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Atualizado às: 31 de maio, 2004 - 12h47 GMT (09h47 Brasília)
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Arte é fogo
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Arte é fogo e fogo é arte. O desastre ocorrido semana passada correu mundo. Acho. Um vasto depósito ardeu em Londres num holocausto que custou a existência de, segundo alguns críticos, cerca de 50 anos de arte britânica.

Lá se foram 50 telas de Patrick Heron, 22 de Gillian Ayres, 16 do controvertido Damien Hirst (aquele dos bichos preservados em formol), além de Patrick Caulfield, Rebecca Warren, Peter Davies, Jason Brooks, Enrico David, Steven Gontarski e Marcus Harvey. Como é? Você nunca ouviu falar dessa gente? Pois é. Aí é que está o busílis, conforme se dizia na época de uma pintura bem comportada e conservadora como a dos cubistas e dadaístas.

Boa parte das obras mais de vanguarda, as ditas conceituais, pertenciam ao zilionário Charles Saatchi, publicitário e um dos homens que bolaram o esquema de propaganda que levou a então senhora Margaret Thatcher ao poder.

Saatchi é um colecionador e incentivador da arte ousada, das instalações cuja única missão parece ser puxar pelo que há de mais filisteu nas mentes da burguesia, da classe média.

A arte conceitual, as instalações, tudo isso, são tão cansativas quanto as piadas com dois dedos de testa feitas a seu respeito.

O que corre de piadas feitas com o sinistro é uma chatice. Quase tudo tendo a ver com o que eu disse logo no começo: que fogo também é arte, que isso também é uma forma mais elegante e radical de se conceitualizar, que não há instalação como os bravos soldados do fogo lutando contra chamas.

Nos dias que se seguiram à conflagração, lamentou-se e chorou-se também o ocorrido. Ninguém teve pena das companhias de seguro que vão ter que reembolsar os donos das obras de arte.

Perdido, quase escondido, no meio de tudo que foi publicado, um pequeno dado que se presta a uma indagação mais séria: o que é que tanta arte estava fazendo num vasto depósito londrino?

A resposta é simples. Os zilionários feito o Saatchi não estão muito interessados em ter aquilo dentro de suas mansões ou palacetes.

Tacaram tudo no depósito esperando que valorizem, que virem o máximo possível de arte, de preferência beirando os “Girassóis” de Van Gogh que, outro dia mesmo, andou batendo recorde de venda num leilão e, agora, com toda certeza, se encontra escondido em outro depósito esperando – esperando, por certo, não as chamas mas que as labaredas da cobiça e da vaidade humanas o valorize.

Parafraseando a velha frase do bom burguês: eu posso não entender de arte, mas incêndio é comigo.

Arquivo - Ivan
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