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Análise: Colapso palestino não interessa a Sharon e Bush | |||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
O governo Sharon e seu aliado George W. Bush querem Yasser Arafat na lixeira da história, para não dizer coisa pior. Em momentos de maior elegância diplomática, o veterano, acuado e teimoso líder palestino é definido em Jerusalém e Washington como "irrelevante" no cenário do Oriente Medio. Arafat vive mais um daqueles momentos dramáticos e teatrais em que sua sobrevivência política e pessoal está em jogo. Nas palavras do demissionário primeiro-ministro palestino Ahmed Korei, há uma situação sem precedente de caos nos territórios palestinos, que culminou no sequestro do ex-chefe do servico de segurança em Gaza, Ghazi Al-Jabali, por integrantes das Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, ligadas a Arafat e também a alguns dos mais sangrentos atentados terroristas em Israel. Sharon e Bush contribuíram para tal estado de coisas porque permitiram o enfraquecimento das já frágeis instituições palestinas. Mas evidentemente existe a imensa responsabilidade doméstica para um quadro que no Wall Street Journal é rotulado de "somalização da Palestina". Num gesto sem precedentes, o enviado especial da ONU para o Oriente Médio, o norueguês Terje Roed-Larsen, disse na semana passada que Arafat carece de "vontade política" para combater o terror e a corrupção. Os clamores por reformas vieram também de outros setores que costumavam ser menos críticos da liderança institucional palestina, como é o caso do presidente egípcio Hosni Mubarak, que enfrenta suas próprias pressões por mudanças. Primo Arafat indicou o seu primo Moussa Arafat para chefiar a seguranca em Gaza. Diante da indignação popular, Yasser Arafat recuou e colocou alguém acima do seu primo na estrutura de comando, mas é pouco para abafar a crise. Não se sabe exatamente quem está encarregado da segurança palestina e os sequestradores de Al-Jabali estavam mais para vigilantes do que paladinos da justiça. Existe uma corrida pelo poder em Gaza diante da decisão do governo Sharon de retirada unilateral do território no ano que vem, uma decisão rechaçada pela extrema-direita israelense, mas abençoada tanto por Bush como pelo candidato presidencial democrata John Kerry. Grupos seculares que são subprodutos do Fatah de Arafat brigam entre si enquanto os radicais islâmicos ensaiam seus movimentos para ocupar o vácuo de poder. No jornal palestino Al-Ayyam, Tawfiz Abu Baker advertiu que o que está acontecendo em Gaza é apenas o começo. Sem genuínas reformas, haverá uma "grande explosão" nos territórios palestinos. À primeira vista, o caos confirma os piores preconceitos de Sharon e Bush (e Kerry) sobre a liderança palestina, mas o espectro de um colapso não convém a ninguém. Um forte candidato de israelenses e americanos para ocupar o vácuo de poder após a retirada de Gaza é o ex-ministro de Segurança palestino Muhammad Dahlan. Ele está na linha de frente nas pressões sobre Arafat para a implementação de reformas. Dahlan eventualmente poderá ser um interlocutor em conversações de paz caso tenha condições de substituir Arafat e se impor entre as facções palestinas. Numa entrevista ao New York Times, Dahlan advertiu que os palestinos estão na encruzilhada. Um caminho é um Estado independente. O outro, a Somália. Por estes dias as perspectivas não parecem muito promissoras. |
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