia a cópia flagrante, que até programa de rádio incentivava isso: o chamado “Papel Carbono”. Alguém podia ser mais papel carbono do Francisco Alves do que o João Dias? Foi só Chico Viola, o chamado Rei da Voz, desaparecer na virada da montanha para que assumisse ao trono, de coroa na cabeça e cetro, o mui medíocre João Dias, no que passou a ser apodado, claro, de o “Príncipe da Voz”. Não colou. Toda essa hora da saudade, esse pinho no colo, é para chegar a 2004 e dar a estonteante estatística de que um em 3.400 americanos é imitador de Elvis Presley. Ao todo, nos Estados Unidos, há 85 mil imitadores, comparados a apenas 150 em 1977, ano em que o roqueiro bateu os sapatos de camurça azul. Nesse ritmo – e que ritmo! – o mundo deverá contar, em 2019, com mais de 33% de sua população imitando Elvis. Não, o dado não me deprime. Acho menos infausto do que saber que as tais armas de destruição em massa continuam sendo caçadas no Iraque. Agora, que eu preferia que todo mundo estivesse imitando Orlando Silva ou Sílvio Caldas, lá isso eu preferia. |
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