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Caio Blinder: Bush comanda debate ao associar Iraque ao terror | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
A menos de dois meses das eleições, vários números deveriam trabalhar a favor do candidato democrata, John Kerry, como, por exemplo, a marca simbólica de mil soldados americanos mortos no Iraque, superada na semana passada. Mas o Iraque, no final das contas, simboliza a incapacidade de Kerry de tirar partido da insatisfação da opinião pública com George W. Bush. O resultado é a vantagem do presidente nas pesquisas. No geral, esta dianteira já parece menos folgada do aquela evidenciada logo depois da convenção republicana em Nova York. Muito se fala que a dinâmica eleitoral é de polarização e que em outubro Bush terá saudades do salto que deu em setembro. Mas o fato é que, no aqui e agora, há uma percepção de que novembro, o mês definitivo, será do presidente. Há uma discussão interminável sobre como Kerry deveria se comportar na reta final da corrida eleitoral (personalizar ou não os ataques contra Bush e focalizar mais em economia ou não). Há também uma dúvida mais direta: será que Kerry é ruim de campanha? O problema não é a mensagem, mas o mensageiro. Em contrapartida, não há dúvida que Bush é bom de campanha. Mistura Para alguns críticos do presidente, trata-se simplesmente de uma mistura de muito talento eleitoral e pouco escrúpulo. Outros preferem concentrar sua amargura na própria campanha de Kerry: será que os estrategistas democratas não sabiam que o outro lado iria disparar tudo quanto é tipo de rojão? Quem não sabe se defender, merece apanhar, especialmente num ano em que a campanha gira justamente em torno do tema de quem é o melhor candidato para ser o comandante-em-chefe. Bush até agora impôs a agenda da campanha e transformou a eleição num referendo sobre Kerry quando normalmente as questões giram em torno do presidente de plantão em busca de um segundo mandato. Bush surfa com habilidade na onda do 11 de setembro e cristalizou entre os americanos a crença de que o Iraque é parte de um conflito global contra o terrorismo. Nas últimas semanas houve menos debate sobre as armas de destruição em massa que nunca foram encontradas no Iraque e que justificaram a invasão e mais discussão sobre as inconsistências de Kerry. Economia Os democratas tentam trazer economia para o centro do debate eleitoral e, no entanto, segurança nacional (com esta mistura ardilosamente preparada de Iraque e terror) comanda o espetáculo. Sobre o Iraque em si é fascinante ver como Bush ainda consegue ser o beneficiário. As pesquisas mostram os americanos rachados quando perguntados se compensou ir à guerra ou não. Apesar da polarização, a opinião pública ainda considera o presidente, por uma margem folgada, mais bem preparado do que Kerry para lidar com a crise. O professor John Mueller, da Universidade Estadual de Ohio, e um dos maiores especialistas no estudo de relação entre guerra e a Presidência, considera que os benefícios de Bush são insustentáveis a longo prazo. Ele diz que o Iraque é o "maior desastre da política externa desde o Vietnã" e que "não há como conter os insurgentes sem um alto número de baixas americanas". No Vietnã e na Coréia, o aumento de mortes americanas levou a um declínio do apoio popular ao presidente. As dúvidas crescem sobre o Iraque e a marca dos mil americanos mortos teve impacto. Mueller, porém, reconhece, que esta erosão do apoio a Bush talvez não seja suficientemente rápida para afetar o resultado das eleições. A curto prazo, a história parece estar a favor do presidente. Kerry tem poucas semanas para reverter esta marcha. |
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