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Atualizado às: 16 de novembro, 2004 - 22h14 GMT (19h14 Brasília)
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Atentados podem continuar, diz porta-voz do Hamas

Garoto amarra lenço com cores do Hamas em arma de militante
Novas ações suicidas não são descartadas pelo grupo palestino
Vestido em um bem alinhado terno azul escuro, com um tom de voz calmo e em um árabe sofisticado, Mushir Al-Masri, um dos dois porta-vozes do Hamas, afirma que "a luta do povo palestino continua" e que todos os meios continuam a ser considerados nessa luta, inclusive atentados suicidas.

O Hamas é a facção militante palestina responsável pela maioria dos ataques suicidas contra Israel e é o grupo mais forte, em termos de apoio popular, dentre as 13 maiores facções palestinas.

Recentemente, Israel ampliou seus ataques contra as lideranças do grupo, matando inclusive seu líder espiritual e principal mentor, o xeque Ahmed Yassin, em março deste ano. Embora atue em todos os territórios palestinos, o grupo tem boa parte de sua liderança e seu apoio popular na Faixa de Gaza, onde Al-Masri concedeu esta entrevista exclusiva à BBC Brasil.

BBC Brasil – Em meio a todas as mudanças após a morte de Yasser Arafat e à possibilidade de eleições, qual a posição do Hamas em relação à retomada das discussões de paz?

Mushir Al-Masri - A melhor opção para os palestinos agora é continuar com a nossa luta de resistência. Nós vamos continuar com nossa luta.

BBC Brasil – Mas o Hamas admite mudar algo nessa resistência, ou isso significa a manutenção dos ataques contra Israel como hoje?

Mushir Al-Masri - Há diferentes táticas para a nossa resistência e nenhuma das várias facções, nem nós, do Hamas, podemos abandonar essa resistência. Os métodos que serão usados agora ainda dependem de discussões internas.

BBC Brasil - Qual a posição em relação à eventual saída de Israel de Gaza? O que o Hamas pretende fazer?

Mushir Al-Masri - Nós pedimos para que seja formado um governo de unidade para governar a Faixa de Gaza e pedimos também pela união de todos os palestinos.

BBC Brasil - Mas o Hamas quer ser parte de um eventual novo governo?

Mushir Al-Masri - A participação de todas as facções é o que dará força para um novo governo em Gaza. O Hamas já deu para a intifada as suas melhores lideranças, para a causa palestina.

BBC Brasil - Se entendi bem, o Hamas quer um lugar no governo local que será formado na Faixa de Gaza na eventualidade da saída de Israel?

Mushir Al-Masri - Primeiro queremos estabelecer uma liderança para controlar toda a confusão deixada por Israel e pela Autoridade Palestina. Por isso queremos que todas as facções cheguem a um acordo sobre isso, mas vamos esperar a saída dos israelenses para definir como deve ser esse novo governo na Faixa de Gaza.

BBC Brasil - Qual a importância da saída de Israel de Gaza, se isso realmente acontecer?

Mushir Al-Masri - Para nós, a saída de Gaza vai representar uma grande vitória para a resistência e para o povo palestino, porque o Exército de Israel percebeu que seu poder não é suficente para dominar Gaza.

BBC Brasil - Se a Autoridade Palestina pedir o fim das agressões contra Israel como forma de avançar nas negociações de paz, qual será a posição do Hamas?

Mushir Al-Masri - A resistência contra Israel não é mais uma luta só do Hamas, mas de todo o povo palestino. Nós não vamos abandonar essa resistência agora. Afinal, como podemos parar a nossa resistência enquanto Israel ainda está matando nossas crianças e nosso povo. É o nosso direito lutar.

BBC Brasil - Mas o Hamas pretende continuar com os atentados suicidas?

Mushir Al-Masri - O Exército israelense utiliza todos os meios para atacar o povo palestino, os nossos civis. Eles mataram uma menina em Haifa, recentemente, com mais de 20 tiros. Por isso consideramos que podemos usar todos os meios para atacar Israel, e os atentados suicidas não vem do nada, eles ocorrem por causa da nossa frustração e são uma das formas de atacar o Exército de Israel.

BBC Brasil - Mas esse método é eficaz ou apenas prejudica a causa palestina?

Mushir Al-Masri - Os atentados suicidas criaram um novo equilíbrio entre o Exército israelense, com todo o seu poder de fogo, helicópteros e tanques, e os palestinos. Os israelenses chutaram a gente da nossa terra. Como vamos reagir a isso? Vamos ficar de braços cruzados?

BBC Brasil - Mas eles são eficazes?

Mushir Al-Masri - Nos últimos dez anos Israel nunca havia falado em sair da Faixa de Gaza. Agora eles estão falando seriamente em retirar os assentamentos e seus soldados daqui, porque eles sentem que a solução militar não está funcionando e o Exército de Israel está admitindo que mais de 40 operações na Faixa de Gaza todos os dias não estão funcionando.

BBC Brasil - O Hamas aceita a solução de dois Estados, o de Israel e o Palestino, vivendo lado a lado?

Mushir Al-Masri - Nós aceitaríamos uma trégua de longo prazo, e nesse ponto gostaria de citar o xeque Ahmed Yassin (líder espirutual do Hamas assassinado por Israel em março), que disse que poderíamos aceitar as fronteiras de 1967 (tamanho que as terras palestinas tinham antes da Guerra dos Seis Dias com Israel), o direito de retorno dos palestinos a Israel (existem cerca 5 milhões de palestinos exilados em várias partes do mundo) e a parte oriental de Jerusalém como capital palestina (hoje Israel ocupa a parte de Jerusalém que era dos palestinos até 1967).

E eu falo sobre isso do ponto de vista humanitário. Eu aceito a idéia de você receber alguém na sua terra e de compartilhar a sua casa.

BBC Brasil - Como devo interpretar essa resposta? O Hamas aceita a existência de um Estado de Israel?

Mushir Al-Masri - Novamente citando xeque Yassin, não vamos abrir mão dos direitos palestinos (recentemente, líderes do Hamas disseram que aceitariam uma trégua de longo prazo com Israel em troca de um Estado Palestino nas condições descritas pelo porta-voz. No entanto, esse mesmos líderes também disseram que isso não significaria o fim total do conflito, porque os palestinos teriam o direito, após o fim da trégua, de continuar sua guerra contra Israel para retomar todos os territórios, inclusive os que hoje formam Israel).

BBC Brasil - O senhor acredita que agora, em meio às preparações para as eleições, poderão haver confrontos entre os vários grupos militantes?

Mushir Al-Masri - Não estamos com medo de um luta entre os grupos militantes e a Autoridade Palestina, o que nós tememos agora é uma luta dentro da própria Autoridade Palestina, dentro do próprio Fatah (o maior partido político palestino e base de sustentação da AP). Mas nós estamos pedindo por união entre os palestinos, porque o que o Exército israelense quer é justamente o caos e a luta interna.

BBC Brasil - Como é a relação do Hamas e da Autoridade Palestina?

Mushir Al-Masri - Temos uma boa relação com a Autoridade Palestina. A prioridade para nós é manter a união dos palestinos.

BBC Brasil - Como está a reorganização do Hamas, depois que grande parte da liderança do grupo foi morta no último ano?

Mushir Al-Masri - A morte do xeque Yassin e de outros líderes foram grandes perdas para todos os palestinos, e não apenas para o Hamas. Agora estamos definindo internamente quem são os próximo líderes do Hamas. Mas, por causa das questões de segurança, algumas dessas lideranças poderão ser conhecidas, mas outras terão que ficar escondidas.

BBC Brasil – Qual a expectativa do senhor para o futuro?

Mushir Al-Masri - Quando e como, não sabemos, está nas mãos de Deus, mas a libertação da Palestina virá com certeza.

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